Aos poucos, os bares adquirem uma certa identidade, baseada na afinidade entre os fregueses. O bar do título fica na Zona Sul carioca e recebe uma clientela ligada à imprensa, ao teatro e à TV. Todo mundo assim, meio intelectual, meio de esquerda, meio acima dos 40, o que, em 1983, significava meio cansado de derrotas coletivas e individuais, mas sem condições de perder de todo as esperanças.
A trama gira em torno do casal Ana (Marília Pêra) e Zeca (Hugo Carvana), ela atriz, ele roteirista da Globo. Não se menciona o nome "Globo", mas a emulação é óbvia (o diretor geral se chama "Baby", referência explícita ao todo-poderoso Boni daqueles tempos). Ambos queriam fazer coisa menos medíocre da vida, mas têm filhos para criar e dívidas a pagar. Até que Zeca, num rompante, chuta o emprego para cima, e Ana, indignada com tamanha irresponsabilidade, chuta Zeca para cima.
É a velha e sempre atual história tipo "O Feijão e o Sonho" (Orígenes Lessa), aqui muito mais dolorosa porque vivida por uma geração que sonhara coisa muito diferente para o mundo, o país e a carreira. E que acaba tendo que ouvir da boca de um garçom sintomaticamente apelidado de "Prepúcio": "você não consegue mudar nem a cueca, quanto mais o sistema".
Uma geração que não encontra lugar entre a caretice dos velhos, a porralouquice dos moços e o oportunismo de alguns de seus membros. Que se vê obrigada a colocar seu potencial intelectual a serviço dos inimigos de ontem. E que, por isso mesmo, bebe, aos borbotões. Sua única catarse é poder ir para o bar e partilhar sua desilusão com seus iguais.
Pois muito bem: o bar está sendo vendido. Nem isso restou, e aqui aparece o verdadeiro tema do filme: a finitude. Finitude de tudo: da carreira, dos relacionamentos, dos sonhos, da vida. É mais amargo que pinga com carqueja: o bar, espaço republicano por excelência, dando lugar a um shopping center. O sonho dando lugar ao feijão (ou ao cassoulet) de alguns.
É ao mostrar a fraqueza de seus bebuns, sua condição imperfeita, incompleta e incompreendida, que o filme consegue transformar uma narrativa banal em uma história ao mesmo tempo comovente e divertida. Você se solidariza com o sofrimento dos personagens para, cinco minutos depois, estourar de rir das besteiras que eles fazem.
Sim, porque essa história tão triste é contada com enorme bom humor (e tem outro jeito de se contar histórias de bêbado?). Além disso, não se pode esquecer que Carvana, além de atuar, também dirigiu o filme e participou do roteiro, o que, inevitavelmente, nos leva ao terreno da comédia debochada, ainda que um pouco melancólica.
Também merece destaque o elenco excelente: além do casal protagonista, Nelson Dantas, Daniel Filho, Louise Cardoso, Sylvia Bandeira, Paulo César Peréio, Antônio Pedro, Anselmo Vasconcelos e até o saudoso Wilson Grey marcam presença.
Enfim, "Bar Esperança" é um filme recomendado para todos, mas especialmente para quem bebe (ou bebeu um dia) e para quem sonha (ou sonhou um dia).
Advertência: quem tem problemas com a idade deve apreciar com moderação: é aquele tipo de filme que nos mostra com somos velhos e antigos. Sabão em pó "Mago Limão" e óleo de soja "Violeta" são algumas marcas que aparecem, além de um carro em forma de tênis (?!?!) Olympikus.
Serviço: lançado em VHS no período mesozóico, não saiu em DVD, e há muito tempo não passa no Canal Brasil. A lagartixa verde conseguiu a cópia dela via download, o que, como vocês sabem, é ilegal.
Um comentário:
Vi o filme,não sabia que representava tanta coisa.Vou rever.
Postar um comentário