segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Doces Poderes (1996)





O cinema de Lúcia Murat guarda estreita relação com sua trajetória de vida. Lúcia participou da luta guerrilheira contra a ditadura militar nos anos 60/70 e conheceu o inferno da prisão e da tortura. Libertada, não abandonou a militância, e seus filmes refletem bem essa opção.

Doces Poderes, lançado em 1996 e quase ignorado pelos exibidores, emula a eleição presidencial de 1989 (aquela do segundo turno entre Collor e Lula, com direito a acusações da ex-esposa deste último etc.), ainda que a disfarce sob a aparência de um pleito para o governo do Distrito Federal. No fundo, discute práticas que não foram abandonadas até hoje.

Bia (Marisa Orth), jovem e bem sucedida jornalista, assume a sucursal brasiliense da TV mais poderosa do país (qual será?), substituindo Bob (Sérgio Mamberti), que sai para comandar a campanha de um candidato playboy de nome Ronaldo (José de Abreu) que disputa o governo contra o operário negro Luizinho (Luis Antonio Pilar). Neste processo, "reencontra" o antigo namorado Chico (Antonio Fagundes), agora deputado e casado com um bagulho, coordenador da campanha de Luizinho. Ela tentará realizar seu trabalho com independência e honestidade, mas vocês podem imaginar que não será tão fácil assim.

Soa esquemático e maniqueísta? Sim, porém nem tanto. Os acordos espúrios do partido "operário" são explicitados, e a posição covarde de alguns jornalistas e profissionais de marketing nos inspira mais pena que indignação. É preciso que se compreenda que o tema central é a mídia, não as eleições. No mais, a interpretação do elenco experiente e cheio de recursos (que ainda inclui nomes como Otávio Augusto, Stepan Nercessian e Chico Diaz, entre outros) impede maiores prejuízos.

O filme ganha seu grande diferencial quando mergulha no processo de construção e descontrução da imagem de candidatos, mostrando detalhes de edição de imagens, recortes mal intencionados de notícias, criação de jingles etc. Nestes trechos, é como se fosse um documentário com atores. Destaque para o personagem de Tuca Andrada, sempre oscilando entre o carreirismo e o jornalismo.

O resultado final é positivo, ainda que um pouco tosco. Lúcia, àquela altura mais acostumada a documentários (como o autobiográfico e ótimo Que Bom te Ver Viva, de 1989), parecia estar se lapidando para vôos mais altos, muito mais altos, dos quais falaremos em breve. O chato é que você termina de assistir com uma sensação de cansaço, o que não se deve apenas à música soporífera de Adriana Calcanhoto, mas também e principalmente à história que, por ser tão realista, bombardeia esperanças em corações mais inocentes.

Como esse blog é acessado por um monte de professores (ô raça desgraçada!), cabe emendar que Doces Poderes é ótima pedida para se discutir questões como mídia, formação de opinião etc. Mas que seja para turmas de Ensino Médio para cima, pois os pais da galerinha mais nova podem não gostar desse negócio de Marisa Orth transando amarrada na cama.

Serviço: não encontrei registro de lançamento em VHS ou DVD. Passa periodicamente no Canal Brasil (esse ano passou umas três vezes). Fiquem de olho.

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