
Exibido no Japão nos anos 70 e no Brasil (com o nome meio besta de "Patrulha Estelar") nos 80, "Uchuu Senkan Yamato" ("Encouraçado Espacial Yamato") foi o desenho preferido do blogueiro, que ficou muito feliz ao ter a chance de assisti-lo novamente. Esperava lembrar seus tempos de criança, mas se deparou com algo totalmente diferente. Afinal, não se trata de um desenho para crianças.
A primeira temporada se passa na virada do século 23, quando a Terra, em guerra com o planeta Gamillas, é atingida por asteróides radioativos. Isso faz com que uma nave tenha que viajar até o distante planeta Iscandar para buscar um descontaminador (uma espécie de "Ambiente Cleaner Mega Ultra Plus Tabajara") e salvar o planeta da extinção.
Poderia ser mais uma animação nipônica com muita ação e pouquíssima imaginação. E seria, se essa nave não fosse nada mais, nada menos que o encouraçado Yamato, orgulho da marinha de guerra japonesa, afundado pelos EUA em 1945. Ele é, literalmente, "desafundado" para empreender a jornada (um navio voador é meio estranho, mas você se acostuma logo). Esse detalhe abre espaço para uma tentativa, ainda que dissimulada, de se exorcizar os demônios da guerra de verdade.
Yoshinobu Nishizaki, que concebeu o desenho, tinha onze anos quando a guerra terminou. Percebe-se, nitidamente, que suas memórias dela estavam bem vivas trinta anos depois.
Está tudo lá: a ética de guerra japonesa, carregada de conceitos de honra e de moral ofensiva; o inconformismo permanente com uma derrota que se julgava impossível (o navio/espaçonave é virtualmente indestrutível); o trauma insuperável de quem foi vítima de bombas nucleares; a questão sempre tabu do tratamento dispensado aos prisioneiros; o pacifismo que só o sofrimento extremo e coletivo é capaz de ensinar.
"Yamato" poderia cair num esquematismo maniqueísta, típico de desenhos animados, e transformar a ficção em revanche. Muitos fãs acham mesmo que os Gamilons representam os americanos, mas a verdade é que o buraco é muito mais embaixo.
Nishizaki preferiu encarar o fato de que, por mais que nosso discurso desconstrua o inimigo, ele é igual a nós. Respira o mesmo ar, tem a mesma aparência (com a sutil diferença da cor da pele), problemas muito semelhantes e valores quase idênticos. O que não nos impede (nós, os mocinhos) de torturá-lo e de tentar matá-lo a sangue frio.
Também não é esquecido que a guerra, vencida ou perdida, significa morte e destruição. Que não combatentes também morrem, que ecossistemas são destruídos, que novas e poderosas armas não podem ser usadas sem que se avalie as conseqüências. As mortes são mostradas claramente, sem eufemismos. Não há prêmios para os vencedores, que também perdem aqueles que lhe são mais caros (mesmo que esse último ponto se reverta na última hora, aparentemente por insistência dos produtores).
"Yamato" se filia a uma extensa tentativa da ficção japonesa (no cinema, TV, literatura etc.) de encarar o seu passado para conviver com ele. O sucesso diluiu a fórmula nas duas temporadas seguintes, mas o recado estava dado. Vale muito a pena vê-lo ou revê-lo, pois pode ter muito a dizer aos sombrios tempos que vivemos.
2 comentários:
fofao sempre achei q. um blog era uma oportunidade de conhecer pessoas, rs, e no caso do seu achei q. seria recheado de mulheres peladas, rs. vai q. e sua, apesar do brasil do dunga ter ganhado
Mateus, como você mesmo diz, um blog serve para conhecer pessoas. Por mais que eu goste de mulher pelada, se eu pusesse isso aqui que tipo de pessoas eu iria conhecer?
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