quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Em defesa do Halloween




Chega o dia das bruxas. Chegam junto as campanhas contra a comemoração da data no Brasil. Supostamente, tal celebração seria contrária à preservação de "nossas tradições". Por isso proliferam banners no Facebook mandando as bruxas para aquele lugar e fazendo apologia do Saci. O ódio ao Jack-O-Lantern é ainda maior no tocante a escolas públicas, pois o "dinheiro público" não poderia ser gasto para "glorificar" "tradições estrangeiras".
 

O raciocínio é tão primitivo que, em condições normais de temperatura e pressão, não precisaria ser rebatido. Porém, vários amigos meus, gente séria e inteligente, embarca na canoa. Provavelmente, em virtude do apelo nacionalista da campanha "anti-Halloween" (nós, de esquerda, costumamos adorar qualquer coisa "nacional", por mais internacionalistas que sejamos. Mas isso é outra história). Por esta razão, decidi tecer algumas considerações.
 

1 - Celebrar o Halloween não impede ninguém de valorizar o Saci, a Cuca, o Curupira ou a Loura do Bonfim. Da mesma forma que comer hamburguer hoje não nos impde de saborear uma feijoada amanhã. No século passado, trabalhei em escolas públicas que celebravam o "folclore nacional" em agosto e voltavam a ele em outubro/novembro, quando era estudado em conjunto as tradições anglo-saxãs do Halloween. Isso dá às crianças um gostinho de multiculturalismo e perspectiva histórica, o que vem bem a calhar nos dias de hoje.
 

2 - Festa junina tem origem estrangeira. Carnaval tem origem estrangeira. Dia das mães também. Natal, é melhor nem mencionar. "Ah, mas estas festas têm uma roupagem nacional", diz-me um amigo. Verdade. Elas estão aqui há séculos (menos a das mães, que é tão consumista aqui quanto em qualquer lugar). O Halloween chegou há menos de 30 anos. Ele também terá essa "roupagem", se pararmos de implicar com ele.
 

3 - A ideia de que existe uma "cultura nacional" pura, isolada, que precisa ser protegida de "perniciosas influências estrangeiras" não resiste a um sopro de neném. Cultura é vivência e elaboração humana, e os homens (e mulheres) vivem e elaboram sua vida de maneiras que tendem muito mais a se aproximar do que a se distanciar. No fim das contas, as culturas se fazem através de diferentes combinações dos mesmos elementos. Fabricar divisões "nós x eles" não é só eticamente questionável, mas também intelectualmente equivocado.
 

4 - As nações existem, é claro, mas não podemos perder de vista seu caráter de construção historicamente determinada. O nacionalismo é bom quando atento a esta concretude, e terrivelmente pernicioso quando ganha uma dimensão idealizada, de "ser nacional", "caráter nacional", "brasilidade" e outras bobagens.
 

5 - É, no mínimo, contraditório vetar o Halloween nas escolas públicas e colocar os alunos para ver filmes da Disney quando falta algum professor. O tal do "imperialismo" existe, sim, inclusive na modalidade cultural, mas não é tentando isolar a "cultura nacional" que vamos combatê-lo, e sim ensinando a valorizar essa cultura ao lado e em convivência com as demais.
 

E tenho dito, que o dever me chama.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Guerrilha e terrorismo: novo fenômeno bélico?


Variados acontecimentos dos últimos quinze anos, como a guerra civil na ex-Iugoslávia, o recrudescimento do fundamentalismo islâmico, a luta pela independência da Chechênia, têm levado diversos analistas, acadêmicos ou não, a falarem em uma nova realidade militar, ou em um novo fenômeno bélico. Este seria marcado pelo progressivo abandono da guerra convencional, regida por leis internacionais, e pela adoção de expedientes os mais diversos, abrigados sob as alcunhas “guerrilha” e “terrorismo”.

Este texto não procura esgotar o assunto. Seu objetivo é apenas refletir sobre a historicidade desse objeto e sugerir caminhos que possam levar a uma análise mais profunda do contexto atual. A inquietação que nos provoca é: até que ponto a realidade em questão representa uma novidade na história?

Trabalhar contemporaneamente os temas da guerrilha e do terrorismo é inviável sem uma prévia problematização histórica e política dos dois termos, bem como da multiplicidade de usos que se verifica para ambos.

Num sentido estritamente militar, o termo “guerrilha” poderia ser definido como uma tática caracterizada pela ação de pequenos grupos que contam com o elemento surpresa e grande agilidade no ataque e na evasão. A guerrilha costuma contar com o apoio de parte da população da região onde atua, o que facilita seu abastecimento e camuflagem.
Ora, essa forma de luta foi (e é) utilizada nos mais diversos contextos militares ao longo da história. Inclusive, nada impede um exército regular de, numa determinada situação de combate, valer-se de técnicas de guerrilha. Não é, pois, nesse sentido técnico que a guerrilha se constitui em um “novo fenômeno bélico”.

Ocorre que por exigir, se comparada à guerra “regular”, menos recursos materiais e humanos, a guerrilha se tornou (principalmente a partir da resistência à ocupação nazista em países como Itália, França e Iugoslávia) uma forma de luta preferencial para grupos que intentam promover uma resistência e/ou ofensiva de caráter militar, mas não têm como se constituir em exército. Por isso, encontraremos a guerrilha a desempenhar papel preponderante em contextos como a descolonização africana, as revoluções cubana e nicaragüense e o trágico combate travado pela esquerda latino-americana contra as ditaduras militares do continente, sobretudo nos anos 60 e 70.

Esse fato faz com que a imagem corrente da guerrilha se associe se associe à de uma luta de “oprimidos” contra os “opressores”, sendo este último um termo vago que pode designar um ocupante (nazistas), um colonizador (europeus na África), uma ditadura militar ou civil (Cuba, El Salvador) ou mesmo oligarquias econômicas (como as combatidas pelo EZLN no México).

Em tese, isso explicaria o enorme glamour em torno da figura do guerrilheiro e da própria guerrilha que podemos verificar na cultura política (sobretudo de esquerda) ocidental. O fato de estar associada a causas, digamos, “simpáticas” somou-se à construção de uma mitologia em torno de figuras históricas como Che Guevara ou os vietcongs, que exagerava o papel da guerrilha nas vitórias obtidas em tais contextos (na prática, a guerrilha, isoladamente, tem gigantescas dificuldades para a obtenção de vitórias militares completas, em virtude da quase completa impossibilidade de ocupar território de forma permanente).

Eficazes ou não, movimentos guerrilheiros alastraram-se por todo o terceiro mundo no último terço do século XX, levando as forças armadas dos países onde atuavam a se especializar em combatê-los, com conseqüências que serão abordadas adiante.

Se é relativamente fácil definir e localizar historicamente a guerrilha, o mesmo não se dá com o termo “terrorismo”, carregado de significados ideológicos e propagandísticos. Talvez possamos chamar de terroristas movimentos que buscam a concretização de objetivos político-sociais através da imposição do terror, ou seja, do recurso sistemático à morte violenta como forma de intimidação. Enquadram-se aí o IRA, a Al-Qaeda, os militares linha-dura brasileiros no início dos anos 80, e congêneres.

Deve-se chamar a atenção para algo freqüentemente esquecido: o terrorismo é, muitas vezes, uma estratégia adotada pelo Estado. Toda vez que se consegue a adesão ou a conformidade da população através medo provocado pela disseminação de execuções, seqüestros e tortura, configura-se o que se convencionou chamar de “terrorismo de Estado”.

Provisoriamente, então, poderíamos até mesmo conseguir distinguir guerrilha de terrorismo, de duas formas, ambas associadas à utilização da violência.

Em relação à função desempenhada pelo uso da violência, pode-se dizer que, na guerrilha, ele é o meio concreto da realização do seu objetivo. Visa a debilitar o inimigo e acumular meios de se produzir mais violência (armas, dinheiro, carros etc.), até que este inimigo possa ser enfrentado abertamente. Assim, a violência da guerrilha tornar-se-á mais forte e/ou mais eficiente que a violência de seu inimigo, terminando por vencê-lo.

No fenômeno terrorista, a violência desempenharia, em princípio, uma função muito mais “pedagógica”: ela serve para demonstrar o que acontece quando meu projeto social não se concretiza, ou quando minhas reivindicações não são atendidas. O terrorismo não planeja um enfrentamento aberto do inimigo; pretende, antes, dobra-lo pela intimidação.

No que diz respeito aos alvos da violência, podemos dizer que a guerrilha os limita ao inimigo e seus “associados”. O alvo preferencial são as forças armadas inimigas, funcionários governamentais, executivos de empresas consideradas “imperialistas”, diplomatas estrangeiros etc. Mesmo quando civis, seus alvos são considerados militares, uma vez que se envolvem, direta ou indiretamente, no objeto da luta. De uma forma ou outra, a violência da guerrilha não pode ser indiscriminada e se voltar contra a população, pois o apoio desta é fundamental à concretização de seus objetivos.

O terrorismo pode até selecionar seus alvos, mas não possui esta necessidade. O que ele precisa é demonstrar sua capacidade de rotinizar a morte violenta. Sendo assim, uma ação como os atentados de 11 de setembro possui inestimável valor para um agrupamento terrorista, enquanto para uma organização guerrilheira ela apenas geraria antipatia pela causa, despenderia recursos, denunciaria sua posição e atrairia a potência do inimigo.

Funcional para uma observação à distância, a distinção acima apresenta limites claros uma vez que aprofundemos o olhar analítico. O primeiro deles é óbvio: movimentos políticos não respeitam tipificações acadêmicas. Por isso, é comum encontrarmos elementos de guerrilha ao lado de caracteres terroristas em inúmeros contextos, o que dificulta sua classificação.
Um bom exemplo, atualmente em evidência, é o Hizbollah. Nascido no início dos anos 80 como resistência de caráter terrorista contra a ocupação israelense no sul do Líbano, o movimento expandiu seu programa (que passou a contemplar a inclusão política e econômica da população xiita do país) e multiplicou suas formas de ação (tornando-se inclusive um partido legal, com representação parlamentar e participação no governo), sem abdicar dos métodos terroristas. Nenhum dos dois rótulos em análise serve para compreendê-lo.

O segundo limite é mais complexo. Ao longo das últimas décadas, o termo “terrorismo” acumulou uma inegável carga negativa, enquanto “guerrilha”, que já foi extremamente simpático, mantém ainda um travo positivo. Tornou-se, assim, comum atribuir a pecha de “terrorista” a movimentos de oposição, sejam eles terroristas ou não.

As guerrilhas da América Latina sempre foram chamadas de “terroristas”, não só pelos governos da região como também pelo dos Estados Unidos. Dessa forma, dissemina-se uma imagem negativa do movimento e, em muitos casos, legitima-se sua repressão a qualquer custo.

E assim chegamos à consideração da questão do “novo fenômeno bélico”. Afinal, eles não são novos, e a guerrilha sequer experimenta uma fase de expansão. Novo é o nível a que o combate a estes movimentos parece ter chegado.

É antiga a convicção de que estratégias militares convencionais são inadequadas para se combater movimentos desse tipo. Vejamos um caso típico: no Brasil, na região do Araguaia, no início dos anos 70, um grupo de 69 guerrilheiros comunistas mal armados só foi vencido numa terceira expedição, quando as forças armadas se valeram de tropas especializadas em contraguerrilha, à paisana e capazes de disseminar o terror entre a população para evitar que ela apoiasse os guerrilheiros. Praticamente todos os prisioneiros foram executados e tiveram seus cadáveres destruídos, pois acreditava-se que a presença de elementos de esquerda na região permitiria a revivescência do “foco”.

Este é, para nós, o novo fenômeno bélico, se é que podemos chamá-lo assim. Após o 11 de setembro, o Congresso americano sancionou os Patriot Acts, que submetem os direitos civis à consideração de especialistas em segurança: o cidadão deixa de possuí-los se for considerado suspeito pelos órgãos de informação. Prisioneiros são levados para a base de Guantánamo, onde não valem as leis norte-americanas (e lei alguma, enfim). E o que dizer da política de atirar para matar em suspeitos por parte da polícia britânica?

Colocado frente a frente com movimentos de altíssimo potencial destrutivo, o Estado ocidental se vê impotente. Busca, por isso, legitimar e legalizar a barbárie que, em tese, ele teria nascido para impedir. Se no Araguaia brasileiro o Exército usou roupas civis e codinomes, e depois procurou destruir qualquer evidência, no Iraque ocupado o processo chegou a ser fotografado e legalizado.

Trata-se de uma encruzilhada para a democracia liberal do Ocidente. Não faz muito tempo, apregoou-se o “fim da história”, determinado pela vitória final desta forma política e da economia de mercado como os únicos mecanismos capazes de trazer liberdade, segurança e prosperidade ao cidadão. 

Agora, a forma como se lida com a guerrilha e o terrorismo poderá ser um indicativo mais real de sua solidez e estabilidade: dependerá de sua capacidade de garantir a segurança sem sacrificar a liberdade.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Fumaça pelas ventas

Ah, vê se não enche!



Depois dos imbroglios na Câmara Municipal de Belo Horizonte envolvendo aumentos do próprio salário e coxinhas familiares, eis que alguns vereadores resolvem se redimir perante a opinião pública propondo a proibição do cigarro em parques e em praças. Dizem que a inspiração vem de leis existentes em Nova York e em Tóquio. É o que informa o AndreaNews Estado de Minas de hoje.


Em primeiro lugar, deve-se louvar este hábito de se inspirar em grandes cidades. Quem sabe um dia não resolvem imitar o metrô de Nova York e o ensino público de Tóquio?


O excelentíssimo presidente da Câmara, Leo Burguês (aquele da coxinha), acha o projeto "muito positivo". Censura no nariz dos outros é refresco, né, vereador?


Os proponentes dos projetos de lei argumentam com a questão do mau exemplo para as crianças nas praças e parques. Pois é.


Demonstrando mais uma vez seu espírito cidadão, vem a público o Canal Fofão com sugestões de mais algumas iniciativas que poderiam acabar de vez com todos os maus exemplos que ameaçam nossas crianças.


1 - Proibir o Xodó na Praça da Liberdade e fechar todos os McDonalds e similares nos shopping centers - fast food também é mau exemplo, e obesidade infantil é a praga do momento.


2 - Botar para funcionar as leis que proíbem venda de cigarros e bebidas alcoólicas a menores. Não há pior exemplo do que uma lei que não é fiscalizada.


3 - Proibir a filiação de menores a torcidas organizadas - algumas apadrinhadas por vereadores - que vivem dando mau exemplo ao quebrar as cabeças dos seus desafetos.


4 - Punir os meios de comunicação que submetam as crianças a maus exemplos de comportamentos racistas, sexistas, homofóbicos etc.


5 - Multar de forma diferenciada os pais que dão mau exemplo ao cometer infrações de trânsito com os filhos ou outras crianças dentro do carro.


6 - Cassar vereadores envolvidos em desvio de verbas, nepotismo, espancamento de travestis e outros maus exemplos que me tomariam o dia inteiro para relatar.


7 - Reduzir o salário dos vereadores ao nível de um funcionário municipal concursado de nível superior - seria um bom exemplo de espírito público.


A lista poderia se estender, mas eu tenho que ganhar a coxinha de cada dia, e ainda descolar algum para o cigarro picado. Que vou fumar onde me der na telha.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fascismos e arquivos, lá e cá

Gente de bem... vamos correr?

Millenium - Os homens que não amavam as mulheres, que estreia hoje no Brasil, merece ser visto como bom filme de suspense. É longo demais (158 min.), preciosista demais e não chega aos pés dos grandes acertos do diretor David Fincher - Seven (1995) e Clube da Luta (1999). Mas se segura em um roteiro interessante e na falta de boas alternativas. Vale baixar ou comprar no camelô o preço do ingresso numa promoção de meio de semana.

Resumindo drasticamente a trama: na Suécia contemporânea, o jornalista investigativo Mikael Blomkvist é contratado por um milionário para esclarecer o desaparecimento de uma sua sobrinha, ocorrido há quase quarenta anos numa ilha do norte do país, totalmente habitada pela família do ricaço, que inclui pelo menos um antigo colaborador do nazismo.

Para o historiador - sobretudo aquele interessado no indelicado tema da atrocidade - o filme traz ainda duas reflexões importantes. A primeira nos leva a uma indagação sobre onde se encontra o fascismo em seus momentos não hegemônicos. Estaria ele nas marchas e braçadeiras ridículas com que volta e meia nos deparamos? Certamente, mas aí onde se pode vê-lo claramente é que ele assume sua forma menos perigosa.

O pior fascismo, como Fincher parece tentar mostrar, é aquele que se esconde atrás de um véu de cinismo e boas maneiras. Ao receber o jornalista, um dos patriarcas, assumidamente nazista, se declara "o mais honesto". "Da família?", pergunta Blomkvist. "Da Suécia", ele responde, roçando de leve o nervo dolorido e censurado do colaboracionismo.

No filme, este fascismo recalcado se manifesta na completa instrumentação das vítimas a serviço da vontade dos criminosos (que, num esforço de abstração, poderiam simbolizar um poder mais abrangente), o que ocorre não só naquela ilha perturbada, mas também em Estocolmo, onde uma trama paralela se desenvolve. Ambos os verdugos são aquilo que chamamos de "gente de bem", pessoas aparentemente muito elegantes e civilizadas, cidadãos de um país que está entre os melhores - de fato - em termos de respeito ao Estado democrático de direito e à conquista de direitos sociais.

Uma segunda reflexão, de interesse direto para o Brasil, poderia ser feita acerca dos arquivos - públicos e privados - enquanto realidade política. É justamente o acesso aos arquivos da empresa da família (combinado com o "hackeamento" ilegal de contas de e-mail e extratos bancários) que permite ao jornalista e a sua assistente feiosa desmascarar o responsável pelos crimes.

Simplificando, arquivos são constituídos, em geral, para organizar e otimizar o exercício de um determinado poder, muitas vezes discricionário. É o caso, por exemplo, dos arquivos da repressão brasileira nos anos 1960 e 1970, que reuniam e sistematizavam informações sobre os adversários da ditadura, de forma a melhor combatê-los. Quando abertos, num contexto político democrático, estes arquivos permitem não só a identificação dos assassinos e torturadores, mas também o melhor conhecimento do funcionamento do autoritarismo.

No Brasil, parece que o contexto político não mudou tanto assim. Tanto é que muito dos verdugos estão aí, passeando de terno e gravata (ou de pijama) e sendo chamados de "doutor" pelos porteiros de seus edifícios no Leblon. Tanto é que os arquivos mais importantes da repressão - sobretudo o do Centro de Informações do Exército (CIE) - continuam lacrados, inacessíveis ao presente. Tanto é, ainda, que, tal qual Harriet, a vítima no filme de Fincher, nossos mortos e desaparecidos políticos continuam à espera de quem lhes faça justiça e lhes devolva a identidade roubada.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Homens pobres: um reality real

Um dos participantes já foi selecionado.

O problema dos reality shows brasileiros é que eles têm muito show e pouca reality. Que identificação podemos ter com 15 desocupados que passam o dia inteiro comendo, bebendo e sendo acusados de abuso sexual? Ou com quatro peruas cabeças-ocas tomando champanhe em lojas de roupas? (Aliás, isso é chique? Têm certeza?)

Precisamos de reality shows nos quais possamos nos reconhecer. Por isso, o Canal Fofão vem apresentar-lhes a ideia-conceito do Homens Pobres, capaz de abalar as estruturas da audiência na televisão brasileira.

Os participantes deverão ser quatro cidadãos do sexo masculino, entre 30 e 45 anos, desempregados, sub-empregados ou beneficiários do Programa Bolsa Família de Mestrado, que não tenham carro e, de preferência, que morem com a mãe até hoje. Ao longo de cada episódio, deverão superar desafios típicos do cotidiano do brasileiro, tais como:

Solvência financeira
Cada participante deverá renegociar um crédito consignado de R$ 1000,00 contraído há um ano, e que agora, com os juros, chega a R$ 3761,16. A negociação deverá ser feita com o sr. Moreira, gerente há 23 anos do BMG (Banco Moedor de Gente) e acostumado a toda sorte de desculpas e choradeiras. Ganha quem mais se aproximar do valor original.

Soluções arquitetônicas
Em suas respectivas residências, os candidatos deverão construir um "puxado" para abrigar a irmã, o cunhado e dois sobrinhos, desalojados pelas últimas chuvas. O vencedor será o "puxado" que melhor resistir às próximas chuvas.

Alternativas de lazer
Dispondo de uma verba de R$ 100, cada participante deverá organizar um churrasco para oito pessoas. São itens obrigatórios: cerveja e alguma coisa que algum dia tenha feito parte de algum bicho. Critério de avaliação: fartura.

Sex appeal
Cada concorrente deverá convencer uma mulher a comparecer ao churrasco supra. Na abordagem da mulher, todos deverão usar a mesma vestimenta: boné de loja de autopeças, camiseta desbotada do time do bairro, bermuda que já foi calça, pochete e chinelo genérico tipo "ráiver". As mulheres deverão ter abaixo de 70 anos e serem juridicamente responsáveis pelos seus atos. Ganha quem levar a menos desesperada.

Carreira
Os competidores participarão do processo seletivo de uma grande empresa, composto de prova escrita, dinâmica de grupo, entrevista com psicóloga etc. Deverão convencer os selecionadores de sua criatividade, proatividade, adaptabilidade, versatilidade, disponibilidade, espiritualidade e até radioatividade, se for preciso. Como ninguém vai conseguir o emprego, que aparentemente não existe, ganha quem não tiver um surto psicótico durante a dinâmica de grupo.

Situações limite
Os participantes serão submetidos, sem prévio aviso, a uma "geral" executada em local ermo por policiais militares cujas esposas estejam dormindo de calça jeans há pelo menos duas semanas. Esta prova é eliminatória: quem for morto durante a mesma será automaticamente eliminado.

Sociabilidade
Cada homem pobre deverá detectar uma boa boca-livre acontecendo na cidade (vernissage, lançamento de livros, posse da diretoria do CREA etc.), infiltrar a si mesmo e aos outros na festinha e garantir o abastecimento de todos. Serão considerados o fluxo de bebida, a presença ou não de salgadinhos desconhecidos e a intimidação de garçons.

Mobilidade urbana
O cidadão será abandonado às 18h de uma véspera de feriadão na região de Nova Lima, de posse de R$ 3, com os quais deverá locomover-se até o Novo Sumaré. Não é permitido dar cano no trocador, nem praticar surfe rodoviário.

Cuidados automotivos
Nossos heróis entrarão em um Chevette 1979... é cada um em um carro, estão achando o quê? Depois deverão fazê-lo andar (sem empurrar), mantê-lo livre de multas e com o IPVA em dia. Quem conseguir, ganha o possante, e não será mais chamado de "a pé".

O prêmio? Que prêmio? Sentimos muito: se formos premiar cada brasileiro que cumpre as tarefas acima, a emissora quebra.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Minha várzea, minha vida

Poste de madeira dá nisso...

Belo Horizonte é uma cidade tão bem administrada que nem o Prefeito quer morar aqui. Talvez por autocrítica, a criatura que ocupa o gabinete principal da Av. Afonso Pena, 1212, resolveu vender a cidade inteira, até mesmo as ruas. A última novidade é a venda dos campos de futebol de várzea da cidade. Diz ele que vai investir os recursos no programa "Minha casa, minha vida". Sabem que pode até ser verdade?

Porém, até a enxurrada sabe que o motivo da venda é outro. O verdadeiro programa interessado é o "meu condomínio de luxo, minha vida" - a própria PBH reconhece que os terrenos em questão são "valorizados". E a mesma enxurrada sabe que a especulação imobiliária está entre os principais financiadores de qualquer campanha eleitoral vitoriosa na cidade. Este ano há eleições, então é só somar dois milhões mais dois milhões que você entende o resto.

Mas, por um breve momento, consideremos que o Poste esteja sendo sincero. Então, estaria tudo certo - para fazer moradia popular é válido acabar com a diversão dos pobres, certo?

Errado. É errado que os pobres tenham que escolher entre a diversão e a moradia, enquanto os ricos lucram com uma e com outra. Mas, mesmo assim, se a nominada criatura insiste tanto em investir em moradia para o povo, temos algumas sugestões de próprios municipais a serem vendidos para arrecadar os recursos necessários:

1 - Os mandatos dos vereadores (se nenhum dos edis ousa contrariar o Pimentécio, suponho que a Prefeitura seja dona dos cargos).

2 - A Praça da Estação (já que só a Globo pode fazer eventos no local, deve estar disposta a adquiri-lo).

3 - O Bulevar Arrudas (melhor vender antes que as chuvas detonem de vez o valor de mercado).

4 - Os pontos de wi-fi no centro da cidade (quem é louco de abrir um notebook por ali?)

5 - A Praça da Liberdade (os compradores fariam fortunas cobrando entradas dos manés que param para ver a decoração de Natal).

6 - A Região Noroeste, inteira (até o Lehmann Brothers administraria isso aqui melhor do que a PBH).

7 - A BH Trans(torno) (é só uma questão de fazer as empresas de ônibus pagarem por algo de que já usam e abusam).

8 - A poluição sonora (se som é energia, o ruído de BH deve dar para alimentar Nova York pelo resto da vida).

9 - O Parque Aquático Cristiano Machado (em alguns dias vira sauna).

10 - As cúpulas municipais do PT e do PC do B (não que valham muita coisa, mas nada melhor do que livrar-se de um trambolho enferrujado).

Tá vendo, prefeito? Não é preciso mexer no lazer do pessoal. Quanto aos especuladores, sugira que façam condomínios em Brumadinho.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Antipatias para um bom 2012

Ela abre os caminhos para você!

Sabe-se que esse blog anda semi-desativado, mas a postagem de ano-novo já é uma tradição, principalmente depois que as previsões para 2009 e as resoluções para 2011 se cumpriram fielmente.

Para esse ano, eu estava pensando nas famosas simpatias. Já notaram que aquilo nunca dá certo? Então, resolvi lhes propor as Antipatias de Ano-Novo do Fofão, uma para cada objetivo na vida. Sucesso garantido.


Dinheiro:

1) separe 12 sementes de romã;

2) coloque cada semente em um pequeno saquinho plástico, e etiquete cada saquinho com o nome de um mês e de um santo (por exemplo: janeiro, S. Sebastião; junho, S. Pedro e assim por diante);

3) vá para a Praça da Rodoviária (em BH; se mora em outra cidade, procure a praça onde ficam os curandeiros intérpretes da natureza);

4) com um megafone bem velho, anuncie as "sementes da prosperidade", que abrem os caminhos em 2012;

5) venda cada semente por R$ 10,00 e faça uma promoção vendendo o jogo de 12 sementes por R$ 100,00;

6) repita a antipatia até atingir a quantia desejada;

7) se a polícia aparecer, jogue tudo no chão e saia correndo.


Paz em família

1) separe 12 sementes de romã;

2) quando a sua família vier encher o raio do saco, coloque seis sementes em cada ouvido, para não ouvir o que ela diz;

3) deite-se no sofá e durma em paz com a sua família.


Sexo:

(para os amigos)

1) separe 12 sementes de romã;

2) convide a gata para tomar um champanhe;

3) diga à gata que vai preparar um drink especial;

4) em uma taça tipo flüte, misture, SEM QUE A GATA VEJA, sidra Cereser, pinga, xarope de groselha e uma semente de romã;

5) dê para a gata tomar e diga que é a última moda na Riviera;

6) repita a antipatia 12 vezes (uma para cada semente de romã);

7) convide a gata para dançar;

8) limpe o vômito da gata do seu cabelo e da sua camisa;

9) carregue a gata para a cama e certifique-se de que ela está respirando;

10) vá dormir no sofá;

11) de manhã, ponha o colchão no sol para secar o xixi da gata;

12) sexo? Relaxe, você não está mais com vontade.


(para as amigas)

1) separe 12 sementes de romã;

2) chame o primeiro homem que aparacer para transar com você;

3) jogue as sementes fora.


Amor

1) separe 12 sementes de romã;

2) escreva a palavra "ROMÃ" em um cartaz bem grande;

3) decore o cartaz com as sementes de romã;

3) leve o cartaz para a frente do espelho.


Saúde

1) separe 12 sementes de romã;

2) coma as sementes em lugar do almoço;

3) repita a antipatia no jantar;

4) repita as duas fases da antipatia durante 90 dias: romã é antioxidante, previne doenças cardíacas e fortalece os ossos. Vai ser ótimo para a sua saúde.


É isso aí, macacada. O Fofão se despede de 2011 lembrando a todos os amigos que precisa de dinheiro, e está disposto até mesmo a trabalhar para obtê-lo. Alguém aí sabe de um lote para capinar?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Filhinhos de papai? E daí?

Charge de Sinfrônio

Imaginem, por uns breves instantes, que este blogueiro é seu professor (uma autoridade, portanto). Imaginem, também, que nesta classe, formada por meus doze leitores, vocês tenham se habituado a levar tapões nas orelhas por qualquer motivo, ou até sem motivo, aplicados por seu professor.

Eis que, em dado momento, um aluno ou aluna (a Wandinha, muito provavelmente), resolve se erguer e dizer: "Chega! Não aceito mais levar tapões, e vou avisando que o próximo será revidado". O que vocês, os outros onze alunos, fariam? Apoiariam a colega? Ou a recriminariam, por se rebelar contra o tratamento desumano que vocês aceitam tão mansamente? Vocês diriam que a Wandinha está se colocando à margem da classe, acima da classe ou algo assim?

Já deve ter dado para perceber que o que motiva esse texto é a polêmica que opõe a PM de São Paulo a um grupo de estudantes da USP. Mas o que eu penso sobre esta questão, em si, está sintetizado em vários textos que têm sido publicados, como este aqui.

Para além, das questões, muito válidas, colocadas nesta e em outras intervenções, eu queria convidar vocês a refletir sobre as Polícias Militares e nossas relações com elas.

Esqueçam, por hora, os meninos e meninas da USP. E nós, como deveríamos nos portar? Deveríamos aceitar as "gerais" arbitrárias? As detenções "para averiguação", totalmente ilegais? Eu, pessoalmente, já tive apontadas para mim submetralhadoras (em um protesto) e revólveres (em um boteco), sem que tivesse violado qualquer lei. Eu engoli em seco e me calei, nas duas vezes. Então, eu é que estou certo?

Indo direto ao ponto: as polícias militares foram criadas, no Brasil, pela ditadura implantada em 1964, a partir de uns entulhos autoritários que o Estado Novo (1930-1945) tinha deixado. Até a Wikipedia sabe disso. Ela sabe também que, no mundo quase inteiro, esse termo, "polícia militar", se refere a organizações militares que atuam dentro das Forças Armadas (como a Polícia do Exército, no Brasil). Aqui, ao contrário, as PMs são as tropas que o Estado utiliza para combater a sociedade que o institui.

Sim, verifiquem em um bom dicionário a definição de "militar". Militares existem para fazer a guerra. Como a PM não combate exércitos estrangeiros, ela só pode servir para combater a nós. E cumpre muito "bem" tal atribuição.

Foi assim, durante a mesma ditadura a que nos referimos acima, quando as PM emprestaram alguns de seus talentos à máquina de matar gente construída pelas Forças Armadas, os terríveis DOI-Codi. Um exemplo? Aqui. Foi assim nos choques que reprimiam as greves de pedreiros, metalúrgicos e professoras nos final dos anos 1970. É assim hoje, quando o incensado Bope carioca invade favelas atirando primeiro e perguntando depois.

E vamos deixar para outro texto os casos de criminalidade pura e nada simples, como as milícias do Rio ou os esquadrões da morte de São Paulo.

Na USP, além de dar geral em estudantes na porta da biblioteca às dez horas da manhã, a PM invadiu centros acadêmicos sem mandado judicial, supostamente à procura de drogas. É assim. Antes era o comunismo. Agora são as drogas. Lembrando que já não há sanção legal ao consumo de maconha.

Ninguém aqui pretende apedrejar o policial militar, um trabalhador mal preparado e mal pago que é posto na rua para defender interesses que não os seus. Falamos da instituição que promove abusos de autoridade continuados, que aceitamos por necessidade ou por tibieza. Mas aceitamos.

Polícias Militares são coisa de Estados que têm medo de seus povos, de suas sociedades. Coisa de governantes que vêm o povo como inimigo.

Os meninos e meninas da USP podem ser filhinhos(as) de papai, como quer a Veja (não, eu não linko a Veja, virem-se). Pode haver, entre eles, maconheiros que fumam no "horário de trabalho", como quer o professor (!) e filósofo (!!!) Roberto Romano, da Unicamp, que parece acreditar que "estudante é para estudar" e foi escalado agora pela mídia burguesa para dar um verniz acadêmico ao reacionarismo de sempre. Mas, eu dizia, os meninos e meninas da USP podem ser mimados, podiam interromper a ocupação para entrar em seus carros de 50 mil e tomar banho na casa da mamãe. Se a Veja e o Romano dizem, quem sou eu para contestar?

Ocorre que o principal papel de uma Universidade, pelo menos na minha humilde opinião de quem já frequentou quatro campi diferentes, é identificar questões relevantes na sociedade, discutir e apontar caminhos. Inclusive caminhos que nos pareçam, a princípio inusitados. Que nos pareçam, a princípio, "regalias", como quer a tão bela Monica Waldvogel.

Não levar geral arbitrária é regalia?

Creio que não. Creio, sim, que os meninos e meninas da USP, ainda que meio sem querer, ainda que de forma confusa e atabalhoada, além de incompleta, estão chamando nossa atenção e abrindo nossos olhos, meio que à força, para o Estado policial sob o qual vivemos. Do jeito deles, recuperaram o legítimo papel da Universidade, que andava muito esquecido.

Agora, deixem eu voltar a estudar, antes que o Roberto Romano me acuse de estar escrevendo blog em horário de trabalho.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O misterioso fascínio do U2

Barrigudos e milionários. E daí?

Pela terceira vez, o U2 chega ao Brasil. Como das outras duas, mantive-me indiferente até agora há pouco, quando comecei a ficar doidão. É uma espécie de mecanismo de defesa: só fico doidão quando não dá mais tempo de ir ao show. Melhor assim, pois ando muito velho e chato ocupado para ir a shows. De mais a mais, deixei de gostar de música há anos. Melhor ficar em casa e ver na Globo (a Globo vai passar, certo? Hein? Pelo menos o Multishow, né? Hein? Hein?)

A questão é: qual a origem do fascínio que essa banda teima em exercer? Era um fenômeno explicável nos anos 80, quando ainda tínhamos uma noção mais ou menos definida de "bem" e "mal", e o U2 parecia encarnar o primeiro termo dessa equação: ajuda para a África, liberdade para Mandela, não a Pinochet. Gostar deles era politicamente correto, mesmo que, nos meus 15 anos, eu desconhecesse o conceito.

Aliás, as canções do U2 eram multiuso: de manhã, eu queria fazer a revolução e ouvia "Pride (In The Name of Love)" ou "Sunday, Bloody Sunday". De tarde, eu queria me encontrar existencialmente (que diabo é isso?) e ouvia "I Still Haven't Found What I'm Looking For". E, de noite, eu ficava triste porque queria ficar com a Janaína, que ignorava totalmente a minha existência. Daí, eu ouvia "With or Without You".

Melhor não mencionar que eu ouvia tudo isso em fitas K7, porque vocês vão apontar o dedo para mim e dar risada.

Nos 90, o muro tinha caído e, vá entender porque, isso virou desculpa para o mais generalizado cinismo. Ética e preocupações sociais ficaram tão demodés quanto camisetas do Guevara (eu tinha uma, comprada na feira hippie em 1990, antes do Che virar griffe. Onde anda minha camiseta? Pelo tamanho, daria hoje uma boa bandana, se eu tivesse idade para usar bandanas). Bacana era ganhar dinheiro e comprar ações da Usiminas recém-privatizada.

O U2 surfou essa onda e pariu aqueles que são, na minha opinião, seus melhores discos até hoje: Achtung, Baby! (1991) e Zooropa (1994), álbuns desengajados da política e profundamente engajados em renovar a música da banda, que andava meio datada. Mais importante que isso, o primeiro originou a turnê Zoo TV (durante a qual o segundo foi composto), que lançou o U2 como um produto multimídia, tão visual quanto musical, tão vendável quanto uma caixa de cereal matinal.

Eu tinha tirado umas férias da militância comunista e já nem lembrava quem, com mil demônios, era Janaína. Foi uma época gloriosa, de rocks dançantes como "The Fly" (até hoje minha preferida, junto com "Where The Streets Have No Name") e belíssimas baladas sinuosas, da qual "Stay (Faraway, So Close!)" foi a expressão máxima. Flertando com Win Wenders, de um lado, e Pavarotti, do outro, o U2 se reinventava como experiência estética.

Enquanto isso, eu me reinventava como "historiador" (no quarto período...) e "sofisticado" (eu achava) socialista gramsciano. Gostava de citar o U2 para provocar roqueiros mais tradicionais, fãs dos Stones, do Led Zeppelin ou mesmo do U2 dos anos 80. Gostar da fase "dance music" dos irlandeses era meio politicamente incorreto. Agora eu já conhecia o conceito, e adorava! Que Janaína, que nada, o negócio era o Patrícia Relax, logo atrás do edifício JK.

Daí veio aquela década que terminou no ano passado. Eu fui ganhar a vida como professor, o que deu meio errado, meio certo. O Patrícia Relax fechou, o que foi meio bom, meio ruim. Meus heróis não morreram de overdose, foram para Brasília e fizeram um governo meio progressista, meio conservador.

O U2 lançou uns disquinhos meia boca, mas sempre com algumas canções empolgantes.E Bono se relançou como paladino das boas causas, um bom moço barrigudo e milionário, com 50 anos, ou seja: com uma imagem bem mais realista. E bem mais focado, ao denunciar a tragédia das dívidas externas do terceiro mundo e botar as mães da Plaza de Mayo em cima do palco (essa foi arrepiante).

É assim que o U2 chega hoje ao Brasil: com uma mensagem política que ressoa muito mais que sua música, hoje desimportante. Mas que carrega, além dessa mensagem, uma história que embalou as vidas de quem nasceu nos anos 70, foi adolescente nos 80 e teve que virar homem, aos trancos e tropeções, nos duros anos que vieram depois.

Gente que ouviu o U2 por esse tempo todo, porque as canções forneciam soluções de sentido, ainda que involuntariamente. Sua música virou uma espécie de trilha sonora para nós. Tanto é assim que a usei para empurrar ao leitor lances sem importância dos últimos 20 anos de minha banalíssima vida, fingindo falar de música.

É assim que se entende esses irlandeses católicos, pelo menos para alguém na casa dos trinta e muitos. Domingo à noite, quando os primeiros acordes de "Beautiful Day" soarem no Morumbi, é nisso que pensaremos: vidas em formato de trilha sonora. E ficaremos inebriados como se tomássemos umas doses de Jameson.

Vai passar na Globo, né? Hein? Hein? Pelo menos no Multishow...

quinta-feira, 3 de março de 2011

"Bruna Surfistinha": um programa e tanto


Muita gente diz que a história de Bruna Surfistinha não tem nada de especial. Concordo plenamente. Porém, o que estas pessoas não percebem é que não ter nada de especial é justamente o que a história dela tem de especial.

Em si mesma, a profissão do sexo não torna ninguém melhor ou pior do que os outros. É, ou devia ser, uma constatação óbvia, mas no cinema e na mídia de uma forma geral não é isso o que se vê. A prostituição costuma ser tratada como atividade abjeta de pessoas imorais, ou mazela social a ser extirpada em uma futura sociedade justa, ou, ainda, um mundo de glamour e prazeres intermináveis, que lembra a enferrujada imagem da "vida fácil".

Num caso, a prostituta é uma degenerada a ser posta fora do convívio social. Em outro, uma vítima, que tem que ser resgatada. No terceiro, uma heroína, digna da nossa admiração (ou inveja).

O maior acerto de Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini, é fugir desses pré-juízos. Sua Bruna (aliás, Raquel, nome de batismo) é uma menina com dificuldades de socialização, o que não a leva a "cair" no meretrício. Este aparece como uma opção entre outras, a melhor para aquela moça específica, que precisa sair de casa e ter uma renda que lhe permita algum grau de independência. Ela faz uma escolha e assume a responsabilidade por ela, ou seja: não se trata da jovem "iludida" ou "aliciada".

É esse o assunto central na tela: o custo/benefício da liberdade, os ônus e os bônus de se mandar no próprio nariz. A protagonista não tem dúvidas: por mais caro que seja, o preço vale a pena. Portanto, esqueçam qualquer possibilidade de uma "redenção": esse filme não pretende redimir ninguém, muito pelo contrário: ao final, em off, Bruna declara: "Foi como garota de programa que aprendi a não julgar, a aceitar as pessoas como elas são, como elas conseguem ser."

Não me entendam mal: o glamour está no filme, as mazelas também (Bruna se vicia em cocaína), mas nenhum dos dois se transforma em ferramenta para condenar, absolver ou glorificar as profissionais do sexo ou sua atividade. Inserem-se na realidade das meninas, que também inclui paixões, baladas, famílias e um esplêndido momento "puta pride" em um salão de beleza grãfinoide. As companheiras de Bruna podem ser amigas leais como Gabi, ou aproveitadoras inconsequentes, como Carol, mas acima de tudo são humanas.

Sem apelar para a sacanagem gratuita, Baldini fez um filme descarado, sem vergonha no melhor sentido da expressão e desprovido de qualquer pretensão de chocar o espectador ou lhe ensinar sociologia (embora acabe caindo na tentação de desnecessárias justificativas psicológicas para o homem que procura a zona - a gente vai lá para transar, é só isso). Não é genial, não é obra prima, é um filme bom e honesto, como sua personagem principal.

Personagem, aliás, interpretada com entrega, coragem e competência por Deborah Secco. Alguém precisa obrigar essa moça a fazer mais cinema, nem que seja amarrada (sem fantasias, tarados). Ela conseguiu criar um leque de diferentes tipos para a protagonista, aparentemente aproveitando sua experiência anterior. A menina Raquel remete à adolescente meio machona Carol, de Confissões de Adolescente, enquanto Bruna, em certos momentos, lembra a doce Moema de Caramuru, e em outros aquelas adoráveis vadias que Deborah interpreta em algumas novelas.

Respeitando a inteligência de seu espectador, abstendo-se de elucubrar sobre o bem e o mal e tratando o sexo como uma dimensão a mais da vida, que não deve causar vergonha nem obsessão, o filme agrada também pelos personagens plausíveis, bem construídos, e pela narrativa sem invencionices.

Em tempos nos quais o cinema brasileiro, em sua vertente dominante, tem tratado seu público como criança, como alguém a ser entretido com bobagens e instruído sobre como se comportar, essa postura dissonante de Bruna Surfistinha o credencia como alvissareira surpresa.