Este é um filme que tinha tudo para dar errado. Misturando favela, preso político, racismo e samba, parece (para quem não o viu) aquilo que a crítica carioca Andréa Ormond chama ironicamente de "sociochanchada". Para piorar, foi produzido na mesma década em que o moralismo paternalista de "Cidade de Deus" e a perplexidade culpada de "Tropa de Elite" fizeram milhões de espectadores, o que pode levar algum incauto a pensar que está na mesma turma.Pobre de quem acreditar nisso e deixar de vê-lo (ou de quem assisti-lo esperando isso). Os pobres desse filme não são coitadinhos, e sim sujeitos históricos. Já os ricos, não são exploradores irresponsáveis, e sim... sujeitos históricos. Não há culpados a quem apontar o dedo. Lúcia Murat não está nos dando sermão, está tentando colocar nossos pesadelos em uma perspectiva histórica, talvez para que não nos percamos mais em esperanças ilusórias e discursos simplificadores. É um serviço ao país e ao cinema do país, principalmente ao segundo.
Miguel (Caco Ciocler, depois Werner Schuneman) e Jorginho (Flávio Bauraqui, depois Antônio Pompêo) são amigos desde crianças. Vindos de mundos muito diferentes, têm suas vidas unidas pelo amor dos pais ao samba. Isso lá pelos anos cinqüenta. Corta. Miguel é guerrilheiro; Jorginho, assaltante de bancos. Ambos enquadrados na Lei de Segurança Nacional, reencontram-se no presídio da Ilha Grande. Corta. Miguel é deputado; Jorginho, preso, general do tráfico. Vão se cruzar de novo.
Esses três tempos se misturam, mas prevalece o tempo da cadeia. É o Miguel guerrilheiro quem repete: "Temos todos duas vidas: a que vivemos e a que sonhamos. A que sonhamos determina a que vivemos". Verdade. Não só sua vida, mas também a de sua mãe e a de Jorginho, entre outras, foram indelevelmente marcadas pelo seu sonho de fazer história. E também pelo fato de que, como diz a máxima marxista, fazemos nossa própria história, mas não a fazemos como queremos.
Miguel e Jorginho são exatamente isso: dois personagens esmagados pelo peso da história. Representam dois países quase irmãos, mas que não conseguem olhar um na cara do outro. Que se admiram, em muitos casos se respeitam, mas não conseguem conviver, seja no samba, na cadeia ou na democracia. Que, quando se cruzam, não podem evitar o choque, no mais das vezes violento. Como pessoas, tentam romper a lógica da não convivência entre esses dois países, mas são impotentes para isso. Em suas vidas, são capazes de adiar a tragédia, mas ela chega. Mais cedo ou mais tarde.
Tudo isso filmado com competência, com roteiro envolvente, interpretação de correta para cima, angulações muito sutis e uma sensacional canção tema de Naná Vasconcelos, em que a batida de samba e o arranjo de violas e violoncelos parecem simbolizar a dicotomia presente na trama. Uma aula de como usar a técnica para aprofundar a narrativa (e não para distrair o espectador).
"Quase Dois Irmãos" não tem piedade de quem o assiste. Não aponta para esperanças, pois não as tem. A sensação depois de assisti-lo é de amargura. É tão realista em seu pessimismo que não conseguimos acreditar na mãe de Miguel (Marieta Severo) quando ela afirma que "vai ficar tudo bem" após o trágico desfecho. Afinal, seus olhos, seu passado e seu presente a desmentem de imediato.
Serviço: saiu em DVD para locação, mas só deve existir em locadoras "descoladas". Vai passar no Canal Brasil na próxima segunda, dia 10 (22h) e no sábado, dia 15 (23h). Proibido perder.
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