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quarta-feira, 7 de março de 2012

Fumaça pelas ventas

Ah, vê se não enche!



Depois dos imbroglios na Câmara Municipal de Belo Horizonte envolvendo aumentos do próprio salário e coxinhas familiares, eis que alguns vereadores resolvem se redimir perante a opinião pública propondo a proibição do cigarro em parques e em praças. Dizem que a inspiração vem de leis existentes em Nova York e em Tóquio. É o que informa o AndreaNews Estado de Minas de hoje.


Em primeiro lugar, deve-se louvar este hábito de se inspirar em grandes cidades. Quem sabe um dia não resolvem imitar o metrô de Nova York e o ensino público de Tóquio?


O excelentíssimo presidente da Câmara, Leo Burguês (aquele da coxinha), acha o projeto "muito positivo". Censura no nariz dos outros é refresco, né, vereador?


Os proponentes dos projetos de lei argumentam com a questão do mau exemplo para as crianças nas praças e parques. Pois é.


Demonstrando mais uma vez seu espírito cidadão, vem a público o Canal Fofão com sugestões de mais algumas iniciativas que poderiam acabar de vez com todos os maus exemplos que ameaçam nossas crianças.


1 - Proibir o Xodó na Praça da Liberdade e fechar todos os McDonalds e similares nos shopping centers - fast food também é mau exemplo, e obesidade infantil é a praga do momento.


2 - Botar para funcionar as leis que proíbem venda de cigarros e bebidas alcoólicas a menores. Não há pior exemplo do que uma lei que não é fiscalizada.


3 - Proibir a filiação de menores a torcidas organizadas - algumas apadrinhadas por vereadores - que vivem dando mau exemplo ao quebrar as cabeças dos seus desafetos.


4 - Punir os meios de comunicação que submetam as crianças a maus exemplos de comportamentos racistas, sexistas, homofóbicos etc.


5 - Multar de forma diferenciada os pais que dão mau exemplo ao cometer infrações de trânsito com os filhos ou outras crianças dentro do carro.


6 - Cassar vereadores envolvidos em desvio de verbas, nepotismo, espancamento de travestis e outros maus exemplos que me tomariam o dia inteiro para relatar.


7 - Reduzir o salário dos vereadores ao nível de um funcionário municipal concursado de nível superior - seria um bom exemplo de espírito público.


A lista poderia se estender, mas eu tenho que ganhar a coxinha de cada dia, e ainda descolar algum para o cigarro picado. Que vou fumar onde me der na telha.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Minha várzea, minha vida

Poste de madeira dá nisso...

Belo Horizonte é uma cidade tão bem administrada que nem o Prefeito quer morar aqui. Talvez por autocrítica, a criatura que ocupa o gabinete principal da Av. Afonso Pena, 1212, resolveu vender a cidade inteira, até mesmo as ruas. A última novidade é a venda dos campos de futebol de várzea da cidade. Diz ele que vai investir os recursos no programa "Minha casa, minha vida". Sabem que pode até ser verdade?

Porém, até a enxurrada sabe que o motivo da venda é outro. O verdadeiro programa interessado é o "meu condomínio de luxo, minha vida" - a própria PBH reconhece que os terrenos em questão são "valorizados". E a mesma enxurrada sabe que a especulação imobiliária está entre os principais financiadores de qualquer campanha eleitoral vitoriosa na cidade. Este ano há eleições, então é só somar dois milhões mais dois milhões que você entende o resto.

Mas, por um breve momento, consideremos que o Poste esteja sendo sincero. Então, estaria tudo certo - para fazer moradia popular é válido acabar com a diversão dos pobres, certo?

Errado. É errado que os pobres tenham que escolher entre a diversão e a moradia, enquanto os ricos lucram com uma e com outra. Mas, mesmo assim, se a nominada criatura insiste tanto em investir em moradia para o povo, temos algumas sugestões de próprios municipais a serem vendidos para arrecadar os recursos necessários:

1 - Os mandatos dos vereadores (se nenhum dos edis ousa contrariar o Pimentécio, suponho que a Prefeitura seja dona dos cargos).

2 - A Praça da Estação (já que só a Globo pode fazer eventos no local, deve estar disposta a adquiri-lo).

3 - O Bulevar Arrudas (melhor vender antes que as chuvas detonem de vez o valor de mercado).

4 - Os pontos de wi-fi no centro da cidade (quem é louco de abrir um notebook por ali?)

5 - A Praça da Liberdade (os compradores fariam fortunas cobrando entradas dos manés que param para ver a decoração de Natal).

6 - A Região Noroeste, inteira (até o Lehmann Brothers administraria isso aqui melhor do que a PBH).

7 - A BH Trans(torno) (é só uma questão de fazer as empresas de ônibus pagarem por algo de que já usam e abusam).

8 - A poluição sonora (se som é energia, o ruído de BH deve dar para alimentar Nova York pelo resto da vida).

9 - O Parque Aquático Cristiano Machado (em alguns dias vira sauna).

10 - As cúpulas municipais do PT e do PC do B (não que valham muita coisa, mas nada melhor do que livrar-se de um trambolho enferrujado).

Tá vendo, prefeito? Não é preciso mexer no lazer do pessoal. Quanto aos especuladores, sugira que façam condomínios em Brumadinho.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Travessia malfadada em manhã ensolarada

Vocês acham isto bonito?

Eu tinha cá uma postagem pronta para ser escrita. Mas desisti.

Era sobre o trânsito, e focava no problema do excesso de carros nas ruas. Analisava o processo de mitificação do automóvel no Brasil e no mundo, discutia as relações entre sociedade, mercado e Estado, colocava a questão do direito aos espaços públicos e apelava para a lógica da sobrevivência na tentativa de demonstrar que, em breve, teremos de sair da cidade para que os autos a possam habitar em nosso lugar.

Mas desisti, repito. O que eu iria descrever, o hipotético leitor já conhece. Quanto à lógica...

Deixem-me ilustrar a questão com uma pequena história verídica, acontecida há cerca de oito ou nove anos, aqui pertinho do Novo Sumaré.

Este blogueiro andava, então, com a estranha ideia de ter cuidados com a saúde, e voltava de uma caminhada matinal (pausa para risos incrédulos) carregando duas sacolas de frutas (pois é...).

A certa altura, preparei-me para atravessar uma avenida sobre a faixa de segurança. Vocês sabem que, na ausência de sinalização luminosa, a simples presença da faixa garante a preferência para o pedestre (art. 70 do Código de Trânisto Brasileiro). Verifiquei que a distância do carro mais próximo era largamente suficiente para que este reduzisse a velocidade e fui em frente.

A condutora do carro mais próximo, uma balzaquiana bastante agradável aos olhos, de fato reduziu a velocidade, mas, certamente desconhecia a lei. Além disso, não era nem um pouco agradável aos ouvidos. Disparou a buzina e amaldiçoou minha travessia aos gritos, comparando-me a veículos de carga, mamíferos marinhos e apresentadores de talk show.

O mister de educador me acompanha em qualquer tempo e lugar. Trata-se de juramento proferido como condição para o recebimento do grau de Licenciado em História. Assim, julgando necessário lembrá-la do estabelecido no diploma legal, apontei, enquanto atravessava, para a faixa sob meus pés, como a delimitar um espaço que, naquele momento, se destinava, legitimamente, a meu uso.

Eu realmente não deveria ter feito isso.

Ensandecida, a jovem senhora pôs a cabeça para fora de seu veículo (em flagrante desrespeito às normas de segurança), especulou maldosamente sobre o que julgava ser a ocupação profissional de minha genitora, teceu considerações totalmente equivocadas sobre minha orientação sexual e ainda sugeriu usos um tanto heterodoxos para minhas vias excretoras, sugestão esta que descartei de imediato.

Tudo isto porque, no exercício legítimo do meu direito de ir e vir, fi-la perder coisa de seis a oito segundos.

Acontecimentos assim (presenciei muitos, embora só tenha sido diretamente vitimado esta vez) fazem-me descrer da possibilidade de sensibilizar a maior parte dos donos de autos de Belo Horizonte (ou do mundo?) com argumentos lógicos.

Fica, então, o relato. Já não cabe acreditar que a história seja mestra da vida. Mas ela, sem dúvida, nos ajuda a saber quem somos. Ou quem nos cerca.