Terminadas as eleições municipais, pensei em fazer um balanço crítico da propaganda eleitoral na televisão e no rádio. Minha referência, em geral, são os programas das candidaturas de Belo Horizonte, mas também dei uma espiada, via You Tube, em inserções de outras cidades.
Antes de mais nada, precisamos nos livrar da noção de "propaganda gratuita". É gratuita para os partidos/candidatos, mas as emissoras recebem, na forma de isenções fiscais, pelos horários cedidos. E alguém tem que cobrir essas isenções na arrecadação tributária, ou seja, nós pagamos a brincadeira.
Ainda assim, trata-se de uma idéia que nasceu com nobres intenções: dar ao candidato um canal pelo qual ele possa expor sua plataforma, e ao eleitor uma maneira de embasar melhor sua escolha. Porém, tornou-se um meio de alienação da população e de perpetuação de grupos políticos encastelados no poder.
Embora às vezes seja apresentado algum arremedo de proposta concreta, em geral o que se vê são apelos emocionais do tipo "não deixe que eles enganem seu coração" ou referências a uma cultura política mandonista e tradicional. Não deixa de ser curioso, em uma eleição na terceira maior capital do país, a presença de uma inserção de rádio onde dois caipiras dialogam dizendo "cumpaaaaade". A produção excessiva, com trilha sonora emocionante e tomadas cinematográficas, ajuda a afastar qualquer sombra de reflexão política. Isso para não falar no manancial de acusações de baixo nível, típico da reta final de campanha.
Isso se torna tanto mais grave quando vemos que a propaganda na TV desempenha um papel cada vez mais crucial na definição dos resultados eleitorais. Aqui em BH, o candidato que venceu os dois turnos tinha 6% de intenção de votos quando se iniciou o horário político. Só que ele também tinha um terço (!) do tempo total de televisão, ou cerca de 10 vezes (!!) a cota da candidata que até então liderava, com 20%. No programa desta, era preciso escolher entre cumprimentar o eleitor ou apresentar alguma proposta. Só dava tempo para uma das coisas. Ao fim do primeiro turno, ele tinha 43%; ela, fora do segundo, 8%.
Essa distorção poderia ser resolvida com a mudança dos critérios de distribuição do tempo, fazendo com que a maior parte dele fosse distribuída igualmente entre as candidaturas, e apenas uma parte menor proporcionalmente, de acordo com as bancadas (hoje é o contrário: a parte do leão obedece à proporção de parlamentares eleitos. Assim, os partidos grandes só crescem, e os pequenos, só diminuem).
Mas isso só no caso de concordarmos que é inevitável a permanência do horário eleitoral. Porque eu tenho minhas dúvidas. A poucos dias do segundo turno, recebi um DVD de um candidato apresentando uma biografia e algumas propostas. Muito bem produzido, mas superficial de doer. Aí pensei: não seria melhor o eleitor que se interessar solicitar um material como esse? Ou mesmo a candidatura distribuir maciçamente, como fez o candidato a que me refiro? Assim, assiste quem quer (também seria o caso de se perguntar por que não pode ser "vota quem quer", mas isso foge ao escopo desse blog), e tenho certeza que haveria mais profundidade na propaganda.
Alguém dirá que essa solução discrimina a parcela da população que não tem DVD. Ora, tenho certeza que os candidatos que se interessam verdadeiramente por essa camada (e não apenas pelos votos que ela proporciona) vão aproveitar para, quando visitarem essas regiões, discutirem propostas com os eleitores que lá estiverem (e não apenas sorrir amarelo e apertar com nojo as mãos das pessoas). Bem melhor que qualquer DVD ou programa eleitoral.
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