Houve um tempo em que o cinema brasileiro não tinha medo de errar. E, creio, errava menos do que hoje. Era um tempo em que os filmes eram feitos para serem vistos pelo maior número possível de pessoas, fossem ou não leitores da "Ilustrada". Sua intenção era entreter o espectador por duas horas ou menos, e não mostrar como eram cultos e engajados seus realizadores."O Signo de Escorpião" é desta estirpe. Dirigido por Carlos Coimbra, que já tinha no currículo sucessos como "Independência ou Morte", é um suspense tradicional, claramente inspirado no romance "O Caso dos Dez Negrinhos", de Agatha Christie.
Alex (Rodolfo Mayer), um misto de astrólogo, cientista e filósofo, convida para sua ilha particular representantes de nove signos do zodíaco, completados por ele próprio e seus dois empregados, Marta (Wanda Kosmo) e Samuel (Sandro Polônio), um dos casais mais sinistros do cinema nacional. O objetivo do gênio é apresentar sua última criação, um computador alimentado com dados sobre astrologia, capaz de, a partir deles, prever o futuro das pessoas. Note-se que tal coisa certamente parecia menos implausível naquela época, quando a tecnologia da informação ainda era, para a grande maioria, um mistério.
Ocorre que os convivas começam a ser assassinados um a um, enquanto o computador (que, por sinal, fala) solta mensagens aterradoras como "Quando Libra perde seu equilíbrio, está completa sua missão". As mortes dão ensejo a vários divertidos clichês de filmes de mistério: o par romântico que aos poucos se forma entre Ângela (Kate Lyra, jovem e lindíssima) e Eduardo (Carlos Lyra); a bruxa velha e misteriosa (Marta); a desconfiança mútua entre os principais personagens; a criatura que elimina o criador; mulheres sensuais morrendo seminuas etc.
A solução do mistério segue a lição de Agatha Christie: os crimes sempre são logicamente explicáveis. A lógica que você está usando para solucioná-los é que pode estar errada.
Este e inúmeros outros filmes da mesma época, parecem tentar se aproximar do cinema americano, que o espectador costuma ver na TV. Isso explicaria não só a temática e a narrativa tradicionais, mas também o fato de vários atores serem dublados por vozes conhecidas das sessões corujão da vida. O arcabouço estrangeiro é temperado com um jeito relaxado (no bom sentido) de se fazer cinema, tipicamente brasileiro.
Penso que aí está o que faz a glória de filmes como esse: o despudor em ser popular, em utilizar referenciais que qualquer espectador é capaz de operar. O sujeito comprava um ingresso e via um filme com violência, suspense, drama, romance e, claro, mulher pelada, pois o moralismo andava em baixa no cinema brasileiro da época. Bons tempos (para o cinema, não para o país, está claro).
Quem quiser pode interpretar o final como um libelo ecologista, ou talvez uma metáfora da luta entre a civilização e a natureza, ou, ainda, uma reflexão sobre a busca incessante do conhecimento e suas conseqüências. Acho um exercício válido e rico, mas a verdade é que estamos falando de um filme que não precisa disso. Sem ser extraordinário, "O Signo de Escorpião" é perfeito para quem, como eu, acredita que cinema é, antes de tudo, contar uma história.
Serviço: Foi lançado em VHS pela Videoarte há um milhão de anos. Em DVD não encontrei. Já passou no Canal Brasil, mas não há previsão de reprise no momento.
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