
Este é um filme sobre desejo e identidade. Mais especificamente, sobre como assumir e viver o desejo é importante para que construamos a plenitude de nossa identidade. Sem esquecer que todo esse processo é marcado por conflitos e escolhas, momentos da vida em que é preciso saber lidar com a dor, e não, tolamente, tentar evitá-la.
O diretor Marco Bellochio gosta de encarar o desejo como uma questão política, talvez a mais relevante delas. Seus filmes trazem ainda um viés psicanalítico evidente: "Diabo no Corpo" é, inclusive, dedicado a seu terapeuta.
Da janela de sua sala de aula, Andrea Raimondi (Frederico Pitzalis), um jovem entediado de 18 anos, avista Giulia Dozza (Maruschka Detmers) e, no ato, sem saber nada sobre a moça, foge pela janela e passa a segui-la. Ele vai descobrir que ela é noiva de um militante arrependido das Brigadas Vermelhas, prestes a ser solto por sua colaboração (leia-se delação) com o governo. A partir daí, um romance inicialmente hesitante, mas progressivamente explosivo, se inicia.
Um representa para o outro o contrário do que era previsto: para ele, a confortável carreira acadêmica italiana, para ela, o casamento com um homem rico e convertido em burguês. E chama a atenção o quanto ambos têm vontade de fugir desse roteiro invisível e impessoalmente traçado para eles.
O casal está disposto a pagar o preço da rebeldia. Principalmente Giulia (no fundo, a única protagonista: Andrea é a "escada" que lhe permite se encontrar) que é chamada de louca de cinco em cinco minutos. A abordagem, aqui, parece foucaultiana: Giulia representa o dissonante, o não reprimido, a mulher que tira a roupa no consultório do analista (pai de Andrea), tranca a porta, joga a chave pela janela e vai pra cima dele (seria a realidade ou os delírios reprimidos do nobre terapeuta?). Giulia tem uma enorme fome de vida e está disposta a saciá-la. Só pode ser "louca" mesmo.
Bellochio, nesse ponto, foi muito feliz em utilizar o corpo de Maruschka para representar sua personalidade. Sua nudez agressiva, peluda, incivilizada, encanta, mas também desafia e debocha. Sua dança lúbrica entre pratos quebrados e talheres espalhados, sinais do casamento que foi chutado para cima, é mais prenhe de significados que qualquer discurso hippie sobre a liberdade individual.
Os conflitos são inevitáveis. O pai de Andrea, em uma mesma cena, tenta reprimi-lo, depois convencê-lo e, por último, oferece dinheiro, já não para afastá-lo de Giulia, mas para não perdê-lo em definitivo. Ela, por sua vez, tem que enfrentar sua terrível futura sogra (Anita Laurenzi), que sabe que não pode controlá-la, mas faz de tudo pelo filhinho querido assim mesmo.
No momento mais significante do filme, Giulia bem que tenta se domesticar. Deixa um bilhete terminando com Andrea e vai visitar o noivo. Ocorre que este lê para ela um poema em que se declara orgulhosamente medíocre e sonha com piqueniques dominicais a beira do lago, cheios de crianças e avós. Em atitude que não se deve descrever, para não estragar a cena, ela ainda tenta lembrar-lhe de quem ele foi um dia. Em vão. Está feita sua opção.
Visto hoje, "Diabo no Corpo" pode soar datado. Não me importo, sou historiador e para mim qualquer coisa é "datada", mesmo que esteja acontecendo agora. Trata-se de um símbolo de uma época em que alguns sonhos, como o das Brigadas (pesadelo para alguns), tinham morrido, mas outros permaneciam, como aquele de ser feliz independentemente de convenções sociais ou morais. Estaríamos nós, nesse século esterilizado, à altura de Giulia Dozza? Duvido Muito.
Serviço: foi lançado pela Globo Vídeo há uns vinte anos. Não há em DVD nacional. Mas, esperem! Uma lagartixa verde acaba de sair de trás da minha estante e dizer que ele está disponível para download, e já com legendas em português. Será verdade?
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