Gente de bem... vamos correr?Millenium - Os homens que não amavam as mulheres, que estreia hoje no Brasil, merece ser visto como bom filme de suspense. É longo demais (158 min.), preciosista demais e não chega aos pés dos grandes acertos do diretor David Fincher - Seven (1995) e Clube da Luta (1999). Mas se segura em um roteiro interessante e na falta de boas alternativas. Vale
Resumindo drasticamente a trama: na Suécia contemporânea, o jornalista investigativo Mikael Blomkvist é contratado por um milionário para esclarecer o desaparecimento de uma sua sobrinha, ocorrido há quase quarenta anos numa ilha do norte do país, totalmente habitada pela família do ricaço, que inclui pelo menos um antigo colaborador do nazismo.
Para o historiador - sobretudo aquele interessado no indelicado tema da atrocidade - o filme traz ainda duas reflexões importantes. A primeira nos leva a uma indagação sobre onde se encontra o fascismo em seus momentos não hegemônicos. Estaria ele nas marchas e braçadeiras ridículas com que volta e meia nos deparamos? Certamente, mas aí onde se pode vê-lo claramente é que ele assume sua forma menos perigosa.
O pior fascismo, como Fincher parece tentar mostrar, é aquele que se esconde atrás de um véu de cinismo e boas maneiras. Ao receber o jornalista, um dos patriarcas, assumidamente nazista, se declara "o mais honesto". "Da família?", pergunta Blomkvist. "Da Suécia", ele responde, roçando de leve o nervo dolorido e censurado do colaboracionismo.
No filme, este fascismo recalcado se manifesta na completa instrumentação das vítimas a serviço da vontade dos criminosos (que, num esforço de abstração, poderiam simbolizar um poder mais abrangente), o que ocorre não só naquela ilha perturbada, mas também em Estocolmo, onde uma trama paralela se desenvolve. Ambos os verdugos são aquilo que chamamos de "gente de bem", pessoas aparentemente muito elegantes e civilizadas, cidadãos de um país que está entre os melhores - de fato - em termos de respeito ao Estado democrático de direito e à conquista de direitos sociais.
Uma segunda reflexão, de interesse direto para o Brasil, poderia ser feita acerca dos arquivos - públicos e privados - enquanto realidade política. É justamente o acesso aos arquivos da empresa da família (combinado com o "hackeamento" ilegal de contas de e-mail e extratos bancários) que permite ao jornalista e a sua assistente feiosa desmascarar o responsável pelos crimes.
Simplificando, arquivos são constituídos, em geral, para organizar e otimizar o exercício de um determinado poder, muitas vezes discricionário. É o caso, por exemplo, dos arquivos da repressão brasileira nos anos 1960 e 1970, que reuniam e sistematizavam informações sobre os adversários da ditadura, de forma a melhor combatê-los. Quando abertos, num contexto político democrático, estes arquivos permitem não só a identificação dos assassinos e torturadores, mas também o melhor conhecimento do funcionamento do autoritarismo.
No Brasil, parece que o contexto político não mudou tanto assim. Tanto é que muito dos verdugos estão aí, passeando de terno e gravata (ou de pijama) e sendo chamados de "doutor" pelos porteiros de seus edifícios no Leblon. Tanto é que os arquivos mais importantes da repressão - sobretudo o do Centro de Informações do Exército (CIE) - continuam lacrados, inacessíveis ao presente. Tanto é, ainda, que, tal qual Harriet, a vítima no filme de Fincher, nossos mortos e desaparecidos políticos continuam à espera de quem lhes faça justiça e lhes devolva a identidade roubada.
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