
Muita gente diz que a história de Bruna Surfistinha não tem nada de especial. Concordo plenamente. Porém, o que estas pessoas não percebem é que não ter nada de especial é justamente o que a história dela tem de especial.
Em si mesma, a profissão do sexo não torna ninguém melhor ou pior do que os outros. É, ou devia ser, uma constatação óbvia, mas no cinema e na mídia de uma forma geral não é isso o que se vê. A prostituição costuma ser tratada como atividade abjeta de pessoas imorais, ou mazela social a ser extirpada em uma futura sociedade justa, ou, ainda, um mundo de glamour e prazeres intermináveis, que lembra a enferrujada imagem da "vida fácil".
Num caso, a prostituta é uma degenerada a ser posta fora do convívio social. Em outro, uma vítima, que tem que ser resgatada. No terceiro, uma heroína, digna da nossa admiração (ou inveja).
O maior acerto de Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini, é fugir desses pré-juízos. Sua Bruna (aliás, Raquel, nome de batismo) é uma menina com dificuldades de socialização, o que não a leva a "cair" no meretrício. Este aparece como uma opção entre outras, a melhor para aquela moça específica, que precisa sair de casa e ter uma renda que lhe permita algum grau de independência. Ela faz uma escolha e assume a responsabilidade por ela, ou seja: não se trata da jovem "iludida" ou "aliciada".
É esse o assunto central na tela: o custo/benefício da liberdade, os ônus e os bônus de se mandar no próprio nariz. A protagonista não tem dúvidas: por mais caro que seja, o preço vale a pena. Portanto, esqueçam qualquer possibilidade de uma "redenção": esse filme não pretende redimir ninguém, muito pelo contrário: ao final, em off, Bruna declara: "Foi como garota de programa que aprendi a não julgar, a aceitar as pessoas como elas são, como elas conseguem ser."
Não me entendam mal: o glamour está no filme, as mazelas também (Bruna se vicia em cocaína), mas nenhum dos dois se transforma em ferramenta para condenar, absolver ou glorificar as profissionais do sexo ou sua atividade. Inserem-se na realidade das meninas, que também inclui paixões, baladas, famílias e um esplêndido momento "puta pride" em um salão de beleza grãfinoide. As companheiras de Bruna podem ser amigas leais como Gabi, ou aproveitadoras inconsequentes, como Carol, mas acima de tudo são humanas.
Sem apelar para a sacanagem gratuita, Baldini fez um filme descarado, sem vergonha no melhor sentido da expressão e desprovido de qualquer pretensão de chocar o espectador ou lhe ensinar sociologia (embora acabe caindo na tentação de desnecessárias justificativas psicológicas para o homem que procura a zona - a gente vai lá para transar, é só isso). Não é genial, não é obra prima, é um filme bom e honesto, como sua personagem principal.
Personagem, aliás, interpretada com entrega, coragem e competência por Deborah Secco. Alguém precisa obrigar essa moça a fazer mais cinema, nem que seja amarrada (sem fantasias, tarados). Ela conseguiu criar um leque de diferentes tipos para a protagonista, aparentemente aproveitando sua experiência anterior. A menina Raquel remete à adolescente meio machona Carol, de Confissões de Adolescente, enquanto Bruna, em certos momentos, lembra a doce Moema de Caramuru, e em outros aquelas adoráveis vadias que Deborah interpreta em algumas novelas.
Respeitando a inteligência de seu espectador, abstendo-se de elucubrar sobre o bem e o mal e tratando o sexo como uma dimensão a mais da vida, que não deve causar vergonha nem obsessão, o filme agrada também pelos personagens plausíveis, bem construídos, e pela narrativa sem invencionices.
Em tempos nos quais o cinema brasileiro, em sua vertente dominante, tem tratado seu público como criança, como alguém a ser entretido com bobagens e instruído sobre como se comportar, essa postura dissonante de Bruna Surfistinha o credencia como alvissareira surpresa.















