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quinta-feira, 3 de março de 2011

"Bruna Surfistinha": um programa e tanto


Muita gente diz que a história de Bruna Surfistinha não tem nada de especial. Concordo plenamente. Porém, o que estas pessoas não percebem é que não ter nada de especial é justamente o que a história dela tem de especial.

Em si mesma, a profissão do sexo não torna ninguém melhor ou pior do que os outros. É, ou devia ser, uma constatação óbvia, mas no cinema e na mídia de uma forma geral não é isso o que se vê. A prostituição costuma ser tratada como atividade abjeta de pessoas imorais, ou mazela social a ser extirpada em uma futura sociedade justa, ou, ainda, um mundo de glamour e prazeres intermináveis, que lembra a enferrujada imagem da "vida fácil".

Num caso, a prostituta é uma degenerada a ser posta fora do convívio social. Em outro, uma vítima, que tem que ser resgatada. No terceiro, uma heroína, digna da nossa admiração (ou inveja).

O maior acerto de Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini, é fugir desses pré-juízos. Sua Bruna (aliás, Raquel, nome de batismo) é uma menina com dificuldades de socialização, o que não a leva a "cair" no meretrício. Este aparece como uma opção entre outras, a melhor para aquela moça específica, que precisa sair de casa e ter uma renda que lhe permita algum grau de independência. Ela faz uma escolha e assume a responsabilidade por ela, ou seja: não se trata da jovem "iludida" ou "aliciada".

É esse o assunto central na tela: o custo/benefício da liberdade, os ônus e os bônus de se mandar no próprio nariz. A protagonista não tem dúvidas: por mais caro que seja, o preço vale a pena. Portanto, esqueçam qualquer possibilidade de uma "redenção": esse filme não pretende redimir ninguém, muito pelo contrário: ao final, em off, Bruna declara: "Foi como garota de programa que aprendi a não julgar, a aceitar as pessoas como elas são, como elas conseguem ser."

Não me entendam mal: o glamour está no filme, as mazelas também (Bruna se vicia em cocaína), mas nenhum dos dois se transforma em ferramenta para condenar, absolver ou glorificar as profissionais do sexo ou sua atividade. Inserem-se na realidade das meninas, que também inclui paixões, baladas, famílias e um esplêndido momento "puta pride" em um salão de beleza grãfinoide. As companheiras de Bruna podem ser amigas leais como Gabi, ou aproveitadoras inconsequentes, como Carol, mas acima de tudo são humanas.

Sem apelar para a sacanagem gratuita, Baldini fez um filme descarado, sem vergonha no melhor sentido da expressão e desprovido de qualquer pretensão de chocar o espectador ou lhe ensinar sociologia (embora acabe caindo na tentação de desnecessárias justificativas psicológicas para o homem que procura a zona - a gente vai lá para transar, é só isso). Não é genial, não é obra prima, é um filme bom e honesto, como sua personagem principal.

Personagem, aliás, interpretada com entrega, coragem e competência por Deborah Secco. Alguém precisa obrigar essa moça a fazer mais cinema, nem que seja amarrada (sem fantasias, tarados). Ela conseguiu criar um leque de diferentes tipos para a protagonista, aparentemente aproveitando sua experiência anterior. A menina Raquel remete à adolescente meio machona Carol, de Confissões de Adolescente, enquanto Bruna, em certos momentos, lembra a doce Moema de Caramuru, e em outros aquelas adoráveis vadias que Deborah interpreta em algumas novelas.

Respeitando a inteligência de seu espectador, abstendo-se de elucubrar sobre o bem e o mal e tratando o sexo como uma dimensão a mais da vida, que não deve causar vergonha nem obsessão, o filme agrada também pelos personagens plausíveis, bem construídos, e pela narrativa sem invencionices.

Em tempos nos quais o cinema brasileiro, em sua vertente dominante, tem tratado seu público como criança, como alguém a ser entretido com bobagens e instruído sobre como se comportar, essa postura dissonante de Bruna Surfistinha o credencia como alvissareira surpresa.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

É a vida...

E que venha o Oscar...

São quase seis da matina. Virei a noite terminando um artigo. Não terminei o viado do artigo. Vou terminar amanhã, digo, hoje, digo, antes do jogo do Galo. É a vida.


Já deu para perceber que não tive tempo de ver todos os filmes que concorrem ao Oscar, muito menos de fazer postagens sobre cada um deles. Vi seis. O Vencedor está aqui, prontinho para ver, mas não vai dar tempo. É a vida.

Só para não passar o dia sem apostas, vamos lá: o prêmio máximo, como sabem, está entre
O Discurso do Rei e A Rede Social. Páreo duro, pois um é tão besta quanto o outro (e A Origem é mais besta que os dois juntos). Vai ganhar o Discurso porque, nas palavras de um crítico brasileiro (esqueci quem e não vou checar agora), "a Academia gosta muito mais de reis do que de nerds." É a vida.

Colin Firth, o rei gago em questão, vai levar o prêmio de melhor ator (ele merece) e Natalie Portman, do bestinha/quase bom Cisne Negro, o de atriz (não está de mau tamanho). David Fincher, da Rede, fica com o de melhor direção, como consolação. Depois de Clube da Luta (1999) ele só vem caindo pelas tabelas. Podia ser o Barrichelo na direção que dava na mesma. É a vida.

Vou assistir lá no Zé Maria, se ele não me expulsar do bar antes do fim. E vou torcer para o excelente Inverno da Alma, que não vai ganhar nem o que a Luzia deixou na horta. É a vida.

Boa noite. Bom dia. Sei lá, tchau. Vou dormir. Ou, pelo menos, tentar.

É a vida
.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Oscar: guia dos indicados

É o melhor, mas não ganha nem
em caso de invasão alienígena


No próximo domingo, 7 de março, acontece a cerimônia de entrega do Oscar.


Não sei se vocês notaram, mas, este ano, os indicados para melhor filme foram dez, em vez dos cinco habituais. Deve ser uma espécie de medida anticrise, para aquecer o mercado: filmes indicados sempre arrastam público.

A questão é: e a qualidade? Bem, conforme já dissemos aqui, uma indicação não garante a qualidade de um filme, mas também não significa que ele é ruim. Os critérios da Academia são estranhos para nós, simples mortais. São profissionais de cinema, que têm um olhar específico sobre a coisa.

Como sempre, há porcarias e obras-primas, mas a maioria dos indicados não é uma coisa nem outra. Então, vamos tentar responder as três perguntas que interessam ao público: o filme vai ganhar o Oscar? Ele merece o Oscar? Quem (provavelmente) gostaria desse filme?

Amor Sem Escalas

Merece?
Não. No início ameaça uma reflexão bem humorada acerca do mundo corporativo, mas logo abraça os chavões detestáveis das "comédias românticas" e se torna uma delas: superficial, moralista e tedioso.

Ganha?
Não. É pobre tanto em qualidade quanto em poder de persuasão.

Quem deve ver?
Fãs de "Sex and the City".

Avatar

Merece?

Não. Embora não seja tão besta quanto aparenta, sustenta-se apenas nos efeitos especiais. Tirando estes, o que sobra é uma história de amor melosa disfarçada por um anêmico verniz ecopacifista.

Ganha?
Já ganhou, ao que tudo indica.

Quem deve ver?
Tanto faz, todo mundo já viu, mesmo...

Bastardos Inglórios

Merece?
Sim. Deliciosa molecagem de Tarantino executada com maestria e recheada pelas já tradicionais homenagens do diretor aos filmes B. É um daqueles que te dá vontade de virar cineasta.

Ganha?
Não. A Academia é careta demais para premiar um filme assim.

Quem deve ver?
Quem acha que cinema inteligente pode (e deve) ser divertido.

Distrito 9

Merece?
Sim. Ousado na linguagem, vertiginoso no ritmo, irônico e desconcertante na narrativa. Ficção científica politicamente engajada, foi, de longe, a maior e melhor surpresa de 2009. Eu votaria nele, se fosse da Academia.

Ganha?
Eu quero ser mico de circo...

Quem deve ver?
Leitores de quadrinhos, professores de História e devoradores de pipoca em geral.

Educação

Merece?
Sim. Finge-se de romance lacrimejante, mas na verdade é um drama sutil e delicado sobre a perda da inocência e o desafio de se tomar conta da própria vida. É de uma simplicidade que tem feito falta ao cinema atual.

Ganha?
Não. A Academia deve achar que é mais uma refilmagem piorada de "Lolita".

Quem deve ver?
Quem não liga para elencos milionários, não se empolga com 3D ou não sabe ainda o que quer fazer da vida.

Guerra ao Terror

Merece?
Não. É bem feitinho e tal, mas também desonesto: um filme de ação patrioteiro e maniqueísta que se vende como reflexão sobre a guerra. Se você quer esta reflexão, veja "O Mensageiro".

Ganha?
Se algum acidente impedir a vitória de "Avatar", torna-se o favorito.

Quem deve ver?
Fãs do Rambo, cadetes frustrados e militantes do DEM.

Preciosa

Merece?
Sim. Foge do convencional ao misturar racismo, obesidade e abuso sexual, e o faz com uma câmera inquieta e com um trânsito esquizofrênico entre realidade e fantasia. Reflexão madura e surpreendente sobre o universo feminino.

Ganha?
Sem casal? Sem mocinho? Sem brancos? Duvido.

Quem deve ver?
Quem acredita que educação ainda serve para alguma coisa.

Um Homem Sério

Merece?
Sim. Filme pessimista (como de praxe) e autobiográfico dos irmãos Coen, quase de humor negro. Uma crítica irônica à busca de respostas para questões que não têm resposta.

Ganha?
Não. A academia não quer ficar mal com a comunidade judaica.

Quem deve ver?
Quem acha graça na desgraça dos outros.

Um Sonho Possível

Merece?
De jeito nenhum. Paternalista, simplista e lotado de estereótipos, fica muito perto de ser um filme racista. Além de tudo, mal executado. Indicação lamentável.

Ganha?
Não creio, é ruim demais até para a Academia.

Quem deve ver?
Quem acha que negros só servem para ser músicos ou atletas.

Up - Altas Aventuras

Merece?
Sim. É um chavão da Disney, (gargalhadas, lágrimas, bons x maus etc.) mas um chavão confeccionado com extrema competência e até alguma criatividade. Aqui, os computadores melhoram uma boa história, em vez de disfarçarem as fraquezas de uma ruim.

Ganha?
Como melhor filme, não, mas levará a estatueta de melhor animação.

Quem deve ver?
"Toda a família", como dizem os comerciais deste tipo de filme.

Em breve, as apostas do blogueiro nas principais categorias.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A gestação da barbárie

Raridade: atores mirins de primeira

Estreia hoje nos cinemas "A Fita Branca", de Michael Haneke, que é o favorito para levar o Oscar de melhor filme estrangeiro e já faturou a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro.

Haneke é um cineasta que gosta de lidar com a maldade, com a perversão e com a obscuridade alojadas dentro de cada um de nós (vide o controverso "A Professora de Piano", de 2001, filme para quem tem miolos fortes), mas creio que nunca havia feito isso com tanto refinamento.

Aqui, o cenário é um lugarejo rural alemão logo antes da eclosão da Primeira Guerra. Estranhos e cruéis acontecimentos começas a perturbar a "paz" do local: acidentes provocados, incêndios criminosos, sequestros de crianças e coisas assim, sem que se descubram quem os leva a cabo nem por que.

Haneke utiliza esse pano de fundo para situar seu objeto principal: as crianças do local e a educação que recebem, recheada de silêncios, surras e frustrações as mais diversas. Aos poucos, os efeitos desse condicionamento vão se revelando de maneiras supreendentes.

Trata-se de um filme sobre repressão, que poderia metaforizar qualquer contexto político autoritário. Mas Haneke deixa bem claras suas intenções quando, logo no início, o narrador menciona "as terríveis coisas que viriam a acontecer em nosso país". Ora, quem tinha entre 10 e 15 anos em 1913 tinha entre 30 e 35 em 1933, quando aquele moço de bigode engraçado subiu ao poder em Berlim.

O que temos aqui, então, é uma reflexão não exatamente sobre o nazismo, e sim sobre o caldo de cultura que o tornou possível, principalmente no tocante a noções como obediência e crueldade. Faz lembrar o poderoso "O Tambor", de Volker Schlöndorff (que, por sinal, também levou a Palma de Ouro, em 1979). Porém, se ali tínhamos a caricatura de uma nação traumatizada, que se recusa a crescer, aqui a preocupação é entender sua forja, os elementos constitutivos da mentalidade que permitiu e apoiou a barbárie.

O melhor é que este tipo de terapia histórica através do cinema, parece estar em voga, como demonstrado pelo belíssimo "Vencer!", de Marco Bellochio, que deve estrear no Brasil em março (se conseguir driblar a miopia dos exibidores) e do qual falaremos aqui oportunamente.

Em "A Fita Branca", este trabalho é feito com competência e extremo capricho, como mostram os sete meses de preparação do elenco infantil, o uso de luz indireta para não perturbar a atuação dos pequenos e a melancólica fotografia em preto e branco, entre outros exemplos.

Para os leitores do Rio ou de Salvador pode parecer esquisito um filme destes estrear às vésperas do Carnaval. Mas em BH é ótimo: o complemento perfeito para se aproveitar os cinemas vazios, os não-engarrafamentos e o sossego que reina por aqui nesta época.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Clint, Mandela e...

Eu queria ser um mosquitinho...

Estreia amanhã no Brasil "Invictus", de Clint Eastwood. Se não está no mesmo nível dos melhores filmes do diretor, como "Os Imperdoáveis" ou "Gran Torino", por outro lado está muito longe de ser uma decepção. Veja o trailer.

O tema, como vocês já devem saber, é a África do Sul logo após a eleição de Nelson Mandela (vivido um tanto burocraticamente por Morgan Freeman). Lá, o apartheid chegou também aos esportes: o rugby era praticado e acompanhado basicamente por brancos, enquanto os negros sempre preferiram o futebol.

Mandela sabia que precisava de um mínimo de aceitação entre a minoria branca para poder governar. Uma das táticas que utilizou para atrair este público foi a valorização da seleção nacional de rugby, cujos símbolos, cores e nomes ele decidiu proteger, mesmo sabendo serem eles associados ao apartheid. Além disso, colou sua imagem à do capitão do time, François Pienaar (Matt Damon, nota 6, como sempre) e fez com que a seleção se aproximasse da maioria negra. A Copa do Mundo de 1995, disputada no país, viria a selar esta precária unidade.


Não se trata de magnanimidade, e sim da mais básica racionalidade política. A certa altura do filme, a assistente pessoal de Mandela o questiona por negligenciar compromissos importantes para atender aos interesses esportivos de "uma minoria". Sem perder a calma, ele responde que esta minoria controla o exército, a polícia e a economia. Logo...


Eastwood, porém, sabe que cinema é dinheiro (pelo menos, o americano) e que o público de cinema (não só o americano) não costuma pagar para ver filmes sobre cálculo político. Assim, embrulha toda essa racionalidade em um discurso extremamente emocional (quase piegas) sobre paz e reconciliação, além de ceder o espaço de praxe aos dramas pessoais e familiares do protagonista. Excelente para as moçoilas que amam sair da sessão enxugando os olhos.

Ocorre que isso não compromete o filme e, pensando bem, Mandela, em público, sempre preferiu falar sobre paz e reconciliação do que dar aulas de racionalidade política. Assim, de uma forma curiosa, o discurso emotivo torna "Invictus" mais realista, não menos. De qualquer forma, o diretor parece ter aprendido com Mandela ao seguir o pragmático caminho de tentar agradar a todos os públicos.

Impossível, do lado de cá do Atlântico, não comparar a atuação do líder sul-africano com o governo igualmente conciliador de Lula, sem falar em suas metáforas futebolísticas e na prioridade (absolutamente questionável) dada à conquista do direito de sediar grandes eventos esportivos.

Outros paralelos também seriam possíveis. Lá, como cá, temos governantes que (inevitavelmente, talvez) decepcionaram alguns antigos correligionários. Aqui, como lá, temos governos de líderes populares visceralmente odiados por elites que se julgam de sangue melhor e se acham donas do mundo. Mas esses já seriam assuntos para um texto à parte.

Restaria, ainda assim, a tentação de sugerir a Clint (se algum vizinho dele lê esse blog, faça-me esse favor) realizar um filme sobre o Luiz Inácio. Assim como "Invictus", poderia ser meio brega, desde que fosse realista.


Como é? Já fizeram um? Ah, sim, fiquei sabendo. Mas esse eu não vi. E não gostei.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Helena Ramos: tempo de relembrar

Helena em "Mulher Objeto", seu filme definitivo

Ao lado de Matilde Mastrangi, Helena Ramos é considerada a principal musa da pornochanchada. O Canal Brasil, que comemora neste mês 11 anos, inicia hoje uma retrospectiva de sua carreira, com filmes nas madrugadas de quarta, quinta e sexta, sempre às 0h30min.


Em papéis que iam da dona de casa frígida à prostituta de luxo, passando pela secretária alcoólatra e pela enfermeira mulher fatal (sem falar numa outra prostituta, carola - isso mesmo - em "Palácio dos Anjos"), Helena mostrou talento inegável ao longo de dez anos de cinema (1974 a 1984, aproximadamente). Se você vir os filmes hoje e achar sua interpretação afetada e artificial, lembre-se: não havia, no cinema brasileiro de então, esta interpretação naturalista que predomina hoje. Os atores eram instados a se comportar quase como no teatro, com falas empostadas e formais até para dizer palavrões.


De mais a mais, você vê Helena e ouve outra pessoa: os diretores achavam (com certa razão) que sua voz não correspondia àquele corpão todo, e ela quase sempre era dublada. Mas em termos de expressão facial e corporal, bem como de relação com a luz e com a câmera, ela chegava perto da perfeição.


De qualquer forma, o melhor da retrospectiva é que ela fornece um bom panorama da produção da Boca do Lixo, com obras de alguns de seus cineastas mais representativos.
Jean Garrett comparece com três filmes: os estupendos "Possuídas pelo Pecado" (1976) e "Noite em Chamas" (1977) e o irregular "Mulher, Mulher" (1979), que inaugurou a mania de cenas eqüinas no cinema nacional (como assim, eqüinas? Sei lá, assista ao filme). Já de Ody Fraga temos o esforçado "Palácio de Vênus" (1980). E Walter Hugo Khouri, o nosso Bergman, contribui com o belo "Convite ao Prazer" (1980)

Mas foi em "Mulher Objeto" (1981), de Silvio de Abreu (é, o mesmo que escreve novelas para a Globo), que Helena virou uma marca constante e inconfessável no subsconsciente do país ou, pelo menos, da metade masculina dele. Cheio de um erotismo tenso, febril e, por vezes, cruel, o filme estourou bilheterias, foi vendido para inúmeros países e virou um mito e um tabu ao mesmo tempo. Tanto é que ficou anos banido do próprio Canal Brasil, voltando agora para integrar este festival.


Em 1990, foi reprisado nos cinemas, e eu o vi no velho Cine Royal, hoje uma templo da universal. Naqueles tempos, esse país já estava começando a encaretar, e a plateia simplesmente não acreditava no que via na tela. Recomenda-se não perder.

Os outros filmes são obras menores, mas valem pela curiosidade. Como é? Você não tem Canal Brasil? Pois é, eu também não. Mas a Net vai liberar o sinal para quem tem pacotes furreca como os nossos de 18 a 28 desse mês. Vamos aproveitar.

Só o que eu não entendo é porque nenhum canal aberto se interessa por este tipo de conteúdo. Alguém aí duvida da quantidade de marmanjo virando a madrugada?

Como a programação da retrospectiva está difícil de acessar no site do Canal, o papai Fofão colocou aí embaixo para vocês.



09/09 às 00h30 Convite ao Prazer
10/09 às 00h30 As Mulheres Sempre Querem Mais...
11/09 às 00h32 Lucíola - O Anjo Pecador
15/09 às 00h30 Possuídas pelo Pecado
16/09 às 00h30 Iracema - A Virgem dos Lábios de Mel
17/09 às 00h30 Crazy - Um Dia Muito Louco
18/09 às 00h30 O Clube das Infiéis
22/09 às 00h30 Mulher, Mulher
23/09 às 00h30 Palácio de Venus
24/09 às 00h30 As Intimidades de Analu e Fernanda
25/09 às 00h30 Mulher Objeto
29/09 às 00h30 Bem Dotado - O Homem de Itu
30/09 às 00h30 Volúpia de Mulher
01/10 às 00h30 Noite em Chamas

02/10 às 00h30
Corpo e Alma de Mulher


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mau Presságio

O blog não costuma perder tempo falando de filmes ruins, mas "Presságio", de Alex Proyas, que estreou no Brasi na última sexta, é uma exceção.

A idéia original tinha tudo para dar um bom terror ou sci-fi: em 1959, alunos de escola americana imaginam o futuro através de desenhos e os enterram dentro de uma cápsula, desenterrada 50 anos depois. Só que um dos trabalhos não era um desenho, e sim uma enorme sequência numérica, que não por acaso cai em mãos do filho de um astrofísico do MIT (Nicholas Cage). Este, por sua vez, descobre que a sequência previa várias tragédias, como o 11 de setembro. Cabe a ele agora evitar as que ainda não ocorreram.

Interessante, como se vê. Mas o diretor Alex Proyas ("Eu, Robô") não se decide entre a ficção científica, o terror, a ação, a aventura... Mistura de gêneros é uma boa, filme sem gênero não. Além disso, a indecisão quanto à explicação dos fenômenos parece ser uma infantil tentativa de não melindrar o lobby criacionista norte-americano, sem tampouco criar caso com a comunidade científica.

Para piorar, o protagonista não pode ser um simples cientista. Tiveram que lhe arrumar uma viuvez trágica, seguida da incapacidade para novos relacionamentos, uma relação difícil com o filho e uma ruptura com o pai. Depois, ainda tentam lhe dar um par romântico. Nâo há terapia que dê jeito. Hollywood parece não conseguir se libertar desta escravidão ao drama pessoal. Tudo tem que ser feito por amor, ódio ou gratidão, tudo deve ser guiado pela emoção. Lamentável.

A tentativa de agradar a todos parece ter dado certo, a julgar pela bilheteria. Em termos qualitativos, porém, revelou-se uma aula de como desperdiçar uma boa ideia.

sábado, 28 de março de 2009

Tapa sem luvas


Eu bem que queria saber que tipo de perversão leva alguém a pegar um filme originalmente chamado "How to Loose Friends and Alienate People" e lançá-lo no Brasil com o ridículo título de "Um Louco Apaixonado", mesmo depois do livro no qual ele se inspira ter sido lançado respeitando o nome original.

O caso é que o filme em questão está em cartaz e não tem nada de mais. Comediazinha romântica tipicamente inglesa, com todos os ingredientes: humor pastelão, casalzinho simpático e as mesmas lições de moral de sempre.

Porém, se você for ao shopping e não encontrar ingressos para o filme que ia assistir, talvez valha a pena se arriscar a ver este. A história se desenrola nos bastidores de uma revista de celebridades (a "Vanity Fair", no livro original) e é baseada na experiência real do jornalista britânico Toby Young.

Assim, são mostrados a vaidade, o carreirismo, a futilidade e até mesmo a corrupção tão típicos deste mundinho de celebridades instantâneas e roupas de griffe. Nada que a gente ainda não soubesse, mas ver isso na tela dá um gostinho de vingança.

sexta-feira, 27 de março de 2009

O mito em carne e osso


Estreia hoje no Brasil a primeira parte de Che, superprodução dirigida por Steven Soderbergh e estrelada por Benício del Toro. Esse primeiro filme mostra o encontro de Guevara com Fidel no México e a guerra revolucionária em Cuba. O segundo, ainda sem estreia marcada, trata da luta do Che na Bolívia, culminando com sua morte em 1967.

Os chamados "filmes históricos" correm sempre muitos riscos. O principal deles é o anacronismo (enxergar no passado valores ou atitudes típicos do presente). Também ocorre muito o didatismo, quando o realizador acha que seu filme tem que dar aula de história. Poderíamos citar ainda os excessos ficcionais, ou seja, o filme, inicialmente "baseado em fatos reais", fantasia tanto em torno destes que acaba por se desvincular inteiramente deles.


Che
conseguiu escapar destas armadilhas, o que talvez determine uma certa frieza da crítica e a provável rejeição do público. É que personagens como este geram uma expectativa relacionada às nossas concepções sobre ele. E, salvo raríssimas exceções, essas expectativas serão frustradas.

Não está ali o herói mítico dos militantes secundaristas, empunhando altivamente seu fuzil contra todas as injustiças. Muito menos o assassino sanguinário das páginas de Veja, para quem Guevara merece a "lata de lixo da história" (o que é, no mínimo, mais digno que merecer a lata de lixo da esquina, como certas revistas). Também não esperem o humanista meio bocó que Walter Salles inventou em "Diários de Motocicleta".


O Che de del Toro e Soderbergh é antes de tudo humano. O medo em seus olhos é visível no barco que leva os primeiros revolucionários a Cuba. Ele tem constantes ataques de asma, sério inconveniente para quem se dedica à guerra. Não hesita em ser solidário, mas tampouco em comandar pelotões de fuzilamento. Não é um homem que tem todas as respostas; ao contrário, não consegue compreender seu fracasso na Bolívia. Mas ele tem um ideal, e isso para ele está acima de tudo.


O mais instigante é que esta visão foi baseada fielmente nos escritos do próprio personagem. Isso, somado à atuação, no mínimo, impressionante de del Toro, aproxima o filme de uma espécie de registro documental, uma reconstituição, um docudrama, algo assim. Reside aqui a força e a fraqueza da obra.


Sim, pois, se de um lado essa opção aproveita ao máximo toda a riqueza do personagem Guevara, de outro ela se torna meio opressiva (pelo menos para quem assiste às duas partes - 4h20 no total - em seguida). Faltou uma certa ousadia em termos de luz, montagem e enquadramentos, algo que falasse mais com os sentidos do público, e não só com o cérebro.


Implicâncias à parte, é um filme quase obrigatório, pelo cuidado na produção, o brilho de del Toro, as minúcias do roteiro e, principalmente, por ser um bom ponto de partida para pensarmos um pouco sobre nós mesmos e o nosso tempo. Guevara tem muito a nos dizer, e para ouvi-lo não é preciso gostar dele.


Despido das vestes angelicais ou demoníacas, o Che se aproxima mais de nós e se dá a conhecer. Para conhecê-lo, porém, não precisamos partilhar de suas idéias, mas sim perder por um momento o verniz do século cínico em que vivemos e aceitar que um sujeito foi capaz de fazer a guerra em três países estrangeiros por que acreditava nestas idéias e rejeitava a injustiça. Algo impensável nessa tal de "Era de Aquarius".

quinta-feira, 26 de março de 2009

Cinema a leste do Danúbio


Parece que foi ontem, mas lá se vão vinte anos desde a queda do Muro de Berlim e do autointitulado "Socialismo Real", um fenômeno múltiplo, variado no tempo e no espaço, que teve sua manifestação mais traumática na ditadura de Ceausescu na Romênia.

Talvez pela efeméride, a mostra "Cinema Romeno Atual", em cartaz no Cine Humberto Mauro (lembrem-se: inteira a R$ 5), traz três filmes que remetem ao período.

Como eu Festejei o Fim do Mundo (2006) exibe a falta de perspectivas de uma adolescente em meio aos divertidos delírios de seu pequeno irmão, em um país que, literalmente, cai aos pedaços, sem que a prepotência de funcionários apegados a pequenos poderes se abale. O maior mérito do filme é mostrar justamente o quanto as ditaduras distorcem a ética e o bom senso até das pessoas "comuns". Dê um desconto para o microfone que invade o quadro em mais de dez cenas.

Outro é o ângulo de 4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007), premiado com a Palma de Ouro em Cannes (também não era para tanto), que fala sobre uma jovem que decide abortar e conta com a ajuda (e que ajuda!) de uma amiga. O regime, aqui, é sugerido na onipresença do mercado negro e, sobretudo, no ponto de vista permanentemente clustrofóbico da câmera. Mas a reflexão central do filme é sobre escolhas que diriam respeito a qualquer tempo e lugar.

A Leste de Bucareste (2006) é o melhor e mais divertido dos três. No aniversário da "revolução" que derrubou Ceausescu, três participantes se encontram em um programa de TV para relembrar e discutir aqueles eventos, o que acaba em briga. Duas questões chamam a atenção aqui: a construção seletiva da memória e a frustração de perceber que a liberdade não veio acompanhada da dignidade.

Ótima chance de conferir uma escola cinematográfica praticamente desconhecida por aqui e de compartilhar três diferentes pontos de vista sobre uma realidade histórica raramente discutida com a profundidade que mereceria.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A morte da velha América


Há duas formas de se assistir a "Gran Torino", novo filme de Clint Eastwood que estreia hoje nos cinemas.

No primeiro caso, temos uma história clássica de redenção através da tolerância. Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coréia, rabugento, racista e algo violento perde a esposa e põe-se a aguardar sua própria morte. Terá que conviver com os vizinhos asiáticos, que odeia, e neste processo se aproxima de um deles. Ambos aprenderão muito com esta amizade. Clichê? Sim, e Eastwood sabe como ninguém trabalhar com este tipo de material sem cair na obviedade.

Porém, há uma forma mais interessante de se acompanhar o filme. Junto com Kowalski está morrendo um país: aquela "America"
(como os estadunidenses gostam de chamar seu país) de homens durões, da autosuficiência, da indústria automobilística. E está nascendo um outro, cheio de orientais e latinos, e no qual os negros são visíveis, agora mais do que nunca. Mas não espere sentimentalismo nostálgico: fica claro que foi a própria América que morre quem criou a que agora nasce.

Nenhum lugar poderia ser melhor para isso que a empobrecida Detroit destes tempos de crise, onde os americanos "legítimos" (ou seja, brancos: o protagonista é de origem polonesa, o barbeiro, italiano, o padre, irlandês) assistem com perplexidade o surgimento desta nação multiétnica, cujos habitantes têm regras próprias, típicas de quem aprendeu a ser discriminado.

Kowalski é "old fashion" até o paroxismo. Guarda armas em casa, bebe cerveja em lata na varanda, fuma e está sempre pronto para a briga. Amaldiçoa o filho que vende (e usa) carros japoneses. Ele trabalhou na Ford por décadas e tem, além de uma velha picape da marca, um Gran Torino 1972 (parecido com o Maverick - foto abaixo). Justamente este carro irá aproximá-lo do garoto oriental.


Quando o garoto tem problemas, tentará resolvê-los deste jeitão "meus tempo" e verá que os tempos são outros e, principalmente, não são dele. Terá que lidar com os novos vilões de uma forma inusitada.

Essa fratura entre o novo e o velho, o familiar e o desconhecido, perpassa todo o filme e reafirma uma posição cara para Eastwood: devemos dar espaço ao futuro, mas este não pode prescindir da referência do passado.

Kowalski morre em vida ao ver seu mundo se extinguir. Seu corpo definha junto com os valores que defende. Sua América escarra sangue, como ele próprio. Aprendemos a gostar dele na medida em que compreendemos que seu sofrimento não é o de quem perde a vida, e sim o de quem é abandonado pela história.

Eastwood interpreta e conduz esta narrativa com a maestria de sempre. Um raro antídoto para a mesmice que toma conta dos Multiplex da vida. Se levar a namorada, compre, além da pipoca, lencinhos de papel para ela.

segunda-feira, 16 de março de 2009

And the Otelo goes to...

Saiu a lista de indicados para o Grande Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro. Os vencedores, que levam o Troféu Grande Otelo, serão conhecidos no dia 14 de abril. Assim como no Oscar, os eleitores são profissionais da área (atores, diretores, roteiristas, técnicos etc.), reunidos na Academia Brasileira de Cinema, fundada em 2002.

Não é verdade que eles entendam da sétima arte mais do que nós só porque trabalham com isso. Seria o mesmo que pensar que o Júnior Baiano ou o Bebeto dariam ótimos comentaristas de futebol. O mais interessante nesse tipo de premiação é que ele nos permite perceber como o cinema brasileiro se pensa, que caminhos tem escolhido, onde quer chegar.

No site, há ainda o link para votar no prêmio por escolha popular (tá dando um aviso de segurança alienígena).

Abaixo, os indicados para melhor filme, seguidos de pequena avaliação do blogueiro. Todos estão disponíveis em DVD (se você achar uma locadora decente):

O Banheiro do Papa (co-produção com o Uruguai, direção de César Charlone e Enrique Fernández): não chega a empolgar, mas é bom em sua singeleza e merece atenção por tratar da pobreza sem os preconceitos de praxe.

Ensaio Sobre a Cegueira (co-produção com Canadá e Japão, direção de Fernando Meirelles): não soube adaptar Saramago para a tela (de resto, tarefa dificílima). Muito ruim.

Estômago (direção de Marcos Jorge): de longe, o melhor dos indicados. Uma sutil reflexão sobre o poder na forma de comida e sexo, e um ator estupendo (João Miguel) no papel principal. Tomara que ganhe.

Linha de Passe (direção de Walter Salles e Daniela Thomas): é tão oco quanto a cabeça de quem o fez. Uma obra (em italiano, se é que me entendem) sobre a pobreza feita por quem não sabe o que é isso, nem pretende aprender. É como se eu fizesse um filme sobre o brócoli.

Meu Nome Não É Johnny (direção de Mauro Lima): filme de férias para adolescentes disfarçado de lição de moral. Conservador na forma e nulo de conteúdo.

Uma lista muito fraca, mas não há de ser nada. Em 2008, todos os indicados eram, no mínimo, interessantes. Ganhou "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" (Cao Hamburger), e eu achei de bom tamanho, embora preferisse "Baixio das Bestas" (Cláudio Assis).

Profissionais de cinema são seres humanos (alguns até demais), dados aos vícios e virtudes próprios da espécie (como panelinhas, curriolas, geladeiras, modismos etc.), o que explica o perfil social-globalizado da lista deste ano. Parece que resolveram apostar nas co-produções (tábua de salvação em tempos de crise) e no caminho fácil (e bobo) do "apelo social". Normal.

O que não se justifica é o desprezo para com "Encarnação do Demônio", de José Mojica Marins (indicado para Direção de Arte e Efeitos Visuais) e "Falsa Loura", de Carlos Reichenbach (nem meia indicação). Ambos mereciam concorrer a melhor diretor, e a ausência da oxigenada Rosane Mulholland na lista para melhor atriz chega a ser criminosa.

Adendo em 18/03: além da Loura e do Demônio, há outra injustiça, ou, antes, meia injustiça: "Chega de Saudade", de Lais Bodanzky, recebeu 11 indicações, inclusive direção, atriz (Cássia Kiss) e ator (Stepan Nercessian). Ótimo, mas tinha qualidade para concorrer a melhor filme.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Fanfarrões e mauricinhos


"Tropa de Elite", dirigido por José Padilha em 2007, estreia no Telecine Premium neste sábado, às 22h. Embora trate-se de um filme que todo mundo que quis ver já viu, vai estourar de audiência. Não por acaso, a Globosat o colocou em seu canal top (e não no Canal Brasil, como costuma acontecer com as produções nacionais) e investiu pesado na divulgação. É oportuno refletir sobre as razões de tamanho sucesso.

Alguns posts desse blog podem dar a impressão de que estou entre os detratores da obra. Não é o caso: é um bom filme de ação e ainda levanta uma ou duas boas discussões. O que irrita e preocupa é a recepção dele pela quase totalidade do público.

À época do lançamento, instalou-se uma polêmica entre duas posições canhestras e pouco amadurecidas, para dizer o mínimo.

De um lado, uma massa que, por motivos que fogem ao alcance imediato, defende os homicídios, torturas e arbitrariedades cometidos por tantos policiais brasileiros, e que se entusiasmou ao ver tudo isso realizado na tela pelo suposto mocinho, uma identificação ajudada pela interpretação antológica de Wagner Moura.

Essa massa não vê que as práticas de seu herói o estão enlouquecendo e, talvez, levando-o à morte. Também não ouve quando ele, narrando sua busca de justiça com as próprias mãos após o assassinato de Neto, afirma: "era totalmente errado o que eu estava fazendo". Não enxerga o absurdo de se impor treinamento de selva a homens destinados ao combate urbano. Não desconfia da alegada imunidade do BOPE à corrupção. Não pensa, enfim, apenas desfruta.

Do outro lado, vários expoentes de diversas elites intelectuais reagiram contra o que pensaram ser a exaltação e glamourização da truculência policial e crucificaram Padilha por culpar o usuário de drogas pela violência. Até de fascista o filme foi chamado. É uma interpretação tão ignorante quanto a anterior, porém mais grave, por vir de quem vem.

Pudera. Não deve ter sido fácil para tomadores de capuccino politicamente corretos ver seu inocente baseadinho associado à violência urbana. Nunca tinham se pensado como parte do problema. Surpresa: somos todos parte do problema, e o pior, muito poucos de nós se esforçam para ser parte da solução.

Aqui está o maior mérito de "Tropa de Elite": ele vê uma origem sistêmica para os problemas sociais. Ela está tanto no morro quanto na polícia, tanto no governo quanto nas ongs. Está na forma privatista e corrupta que escolhemos para nos organizar em sociedade.

Está no fato de que apontamos o dedo para a corrupção no poder público, mas esquecemos que molhamos a mão do guarda, compramos produtos roubados, falsificamos carteiras de estudante e compramos (eu, não) maconha de um traficante que, estamos cansados de saber, vai usar nosso dinheiro para comprar armas, matar algumas pessoas e manter seu poder sobre as demais.

Eu sempre achei que o filme deveria se chamar "Tropa DA Elite", porque esses BOPEs da vida são exatamente isso: um grupo de combate destinado a manter a violência confinada no morro para a zona sul poder comprar maconha na faculdade e fumar sossegada no posto 9.

Um dos pontos altos da história é justamente quando André se dá conta disso e esculhamba a "manifestação pela paz" (a mais cínica invenção que este país já assistiu). A paz dos mauricinhos que se vestem de branco é garantida pelos homens de preto. Pena que, em vez de romper com tudo isso, o personagem se enfronha mais ainda na engrenagem.

É verdade que o filme idealiza a incorruptibilidade e a capacidade do BOPE . Se isso fosse real, o crime organizado já teria ido para as cucuias. Mas esta idealização vem ao encontro do que somos. Afinal, para tudo queremos uma solução fácil, imediata e rápida, e que se possível não nos envolva. Pena que isso não existe.

Enquanto se acredita em panacéias, morremos todos, e não só os favelados. Se a execução do casalzinho no alto do morro não é suficiente para demonstrar isso, pense um pouco: para quem está apontada a escopeta do BOPE na cena final de "Tropa de Elite"?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Lá vem o Oscar



É comum ouvir dizer que "filme que ganha Oscar é ruim"
. As pessoas que pensam assim costumam ser fãs de Rambo ou, no outro extremo cultuadores de Glauber Rocha. A frase faz tanto sentido quanto "camisas marrons são de má qualidade" ou "mulheres sardentas choram durante o sexo".

Ou seja, Oscar, como qualquer prêmio, não indica qualidade boa ou má. Quer dizer apenas que o filme caiu no gosto de um público específico. O grande valor dado à premiação da Academia está no fato de esse público ser formado pelas pessoas que fazem cinema, e não por críticos. É legal ganhar prêmios de jornalistas, mas ser escolhido pelos colegas é sempre especial.

Também é verdade que de vez em quando a Academia apela. Entre 1997 e 1999, por exemplo, deu o Oscar de Melhor Filme para "O Paciente Inglês", "Titanic" e "Shakespeare Apaixonado". Cruz credo, Ave-Maria. Mas foi uma fase ruim, como outras foram boas.

Para provar, uma lista de dez filmaços que levaram a estatueta de Melhor Filme com o maior merecimento:

1941: Rebecca, a Mulher Inesquecível. É covardia. Lawrence Olivier e Joan Fontaine dirigidos por Alfred Hitchcock em um filme produzido por David Selznick. Até com um roteiro ruim funcionaria. Mas o roteiro era sensacional.

1944: Casablanca. Produção comumente subestimada, tem o mérito de discutir, por baixo do melodrama, questões como patriotismo, coerência política e valores coletivos. A cena da Marselhesa é de encher os olhos.

1946: Farrapo Humano. Histórias de alcoólatras caem fácil na tentação do moralismo. Mas com Billy Wilder é diferente. Seu bebum é denso, profundo e nos leva torcer por ele.

1951: A Malvada. Esse levou só 11 oscars. Gigantesca atuação de Bette Davis e Anne Baxter numa reflexão inteligente sobre o próprio mundo das artes dramáticas.

1955: Sindicato de Ladrões. Elia Kazam foi um filho da puta covarde que delatou vários colegas à perseguição anticomunista da era do Macarthismo. Mas, além disso era um cineasta brilhante. Aqui, dirige grande atuação de Marlon Brando, muito antes de virar Corleone ou brincar com manteiga.

1961: Se Meu Apartamento Falasse. Billy Wilder, de novo, agora em uma comédia inteligente e ousada para sua época. Quando eu crescer, quero fazer filmes desse nível.

1992: O Silêncio dos Inocentes. Filme de serial killer é mato. Destacar-se no meio do mato não é tarefa fácil. Jonathan Demme nunca mais fez algo desse tamanho.

1993: Os Imperdoáveis. Faroeste nos anos 90? É. E com história clássica de vingança encomendada e tudo. Difícil saber se Clint Eastwood esteve melhor na direção ou no papel do protagonista.

2000: Beleza Americana. É muito duro quando a gente percebe (de verdade) que vai morrer um dia e que não vai dar tempo de fazer nada extraordinário antes disso. É mais duro ainda quando não se aceita o fato. Um mergulho no que o ser humano tem de pior.

2006: Crash: no Limite. Narrativas não-lineares viraram moda, mas foi depois deste. Um filme sobre racismo que respeita nossa inteligência. Esqueça esse negócio de mocinho e bandido.

Agora, numa coisa vamos concordar: assistir cerimônia de entrega do Oscar é programa de índio tarado. Para quem mesmo assim quiser encarar, é domingo a partir de 21h, no TNT. A Globo, acertadamente, preferiu passar desfile de escola de samba, que é tão chato quanto, mas pelo menos tem mulher pelada.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Faça cinema em Cuba


Não sabe o que fazer da vida? Faça cinema na
Escola Internacional de Cinema e TV de Cuba. Veja o edital.

Eu vou. Não possuo a módica quantia necessária para a matrícula, mas tenho certeza que os amigos vão se cotizar e me mandar para lá.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Mojica e Carlão (não) vão à locadora



Leio no Omelete que "Encarnação do Demônio", de José Mojica Marins, será lançado em DVD para locação amanhã. Na semana passada, foi a vez do belíssimo e quase ignorado "Falsa Loura", de Carlos Reichenbach, chegar às locadoras.

Hein? Chegar onde, meu filho?


Locadora, lembram-se? Aquele lugar onde a gente pegava as fitas (mais tarde, DVDs) mediante pequena taxa, assistia e depois devolvia. Programa de sábado de manhã era ir à locadora. Tinha que chegar cedo, caso contrário você não encontrava mais "lançamentos", apenas filmes "repetidos".

A grande vantagem das locadoras era que, querendo ou não, tinham alguma diversidade. Eu acho que as grandes distribuidoras de vídeo forçavam alguns títulos nos pacotes, para desencalhar. O fato é que, com disposição para procurar, você acabava achando um Kubrick, um Costa-Gavras, às vezes até um Hitchcock. E sempre tinha uma prateleira de filmes nacionais, mínima que fosse.

A pirataria matou as locadoras. É preferível comprar um DVD por 5 pilas do que alugá-lo por 2 ou 3 tendo que assistir logo para devolver na segunda-feira. O problema é que, junto com as locadoras, morreu a pouca diversidade que restava nelas. Não se pirateia filmes que não sejam sucessos absolutos. Filme brasileiro, então, só se tiver Didi, Xuxa e ator de novela, e olhe lá! Vá ao camelô da esquina e confira: é só homem-morcego, homem-aranha, homem-ogro e magicozinho que nem parece homem...

Resta esperar passar na TV ou desembolsar o preço absurdo do DVD original (depois reclamam da pirataria...).

Enfim, me disseram que aqui perto de casa ainda tem uma locadora. Será? Vou lá amanhã e perguntarei: "Tem "Encarnação do Demônio?" Uma atendente simpática e quase bonita responderá. "Não. Mas chegou a Múmia nova do Brendan Fraser, você já viu?".

Não, eu não vi. Para ela é a mesma coisa. Dá vontade de perguntar quem é a verdadeira múmia. Deixa pra lá.


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

De volta ao cinema (ou: Viva Bressane!)

Premido pela preguiça e pela estúpida necessidade de pagar entrada dupla (como punição por não usar documento falso), deixei de ir ao cinema. Em 2008, se me lembro bem, fui uma única vez (para ver "Arquivo X 2", grande decepção).

Ocorre que o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, aqui em BH, está exibindo a mostra "passou batido", com filmes que ficaram pouco tempo em cartaz no ano passado. Está lá desde o dia 5, mas eu me esqueci de avisar a vocês. De qualquer forma, a primeira parte vai até domingo, e a segunda (com filmes de "olhar documental") até 1º de fevereiro. Programação aqui e aqui.

Pois bem: incentivado pela vontade de ver "Falsa Loura", de Carlos Reichenbach, e pelo precinho módico de 5 pilas (a inteira), voltei ao cinema. E ainda tomei coragem para, na preliminar, encarar "Cleópatra", de Júlio Bressane.

Não é um filme, é uma piada. Uma das melhores piadas do mundo! Se Júlio César ser vivido por Miguel Falabella já é hilário por si só, Júlio César levar um "fio terra" terapêutico de Cleópatra (Alessandra Negrini) é impagável. E o melhor de tudo: tive a nítida impressão de que o resto da platéia, formada por cabeludos universitários e despojadas universitárias, estava levando aquilo a sério! Morreram de susto com minhas gargalhadas. E tudo isso por 5 reais, o preço de uma capa de sofá na Bordados Dadinha! Eu devo a vida a esse Bressane!

Já "Falsa Loura" é apenas mais um filme de Carlão, ou seja: um filmaço! Não vou falar mais nada. Vá ver. Leve bastante gente para ver também.

Enfim, o difícil é voltar a ver filme em DVD agora. Cinema no cinema é o bicho. Acho que vou voltar amanhã para ver "Paranoid Park" e "Persépolis".