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domingo, 16 de maio de 2010

Ainda é tempo...

Mentiram para eles. E para nós?

Acabo de assistir no Sportv a Farenheit 2010, documentário que fala dos preparativos da África do Sul para a Copa do Mundo que se inicia no mês que vem (dá-lhe, Argentina!!!).

Como cidadãos do país que vai sediar a copa seguinte, deveríamos todos ver esse pequeno filme. Com simplicidade, pessoas relacionadas direta e indiretamente com a competição são ouvidas. E, aos poucos, vai se formando um relato tenebroso.

No Brasil, todos dizem que 2014 vai nos trazer muitos empregos e incrementar o turismo. É?

No país de Mandela, que tem cerca de 50 milhões de habitantes, foram criados 22 mil empregos temporários e terceirizados. Mais um punhado aparecerá pouco antes da Copa começar, e virará fumaça logo após a final.

Por aqui, fala-se de um "legado" que as obras da Copa nos deixarão. Bem...

Na África do Sul, estudantes foram desalojados de suas escolas para estádios serem construídos. No caso de uma delas, ao protestarem por estarem estudando em escolas de lata caniculares e superlotadas, foram presos e espancados. Um ativista político (do CNA, partido do governo), que denunciava esse tipo de coisa, foi assassinado em sua casa. Por mim, podem ficar com a minha parte do legado.

E quanto à montanha de recursos movimentados pela competição?

As duas principais fontes de lucros de uma Copa do Mundo são os direitos televisivos e a publicidade estática nos estádios. Ambas são 100% da Fifa. O governo sul-africano não verá um centavo disso, e o brasileiro, daqui a quatro anos, também não.

A mesma Fifa, aliás, que vetou a construção de estádios perto de barracos, para não enfeiar as transmissões.

Por falar nisso, o negócio da construção foi loteado entre a velha aristocracia branca racista e a nova (e microscópica) plutocracia negra surgida depois do Apartheid. Desperdício e superfaturamento se amontoam. Mas isso não nos preocupa, porque no Brasil essas coisas não acontecem.

Há inúmeros outros exemplos, mas esses bastam. Assistam o filme, será reprisado várias vezes no Sportv (hoje, às 8:52; terça, às 17:30) e no Sportv2 (hoje às 12:27; amanhã, às 7h, 13:30, 18:30 e 22:30).

Alguém dirá que há histórias de copas de sucesso. É... mas, cá entre nós, andamos mais parecidos com a África do Sul que com a Alemanha ou o Japão, não?

Os ingleses andam a fim de ficar com 2014 para eles. Não seria o caso de pensar (só pensar, para começar) em lhes fazer esta gentileza?

sábado, 25 de julho de 2009

Futebol animado

Encanta-me o comportamento dos torcedores de futebol no Brasil. Tenho a impressão de que a história e os mitos de cada clube acabam conformando um torcedor com uma personalidade específica, diferente de todos os outros. No fim das contas, suas loucuras, trapalhadas e tiradas de humor lembram desenhos animados.

Então, eu fiquei pensando: seriam os clubes brasileiros comparáveis a personagens de desenhos? Se tentássemos, como ficaria?

É possível que outro
s já tenham feito o exercício. Não tive saco para checar. De qualquer forma, os resultados serão sempre diferentes. Para que não me acusem de clubismo, não deixei de incluir o meu, humildemente, no fim da lista (já que na tabela ele está no topo).


Flamengo: Pokemón
Disp
õe de uma quantidade absurda de fãs apaixonados. Falta ainda descobrir um jeito de dar alguma alegria a eles.



Fluminense: D. Florinda
Agarra-se a um passado glorioso e tradicional, quando era "de elite". No presente, está mais bagunçado que a vila do Chaves.



Botafogo: Hardy Har Har
Supersticioso ao extremo, cheio de traumas. Costuma culpar o azar e os outros pelas coisas que, na sua imaginação, só acontecem com ele.



Vasco: Kenny McCormick
Suburbano aceito de má-vontade pelos "amigos" mauricinhos. Sobreviver, para ele, já é motivo de grande comemoração.



São Paulo: Riquinho
Seus brinquedinhos caros enchem todo mundo de inveja, mas muitas vezes ele próprio não sabe o que fazer com toda aquela tralha.


Palmeiras: Garfield
Egocêntrico incorrigível e fanático por comida italiana, costuma sofrer horrivelmente ás segundas-feiras.


Santos: Tutubarão
Parece um peixão assustador, mas revela-se desajeitado e trapalhão. No fim, acaba sempre reclamando da "falta de respeito" dos adversários.



Corinthians: Homer Simpson
Tem o olho maior que a barriga e uma capacidade incrível para fazer escolhas equivocadas. Se não fosse sua "fiel" esposa, sabe-se lá o que já teria ocorrido.


Grêmio: Gastão
Gosta de andar engomadinho e de companhias de alta classe. Mas, usualmente, mantém-se no papel de coadjuvante.



Internacional: Obelix
É amado em sua aldeia pela força que tem, mas em cada aventura comete ao menos uma grande besteira.


Cruzeiro: Stewie Griffin
Seria bom estrategista se não fossem a
megalomania e o complexo de superioridade, agravados pelo comportamento de bebê chorão.



Atlético: Capitão Caverna
Quando empolgado, corre feito um louco e faz um barulho ensurdecedor. Em geral, acaba esborrachando a cara em um poste.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Eu adoro a seleção.

Ignorada pela mídia brasileira, seleção conquista o bi
da Copa Panamericana, sábado à noite, em Miami

Como se pode ver pela foto, refiro-me aqui à Seleção Brasileira Feminina de vôlei (que me perdoe a masculina, mas homem praticando um esporte que não machuca é algo que não consigo entender).

Sim, claro, as moças são muito bonitas, mas se fosse esta a questão o post deveria se chamar "Eu adoro a Juliana Paes". O que eu adoro na seleção é que ela é uma coletividade que funciona muito bem sem precisar abrir mão da diversidade.

Já começa na aparência das meninas: negras, mulatas, brancas, morenas cor de jambo, uma "alemã" (Mari) e uma "japonesa" (Ana Tiemi). É como se fosse uma amostragem do povo brasileiro. Em quadra, todas juntas, proporcionam um espetáculo visual único no voleibol mundial.

Vale citar também as diferenças de temperamento. Enquanto algumas atletas são líderes natas, outras são frias e concentradas, e várias adotam uma postura beneficamente moleque (é só ver a zona que aprontam após os jogos no exterior, pulando em frente às câmeras e mandando beijos para os pais). E isso não causa problemas de coesão ou entrosamento. Pelo contrário, parece proporcionar um saudável equilíbrio no grupo.

Equilíbrio este que também deve ser creditado a José Roberto Guimarães, um treinador que, após uma amarga derrota em Atenas/2004, aprendeu a ouvir e a compreender suas comandadas, ganhando delas uma confiança fundamental.

Lembrando que estamos falando de jovens na casa dos vinte anos, que passam vários meses longe de casa (muitas vezes sacrificando namoros, e até casamentos), viajando por dezenas de cidades das quais só conhecem o aeroporto, o hotel e o ginásio.

E daí?, perguntarão vocês.

E daí que eu adoro a seleção por uma razão vinculada ao reino do simbólico: ao ver esse time entrar em quadra de verde e amarelo, com a palavra "Brasil" estampada no uniforme, eu consigo sonhar.

Sonhar com um país que desse oportunidades iguais a todos (e todas), independente da origem social ou da aparência física.

Um país que soubesse conviver com as diferenças de opinião e de comportamento, resolvendo-as civilizadamente no espaço público, e que percebesse que a diversidade é fator de fortalecimento para qualquer comunidade.

Um país com dirigentes que se esforçassem um pouco mais para ganhar a confiança de seu povo. E um povo que se dispusesse a precisar um pouco menos de governantes. Um país que soubesse tirar de suas derrotas, de seus impasses, a orientação para mudar, em vez de se condenar a repetir eternamente o passado.

E, se sonho assim, é porque a seleção de vôlei (principalmente depois do ouro em Pequim/2008) me mostra que este país é possível. Ele custa muitas renúncias, muita coragem, algumas tristezas e uma quantidade absurda de trabalho. Mas é possível.

E este incentivo à capacidade de sonhar é motivo mais que suficiente para repetir: eu adoro a seleção!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Eu odeio a seleção.

O treinador foi escolhido a dedo pelo presidente da CBF.

Não os jogadores, obviamente. Atletas, como qualquer profissional, tendem a aproveitar as oportunidades que aparecem (como a de servir à seleção) para valorizar seu currículo. Nada mais normal. O mesmo vale para o treinador: se, por um lado, é evidente que Dunga foi escolhido por aceitar a "mão de ferro" de Ricardo Teixeira, por outro, qual de nós recusaria o emprego?


Não, as pessoas que trabalham na seleção não são dignas de ódio. O que eu odeio é o ambiente cultural chauvinista que se criou. Essa união forçada em torno de um pensamento que se quer único. Esse festejar de qualquer resultado supostamente "positivo" do time de amarelo, como a reafirmar a máxima (que alguns perversos atribuem a Maquiavel) "os fins justificam os meios".


A seleção virou um grande negócio, através da associação entre CBF, organizações Globo e patrocinadores, como Nike, AmBev e Itaú. É fato: toda seleção funciona assim. Porém, no caso da brasileira, em nome dos bons negócios fechou-se as portas à crítica, à opinião diferente e, em certos casos, até à ética. E isso é odioso.


Poder-se-ia citar um caminhão de exemplos, mas fiquemos com apenas dois. O primeiro seria a descida de Ricardo Teixeira (que não é e nunca foi meu parente, graças a Deus) aos vestiários para forçar a escalação de Ronaldo na final da Copa de 1998; o segundo, a viagem de vários juízes, alguns envolvidos em causas do interesse da CBF, para assistir a uma Copa (se não me engano, a mesma, de 1998), por conta da entidade.

Não vamos falar das suspeitíssimas arbitragens nos jogos do Brasil contra Turquia (o primeiro) e Bélgica em 2002, pois falhas de arbitragem podem ser apenas isso: falhas. Nem da imensa sorte que o time da CBF teve nos sorteios dos grupos das duas últimas copas, pois, afinal, a coisa se chama "sorteio". Mas fica o registro.

Odeio o comportamento sabujo de uns 80% da mídia brasileira perante o fato. A postura cínica dos locutores e comentaristas da Globo/Sportv durante a Copa das Confederações. As manchetes da segunda-feira, exaltando a conquista de uma competição à qual nenhuma seleção importante (exceto a da CBF) dá qualquer valor além do monetário.


Mas odeio, acima de tudo, a aceitação ovina, por parte da maior parte do público, desse tipo de esquema. Os foguetes que ouvi toda a tarde no último domingo. Esse ridículo patriotismo quadrienal, coisa de quem berra "Brasil!!!!" durante um mês e depois volta a cuspir no chão e dizer que "esse país é uma merda, mesmo", como se não fizesse parte do país.


Se é verdade que nosso país (como qualquer outro) é cheio de defeitos, também é verdade que um dos mais tristes é essa mania de confundir crítica com difamação, dissenso com inimizade, não adesão com declaração de guerra.

Recuso-me a chamar o time da CBF de "Brasil". E espumo de raiva quando, ao dizer que torço contra ele, ouço a reprimenda absurda e perplexa: "mas então você não é brasileiro?!?!", como se minha nacionalidade devesse ser provada através da torcida por um time de futebol.


Dá vontade de fazer como o Zebrão e dizer: "brasileiro eu sou, só não sou otário". Mas as pessoas se sentem ofendidas, então é melhor deixar pra lá.


Desculpem a rabugice, é que essas coisas me deixam meio Hulk da vida. A intenção inicial era escrever um post mais alegre, que desse a noção do quanto é divertido desafinar o coro dos contentes, principalmente quando a Copa vai se aproximando. Acreditem, rende boas gargalhadas, independentemente do resultado dos jogos. Uma hora dessas eu escrevo esse.


Eu adoro futebol. Eu adoro o Brasil. E não vejo nenhum motivo pelo qual uma coisa deva se misturar com a outra.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Blogueiro goleador...

(montagem sobre charge de Sinfrônio)

Lido no JB Online, nesta terça:

Lula pede convocação do Fofão (...)

– O Fofão está comendo a bola. (...) – disse o presidente brasileiro.

Pois é, presidente. A gente fazemos o que podemos... Eu queria agradecer o apoio do grupo todo, porque aqui todo mundo é muito unido. Realmente, fizemos uma semana muito boa de treino, trabalhamos muito, em nome de Jesus, para dar alegria à nossa torcida eeeeeeeee... a gente vamos dar tudo de si pra conseguir o nosso objetivo que é ser campeãos.

(E pensar que, numa semana como essa, eu jamais esperaria achar graça em futebol...)

domingo, 8 de março de 2009

E o cordão dos puxa-sacos...


Em meio à euforia do primeiro gol de Ronaldo pelo Corinthians, dois fatos mostraram o triste estado em que se encontra a cobertura esportiva no Brasil (com a nobre exceção da ESPN Brasil e mais um ou dois quixotes).

Na comemoração, Ronaldo saiu do campo e subiu no alambrado (na verdade, derrubou-o), o que é proibido pela FIFA. O árbitro Cléber Abade esperou que os cumprimentos terminassem e lhe advertiu com o cartão amarelo, conforme a regra.

Ensandecido, o comentarista de arbitragem da Globo, Arnaldo César Coelho pôs-se a criticar o juiz, acusando-o de "insensibilidade", e dizendo que, se fosse na Itália, com o gol, o jogo teria acabado (?!?!?!). Cléber Machado endossou suas palavras, dizendo tratar-se de "evento mundial", ou coisa que o valha.

É Arnaldo quem gosta de dizer que "a regra é clara". Se é clara, vamos aplicá-la. Comentários como o dele reforçam nossas velhas concepções de que uns podem mais que os outros, de que as leis valem menos para os ricos e famosos. Só faltou botar o dedo na cara de Abade e dizer: "Sabe para quem você está dando o cartão"?

Ronaldo, até o momento em que escrevo, não reclamou do cartão. Ponto para ele. Mas protagonizou um acontecimento ainda mais triste e constrangedor ao sair do campo.

Cercado por repórteres, esperou que os seguranças afastassem (na porrada, segundo repórter da rádio Eldorado/ESPN) aqueles que não eram do sistema Globo/Sportv, para só então falar. Quanto aos outros, disse que só falaria depois, nos vestiários. Só faltou dizer: "Aos bajuladores tudo, aos independentes, a lei".

Qualquer atleta pode escolher para quem dá entrevista. Mas as coisas têm que ficar claras. Se ele recebe um por fora da Globo, beleza. Se só gosta de falar com aqueles que o cobrem de elogios e aplaudem tudo que ele faz (mesmo quando faz besteira), direito dele. O que não pode é fazer isso e se fingir de inocente, escondendo-se atrás de supostos "assessores".

Ronaldo é muito inteligente e acumula bastante experiência no show business esportivo. Está na hora de assumir a gerência de suas relações com a mídia e a responsabilidade pelas decisões tomadas. De ter mais assessores de verdade e menos puxa-sacos. De preservar sua imagem pessoal para não dever satisfações ao "Fantástico".

Ele e Arnaldo transformaram um belo momento do esporte numa triste nota sobre os negócios midiáticos que envolvem nosso futebol. Mais sobre isso em breve.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Esporte passado a limpo

Você é contra ou a favor da candidatura do Rio de Janeiro a sede das olimpíadas de 2016? Não responda.

Não até assistir o especial "Brasil Olímpico: uma candidatura passada a limpo", que a ESPN Brasil reprisa hoje, às 21h (segundo José Trajano, diretor de jornalismo da emissora, haverá outras reprises, e no fim de semana o programa deve estar disponível no ESPN 360 - grátis).

Veja o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, abandonar uma audiência no Senado; veja depoimentos de vários atletas desamparados; veja dirigentes que se perpetuam nos cargos há décadas.

Saiba que o Pan Rio/2007 estourou o orçamento em 1000% (sim, mil por cento. É simples: você faz o orçamento lá embaixo. O governo aprova. Quando o evento se aproxima, você põe a faca no pescoço do governo: "precisamos de mais dinheiro, senão o evento não sai e o país passa vexame". Como o governo é governo, e não vai assumir o ônus mandar essa canalha pastar e se lixar para o evento, ele dá o dinheiro. E, como há urgência, você pode gastá-lo sem licitação. Bonito, não?).

Saiba que, só para se fazer um dossiê apresentando a candidatura do Rio 2016 ao Comitê Olímpico Internacional, foi concedida uma verba de mais de R$ 80 milhões. É muito ou pouco? Bem, vejamos da seguinte forma: o orçamento do Ministério do Esporte para
todo o ano de 2009 é de R$ 74 milhões.

Enfim, assista, na TV ou na Internet. Depois, faça a si mesmo uma pergunta: por que essas informações nunca saem na Globo/Sportv?

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O esporte nos tempos da grana

(Ilustração: Pablo Carranza)

A ESPN Brasil tem sido um oásis de senso crítico e independência no jornalismo esportivo brasileiro. Dentre vários programas, destaca-se o "Histórias do Esporte" em que Roberto Salim (reportagem) e Luís Alberto Volpi (apresentação) mostram os bastidores, muitas vezes cabeludos, do esporte nacional. Coisas que não aparecem nas emissoras "parceiras" do COB (leia-se Globo/SporTV).

O programa da última semana falou sobre os desmandos reinantes na Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), que chega ao final de um período de 17 anos sob o comando de Vicélia Florenzano. Ali vemos meninas competindo contundidas, entupidas de analgésicos; uso indevido da imagem das atletas; despensas inexplicáveis vinculadas a laudos médicos questionáveis; a disciplina militar muito pouco adequada para adolescentes recém separadas dos pais; e, como se isso fosse pouco, suspeitas de racismo e malversação de recursos públicos. "Suspeitas" porque a ex-funcionária que poderia confirmá-las teme (com toda a razão) represálias jurídicas.

Parece que não há reprise programada, mas aí é que está a melhor parte: se você tem banda larga, não precisa de reprise, muito menos de ser assinante. Entre no ESPN 360, faça um cadastro rápido e gratuito e pronto: vai abrir um player de vídeo, e ao lado dele uma lista de programas. A reportagem sobre a Ginástica está em "Outros Programas" sob o título "Sem Limites".

Esse tipo de esclarecimento é importante em um momento de vinculações carnais suspeitíssimas entre Confederações, governo e uma certa mídia. Para quem não sabe, a candidatura de faz-de-conta do Rio para sediar as Olimpíadas de 2006 (tocada, em linhas gerais, pela mesma turma que "convenceu" o governo federal a gastar quase 13 vezes mais que o previsto no Pan/2007) já recebeu, via Medida Provisória, R$ 85 milhões, só para divulgação.

O que isso tem a ver com a ginástica? Quanto vale uma imagem de Daiane dos Santos ou Jade Barbosa anunciando algum produto? Quem fica com a grana, seja a nossa, seja a dos patrocinadores privados?

domingo, 2 de novembro de 2008

Galvão: o segredo do sucesso

(ilustração: Renato Artes)


Falar mal de Galvão Bueno é um risco de chover no molhado: é difícil que ele ainda tenha algum defeito novo para nos oferecer. Por outro lado, ele conseguiu "fazer parte" da vida da maior parte da população, como naquela época de macarronada/Sílvio Santos aos domingos (ou chocolate/diarréia na Páscoa). Pode não ser lá essas coisas, mas a gente se acostuma, e alguns sentem até falta. Seus críticos mais ácidos costumam ser seus telespectadores assíduos.


Por isso, mais que detonar Galvão, é preciso entendê-lo. Usualmente, tiro o som da TV e ouço a prova no rádio (Band News ou CBN, ambas são boas). Mas hoje vamos encarar a transmissão da Globo com paciência (o sofrimento tempera o caráter) e um mínimo de boa vontade antropológica.


(Gordo escornado assistindo à corrida)


Eita! Com 68 voltas de tédio e 3 de pauleira, Galvão mal teve tempo para mostrar sua "arte". Mas o que foi possível observar em sua atuação?

  • A audiência tem que ser preparada para engoli-lo. Reparem: no futebol de domingo, ele é precedido pelo Faustão. No das quartas, pela novela. E no GP de hoje, apelaram: "Pequenos Espiões 3D" (Fala sério... e não me venham com aquela desculpa de que "é para crianças". Crianças não nascem idiotas, somos nós que as estupidificamos com filmes como esse). Ou seja: antes de Galvão, há sempre algo para anestesiar o cérebro, principalmente no que diz respeito ao senso crítico e à vergonha na cara.
  • Galvão passa a sensação (falsa) de saber o que diz. Tem dois especialistas a seu lado (tanto no futebol como na F1), e contraria sistematicamente o que eles dizem. Ora, se você não entende patavina de Física e me vir discutindo o assunto com Einstein, vai achar que eu sou tão bom quanto ele. E, se entende de Física, vai tentar ver o telecurso em outro canal, porém descobrirá que a Globo comprou a exclusividade...
  • Galvão alimenta nosso complexo de Golden Retriever. Sim, o complexo de vira latas diagnosticado por Nelson Rodrigues há uns cinqüenta anos é coisa do passado. Trocamos a liberdade faminta dos cães de rua pelas coleiras antipulga do consumismo globalizado (praticado ou desejado).
  • Galvão propaga um nacionalismo chauvinista, cabotino, reacionário, individualista, francamente ignorante e inteiramente avesso ao convívio entre diferentes, o que não é novidade para ninguém. A questão é: isso vem ao encontro da mentalidade que predomina largamente em nosso arremedo de sociedade. Como vocês já perceberam em outros posts, não acredito em um público inocente, consumidor passivo do que a mídia impõe.
  • As pessoas, em sua grande maioria, gostam de emoções (por quê, meu Deus, por quê?). Posam de duronas e racionais, mas curtem mesmo é um melodrama. Se a corrida (ou o jogo) não provê emoções, como hoje até pouco antes do final, Galvão é um expert em tirá-las da cartola: o possível fim de carreira do Rubinho, a família de Massa comemorando o título e depois caindo na real (RÁRÁRÁRÁRÁRÁ), expressões que não querem dizer absolutamente nada, como "força de campeão"...

Enfim, Galvão, como se sabe, é odioso. Mas Daniel Dantas e César Maia, por exemplo, também são, e duvido muito que fariam sucesso nas tardes de domingo. O maior mérito de Galvão está em ter sabido captar o que há de bobo, infantil e acrítico em nós, e em ter transformado isso em um grande sucesso de mídia.