Ao lado de Matilde Mastrangi, Helena Ramos é considerada a principal musa da pornochanchada. O Canal Brasil, que comemora neste mês 11 anos, inicia hoje uma retrospectiva de sua carreira, com filmes nas madrugadas de quarta, quinta e sexta, sempre às 0h30min.
Em papéis que iam da dona de casa frígida à prostituta de luxo, passando pela secretária alcoólatra e pela enfermeira mulher fatal (sem falar numa outra prostituta, carola - isso mesmo - em "Palácio dos Anjos"), Helena mostrou talento inegável ao longo de dez anos de cinema (1974 a 1984, aproximadamente). Se você vir os filmes hoje e achar sua interpretação afetada e artificial, lembre-se: não havia, no cinema brasileiro de então, esta interpretação naturalista que predomina hoje. Os atores eram instados a se comportar quase como no teatro, com falas empostadas e formais até para dizer palavrões.
De mais a mais, você vê Helena e ouve outra pessoa: os diretores achavam (com certa razão) que sua voz não correspondia àquele corpão todo, e ela quase sempre era dublada. Mas em termos de expressão facial e corporal, bem como de relação com a luz e com a câmera, ela chegava perto da perfeição.
De qualquer forma, o melhor da retrospectiva é que ela fornece um bom panorama da produção da Boca do Lixo, com obras de alguns de seus cineastas mais representativos. Jean Garrett comparece com três filmes: os estupendos "Possuídas pelo Pecado" (1976) e "Noite em Chamas" (1977) e o irregular "Mulher, Mulher" (1979), que inaugurou a mania de cenas eqüinas no cinema nacional (como assim, eqüinas? Sei lá, assista ao filme). Já de Ody Fraga temos o esforçado "Palácio de Vênus" (1980). E Walter Hugo Khouri, o nosso Bergman, contribui com o belo "Convite ao Prazer" (1980)
Mas foi em "Mulher Objeto" (1981), de Silvio de Abreu (é, o mesmo que escreve novelas para a Globo), que Helena virou uma marca constante e inconfessável no subsconsciente do país ou, pelo menos, da metade masculina dele. Cheio de um erotismo tenso, febril e, por vezes, cruel, o filme estourou bilheterias, foi vendido para inúmeros países e virou um mito e um tabu ao mesmo tempo. Tanto é que ficou anos banido do próprio Canal Brasil, voltando agora para integrar este festival.
Em 1990, foi reprisado nos cinemas, e eu o vi no velho Cine Royal, hoje uma templo da universal. Naqueles tempos, esse país já estava começando a encaretar, e a plateia simplesmente não acreditava no que via na tela. Recomenda-se não perder.
Os outros filmes são obras menores, mas valem pela curiosidade. Como é? Você não tem Canal Brasil? Pois é, eu também não. Mas a Net vai liberar o sinal para quem tem pacotes furreca como os nossos de 18 a 28 desse mês. Vamos aproveitar.
Só o que eu não entendo é porque nenhum canal aberto se interessa por este tipo de conteúdo. Alguém aí duvida da quantidade de marmanjo virando a madrugada?
Como a programação da retrospectiva está difícil de acessar no site do Canal, o papai Fofão colocou aí embaixo para vocês.
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