
O cinema produzido na Boca do Lixo (região do centro paulistano) entre os anos 60 e 80 costuma ser alvo de um preconceito fundado, principalmente, no desconhecimento, mas também no elitismo. Produzindo sem dinheiro para um público sem dinheiro, numa época em que um ingresso de cinema custava coisa de um dólar, a Boca foi responsável por alguns milhares de filmes, de gêneros variados, com diferentes graus de qualidade.
O gênero principal (mas não único) era a pornochanchada, que se estruturava na seguinte fórmula: orçamento baixo + título e/ou divulgação escandalosos + apelo sexual (esse maior ou menor, dependendo da disposição da censura). Importante para garantir o retorno financieiro de filmes realizados com investimento 100% privado, a fórmula era um arcabouço que permitia, desde que atendidas estas três exigências, que conteúdos os mais diversificados aparecessem nas produções. Houve filmes sórdidos, preconceituosos ou simplesmente bobos. E também houve os sublimes, como esse.
Ody Fraga, um dos criadores mais prolíficos da Boca, melhor roteirista que diretor, tenta aqui uma pornochanchada sofisticada: roteiro estruturado em forma de tragédia grega, música de Beethoven, citação de Miguel Unamuno e filmagem no paradisíaco litoral catarinense. Opção arriscada, essa mistura de filme popular com embalagem intelectual costumava resultar em pastiche. Neste caso, porém, Fraga acertou na mosca.
Em uma ilha, Gerusa (Neide Ribeiro) vive com seus filhos Ulisses (Calu Caldine) e Cassandra (Aldine Müller), os três a tecer rendas, como Penélope. O pai, Santiago, caiu no mundo em busca do nada há seis anos, e ela vive uma espécie de luto a esperá-lo na praia. O equilíbrio é precário, principalmente para Ulisses, premido entre a sexualidade florescente da irmã e a viçosa maturidade da mãe. O incesto está instalado como uma fera que espreita por trás das portas, esperando a melhor hora para dar o bote.
É quando aparece o marinheiro Roque (Jean Garrett, um dos grandes diretores da Boca, aqui dando uma de ator e se saindo bem), trazendo a notícia da morte de Santiago e funcionando como elemento desestabilizante daquilo que estabilidade já não tinha mesmo. Seduz Gerusa à noite e Cassandra na manhã seguinte. Ulisses foge e se esconde entre ruínas. Não tem coragem de ver o que sempre viu, pois não pode mais fingir que não o vê.
Roque é, na verdade, o assassino de Santiago. Aparentemente, matou-o para ficar com sua história, coisa que ele próprio não tem. Sem história, não sente culpa. Come, bebe, arrota e fuma enquanto mãe e filha se digladiam por ele e o filho se exila. Chega às raias da ingenuidade: acredita que tudo ficará bem se todos liberarem seus instintos e satisfizerem seus desejos. Ele veio para que encaremos aquilo que somos e possamos viver felizes e sem remorsos. Por isso, precisa morrer.
Como o vendeiro da vila de pescadores não cansa de advertir Gerusa, "as coisas devem acontecer na hora certa". Ulisses, Gerusa e Cassandra não estavam preparados para aquele Wilhelm Reich troglodita que veio do mar (aliás, o título mais apropriado para o filme seria "O Macho do Mar", mas causaria um fracasso de bilheteria, como vocês podem imaginar). Quando este propõe "abrir a cabeça para o amor", tem a sua aberta por um machado (justiça poética?). Ulisses e Cassandra voltam a suas rendas e seus olhares furtivos. Gerusa veste seu uniforme de viúva e volta para a praia. As coisas estão em seu devido lugar, para sossego do vendeiro.
"Fêmea do Mar" é belo plasticamente, conta delicadamente uma história com tema clássico (o estranho que chega para desequilibrar a nossa vidinha) e é filmado com sutileza. Um antídoto contra o preconceito hoje reinante contra o cinema popular brasileiro. Uma mostra daquilo que alguns de nossos melhores cineastas podiam realizar sem dinheiro público, sem jabá na imprensa e sem caretice estilizada. Cinema brasileiro de primeira qualidade.
Serviço: está na grade do Canal Brasil, mas acho que não passa de novo ainda este ano. Há uns malucos que vendem pela internet.
2 comentários:
Assisti a esse filme algumas vezes e achei bem interessante, com um enredointeligente.
Muito interessante essa ressignificação de algumas produções da Boca do lixo.
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