
1968 chega aos 40 anos. Para o blogueiro, que não o viveu, às vezes parecem ser 400. Outras, 4. Nesse belo filme de Louis Malle, consegue-se sentir as três coisas.
Malle, que morreu em 1995, ficou famoso pelo suspense de "Ascensor para o Cadafalso", o drama psicopolítico de "Lacombe Lucien" ou o blockbuster "Perdas e Danos", entre outros. "Loucuras de uma Primavera" (título mais adequado para filme pornô, que não honra o original, "Milou en Mai") destoa destes pela leveza que emprega até nos temas mais pesados, por tratar da alegria e da tristeza com extrema sutileza.
Em pleno maio francês, nos campos ensolarados pela primavera, longe das barricadas de Paris, uma matriarca morre, aparentemente por inadaptação àquela França coalhada de greves, protestos e desejos irreclusos. É preciso enterrá-la, mas os coveiros estão em greve. Também é preciso dispor dos bens, principalmente da propriedade rural, mas não há concordância entre os herdeiros: vender e faturar um bom dinheiro? Manter, como homenagem/refúgio aos velhos tempos? Socializar, em apoio à revolução nascente?
É difícil não comparar a morte da velha com a da IV República (e das três anteriores, mais as monarquias), como é quase impossível deixar de identificar o impasse sobre o destino da casa com o próprio país. Principalmente porque a terceira opção só é colocada por quem, na prática, não tem nenhum poder de decisão.
Enquanto não é possível resolver o imbroglio, as pessoas bebem. E sonham, como sonhou o mundo naqueles dias. O sonho revela o melhor de cada um, aproxima os recalcados do prazer, os ricos dos pobres, as crianças dos velhos. Uma França que se rende a seus desejos, afinal (ainda que estes releguem alguns, obrigados a cavar as covas dos defuntos reais). A revolução imaginada libera o onírico e expulsa a hipocrisia... até quando?
Até chegar a notícia falsa da revolução verdadeira. É a hora de fugir, tragicomicamente, escondendo-se em cavernas, confundindo lenhadores com guerrilheiros. É o pesadelo. E o pesadelo revela o pior de cada um. É quando a moça burguesa dispara um "não encoste em mim, caminhoneiro!" ao mesmo cidadão que ontem ela convidara para fazer sexo em público. É quando as herdeiras se engalfinham pelas jóias da morta. É quando o avô, sempre solícito e cúmplice com as perguntas de sua neta, responde "não sei, vá dormir!" (também, pudera: a pergunta tinha sido: "Vô, o que é uma sapatão?").
Malle está falando de uma revolução que, parece acreditar ele, não tinha como se realizar. E, ao mesmo tempo, de uma França que não tinha como continuar no passado, por mais que quisesse. Num desfecho bonito, porém muito triste, fica claro que das duas coisas só restaram as memórias. Belas, permanentes, necessárias, até. Mas memórias.
Serviço: para quem entende francês, passa no TV5 de vez em quando. Anda disponível para download, mas com legendas em espanhol.
Um comentário:
Amo muito esse filme!
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