Mostrando postagens com marcador Poder. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poder. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Eu já sabia...

Ah, o poder...

Os meus doutos leitores hão de perdoar o palavreado vulgar, mas... vocês viram o naipe da bitela? Alguém anotou a placa do Boeing 767?

Há cerca de dezoito meses, eu já suspeitava que o cargo de vice-presidente era a melhor posição da república. Mas não imaginava que isso fosse verdade em tantos sentidos diferentes.

Cheguei a ficar meio confuso. Na hora da posse, perguntei a alguns amigos por que a Ministra da Saúde estava ao lado do vice. Outros pensaram que, talvez, alguém houvesse tido a iluminada ideia de criar a Secretaria Nacional dos Direitos dos Homens.

Não é à toa que me ofereci às diversas candidaturas, com plataforma e tudo. Era fácil ver que o filé (sem referência a ninguém) estava no Jaburu, não na Granja do Torto. Porém, minha pré-candidatura não foi levada a sério. Devem ter achado que eu não passo de um gordo bêbado e desbocado que nunca gostou de trabalhar... bom, deixa pra lá.

Mas não sou maldoso, por outro lado. Jamais faria as piadinhas chulas que o pessoal do Notícias NX publicou. Não acho a menor graça nisso, e não entendi porque mijei nas calças quando li. É preciso um mínimo de respeito pelas autoridades eleitas.

Bem que o Luiz Inácio avisava que estávamos a caminho do primeiro mundo. Da França já não temos que ter inveja.

Atualização em 10/02/2017:
Agora, seis anos depois, lembrei-me dessa postagem e do quanto (só agora o percebo) foi machista e até desrespeitosa. Ia apagá-la. Não vou. Fica mantida como mecanismo de autocrítica. E fica aqui, também, o meu pedido de desculpas (mais um).

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Criminalizando a pobreza

Um perigo para a segurança pública!

O nome do bicho é demofobia: aversão a povo. É uma doença muito grave e degenerativa, que sempre atingiu os poderes públicos do Brasil.


Neste ano, não teremos a festa de Reveillón na Barragem Santa Lúcia, aqui em Belo Horizonte. O Ministério Público proibiu. Argumentos: tem havido aumento de ocorrências violentas na festa, e a Polícia Militar não tem efetivos disponíveis para garantir a segurança. É?

No ano passado, foi registrada uma tentativa de homicídio durante a festa. Uma já é violência, certo? Então, talvez devamos cancelar o futebol, já que violência não pode. Ou, seguindo a sugestão de Eduardo Costa, da rádio Itatiaia, fechar o Chevrolet Hall, já que mataram alguém lá na porta outro dia mesmo.


Não me deixem esquecer de, no dia 2, procurar o número de ocorrências na Praça da Estação.

Quanto à indisponibilidade de "efetivos", bem , aí eu já acredito. Não há efetivos porque, tirando daqueles que trabalham na tradicional queima de fogos da Pampulha, o resto foi deslocado para a nada tradicional festa da Globo na Praça da Estação. Festa que ocorre este ano pela primeira vez, enquanto a da Barragem já tem 13 anos.


O recado está dado: quem tem dinheiro fura a fila. E quem é pobre não tem direitos. O recado foi dado pela Prefeitura, pelo MP e pela PM.


Depois vão cobrar do povão o respeito à lei.

À lei de quem, cara-pálida?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Mayara, minha cara...

Ele é nordestino, Mayara?

Mayara, quem te transformou nessa pessoa que você virou?

Não, não estou falando de uma monstrenga racista e genocida (você pode até ser isso, mas como vou saber?), refiro-me à facilidade com que repete propostas de assassinar pessoas por afogamento (ops, perdão. Segundo você, não são pessoas, certo?), com a mesma tranquilidade de quem convida para o show do Black Eyed Peas.

Lendo sobre você nos jornais, permiti-me tirar algumas conclusões. Você é estudante e estagiária de Direito em São Paulo, certo? Deduzo, então, que deve ter entre 21 e 23 anos, e que sua faculdade, seja pública ou privada, deve ser de qualidade, no mínimo, razoável (escritórios com algum zelo não aceitam estagiários de faculdades furreca). Para entrar nesta faculdade, você deve ter estudado em boas escolas (particulares, suponho) no passado.

Então, o que leva uma jovem da sua idade, bem educada escolarizada, possivelmente até com alguma cultura, a repetir tantas sandices, como fez você nas redes sociais?

Seus professores não te ensinaram isso, certo, Mayara? Hein, Mayara? Responde aí, moça, para eu não desconfiar dos meus colegas... Não, não foram eles. Professores fascistas não se expõem para alunos, são covardes por natureza. Do seu caso, são inocentes.

Pode falar, minha jovem. Não vai acontecer mais nada além da perda do estágio, um tapinha na mão para o que se considera uma travessura. Tem gente no Ministério Público que acha que você merecia um castigo mais severo, talvez umas palmadas, mas isso é só até o caso sumir da imprensa. De mais a mais, palmadas estão proibidas, como você sabe.

Quem foi, Mayara? Você não tirou isso da sua própria cabeça, nem vem. Não passou a odiar nordestinos por causa do porteiro do seu prédio, seu Isaías (Geraldo? Severino?), que sempre te ajuda a tirar as compras do táxi, certo? Também não foi por causa daquelas moças de uniforme que levam os bassês para passear, foi? Bassês ainda estão na moda?

Será que você odeia mesmo alguém? Quem, os nordestinos? O Lula? A Dilma? Mas a Dilma é mineira, como eu, e gaúcha por adoção. O que você sente é ódio ou frustração?

Você afogaria o seu Tobias (Ednaldo? Virgulino?), Mayara?

Talvez você não odiasse ninguém se lesse os jornais e percebesse que o resultado das eleições seria o mesmo sem o Nordeste e o Norte. Talvez não precisasse nem disso, bastasse uma sondagem na sua turma de faculdade, no prédio em que você mora... Os que pensam diferente de você estariam ali mesmo, ainda que em minoria. Ah, Mayara, quanta complicação por causa da desinformação!

Mayara, tente ouvir a experiência de um professor gordo e não muito branco que outro dia mesmo era jovem. Com a sua idade e sua condição social, é hora de curtir a vida ao máximo. De conhecer muita gente e muitos lugares diferentes, pois nunca mais a disposição física, a curiosidade e a tolerância com eventuais desconfortos ou companhias heterodoxas serão tão grandes. Também é a hora de transar muito, pelos mesmíssimos motivos!

Quem sabe você não aprende mais sobre as pessoas que pretende afogar?

Política, nessa fase da vida, só deve ser feita se for com muita alegria, entrega e leveza. Depois dos trinta, você nunca mais conseguirá fazê-la por puro prazer. Aproveite agora, se você gosta de política.

Mas estou perdendo o foco: onde foi, Mayara, que você aprendeu estas coisas tão feias que escreveu no Facebook e no Twitter? O que você fez não tem conserto, mas pode ter compensação: onde fica o... o... (ovo da serpente? Ninho do abutre? Não, sacanagem com os bichinhos!)

Você não sabe, não é? Não se lembra. Tem a sensação de que sempre pensou desse jeito. Todo fascismo é assim: suas origens são tão frágeis que, se forem expostas, a gente destrói com um sopro. Em parte - em parte, repito - não é culpa sua.

Tudo bem, Mayara. Quer dizer, tudo mal, mal demais, mas pelo menos o seu papelão, mesmo sem as merecidas palmadas, nos presta um serviço. Sua explosão de ódio sócio-regional (não foi só sua, mas, sabe como é, antiguidade é posto), associada à inundação de ódio religioso dos últimos 30 ou 40 dias, nos mostra que ganhar as eleições é fácil e banal, perto dos desafios mais sérios.

Depois de todo esse escândalo, você não é mais uma ameaça, Mayara, se é que foi algum dia. Mas quantas Mayaras permanecem em stand by nos twitters e nas novenas da vida?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Entrevista exclusiva: a fita crepe!

"Não se deixa uma fita crepe abandonada
pelo caminho: ela pode grudar no seu pé
e aí vai dar uma complicação danada.
"

Em mais um sensacional esforço de reportagem, deixando novamente a mídia nativa a comer poeira, o Canal Fofão entrevistou, com exclusividade, a grande figura do noticiário da última semana: a fita crepe que bateu (bateu mesmo? Sério?) na cabeça do candidato tucano, José Serra. Acompanhe, abaixo, a íntegra da conversa:


Canal Fofão - Conte um pouco sobre a sua trajetória de vida.

Fita Crepe - Venho de uma família muito ordeira e trabalhadora. Papai era um daqueles durex à moda antiga, de cheiro forte e pouca conversa. Rodou o país inteiro colando aqueles cartazes de "Terroristas Procurados" nos anos 70. Já mamãe era mais frágil, mais caseira, crepe como eu, mas naquela época fazia muito trabalho voluntário, como nas homenagens ao Presidente Médici.

CF - Quer dizer que sua família sempre esteve ligada à política?

FC - Sim, e sempre do lado da ordem. Toda vez que a ordem começa a desabar, a gente chega para dar uma emendada. Meus irmãos, por exemplo, atualmente, vedam caixas e mais caixas daqueles panfletos que acusam a Dilma de comer orelhas de criancinhas com molho rosê. Mas eu... sei lá... Olha, pode escrever aí: eu sempre soube que o meu destino era ser star!

CF - Como foi aterrissar na cabeça do Serra?

FC - Tive medo, porque me disseram ser uma superfície muito dura. Outros falavam que era quebradiça, por ser oca. Mas é tudo intriga do PT: minha descida foi das mais tranquilas, em meio a todo aquele miolo mole.

CF - Fale mais sobre o local da aterrissagem.

FC - É outro mundo. O primeiro mundo, para ser exata. Cheio de jipões pretos, bolsas da Daslu e gravatas amarelas chiquérrimas! Há exemplares da Veja por todo canto, e todo mundo é católico carismático. Nos aviões só viaja gente de bem, de nível. Vou te contar: a cabeça do Serra é um verdadeiro condomínio fechado, um Alhpaville mental!

CF - Qual foi a participação do PT e de Dilma no episódio?

FC - Veja bem, eu sou uma fita do comitê do PSDB. Pouco antes do incidente, saíram as pesquisas dando 12 pontos de vantagem para Dilma. O FHC ficou uma arara, ou melhor, uma tucana, e chutou tudo para cima, inclusive eu, que saí voando pela janela e acertei o candidato. Ou seja: tudo culpa do PT.

CF - Mas um perito analisou as imagens e disse que você nem estava lá...

FC - Esse perito saiu no Jornal Nacional? Não? Pois o do Jornal Nacional disse que era euzinha mesma! Em quem você acredita? No casal quarenta e c..., digo, no casal vinte do telejornalismo brasileiro ou nesse perito bunda suja do PT? É como dizia Nelson Rodrigues: o videoteipe é burro!

CF - Naquela hora, o Serra atendeu ao celular. Você conseguiu ouvir a conversa?

FC - Já estava no chão há uns vinte minutos, mas ouço muito bem. As fitas crepe têm ouvidos. Só não entendi o diálogo... parece que o candidato estava sendo assaltado via telefone, será que isso existe? Só ouvi uma voz dizendo para ele: "Mão na cabeça! Mão na cabeça!".

CF - É verdade que você é um objeto pesado?

FC - Calúnia! Pesada é a sua mãe, seu blogueiro comunista! Malho todo dia, só como brócoli com lentilha e vomito de manhã, de tarde e de noite. Pesada é a Dilma, isso sim! E a votação dela anda mais pesada ainda!

CF - Como você se sente após todo esse escândalo?

FC - Abandonada, meu filho. Depois que começaram a dizer essas mentiras (até de bolinha de papel me chamaram!), meus empregadores tucanos quase nem falam mais de mim. É uma injustiça! Não se deixa uma fita crepe abandonada pelo caminho: ela pode grudar no seu pé e aí vai dar uma complicação danada.

CF - Quais são seus planos para o futuro?

FC - Estou terminando minha autobiografia, que tem o título provisório de "Se colar, colou". Vou gravar um clipe em dueto com a Ana Carolina, cantando uma composição do Nando Reis, vai ser o hit mais grudento do mercado. E pretendo participar de "A Fazenda", gostei de aparecer na TV. Sabe, é como disse Andy Warhol: "O tuiuiu da celebridade só passa encilhado uma vez". Então, é melhor montar e sair voando!

CF - Andy Warhol disse isso?!?!?

FC - Sei lá! Se não disse, devia ter dito.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

As Dez Graças Tucanas

Um candidato com os olhos no futuro...

O Canal Fofão divulga, com exclusividade, As Dez Graças, o verdadeiro e revolucionário programa de governo de José Serra para o Brasil.


Foi difícil obtê-lo, já que, como vocês sabem, o ilustre candidato registrou no TSE, em vez de uma relação de propostas, o discurso que fez na convenção do PSDB. Compreensível: ele não gostaria de estragar a surpresa que nos preparou com tanto carinho. Coisa de quem se preocupa de verdade com o povo.

Porém, usando de paranormalidade, telepatia e macumba, conseguimos obter o programa, que divulgamos a seguir.

1 - Moralidade na gestão pública
Ao final do expediente, cada funcionário público será submetido a revista íntima, incluindo cavidades, para evitar que levem clipes e canetas para casa, dilapidando o patrimônio da nação. É o fim da roubalheira!

2 - Serviço público
Nada de indicações políticas! Trabalhará no governo só quem comprovar estudo e qualificação. Serão exigidos o diploma do Catecismo, Batistério, certificados de Primeira Comunhão e Crisma, atestado médico comprovando virgindade e declaração de recusa a ideologias exóticas.

3 - Qualidade de vida
Esquadros serão distribuídos gratuitamente, para que todas as famílias possam cortar o queijo bem retinho, evitando assim aqueles aleijões horrorosos que acabam com a estética da geladeira.

4 - Ensino superior
Nossas Universidades precisam chegar ao Primeiro Mundo! Por isso, Serra criará cotas de 80% das vagas para quem vá às aulas com sapatos Praga e bolsas Luiz Vomiton. Morda-se de inveja, Oxford!

5 - Qualificação profissional
O problema maior de nosso povo é a falta de educação. O revolucionário programa Socila Para Todos ensinará a patuleia a cumprimentar em francês, rir de boca fechada e reconhecer os talheres de peixe, para que não dêem vexame nas recepções em que trabalharem.

6 - Habitação
Será criado o programa Minha Casa de Praia, Minha Vida, pois a classe média precisa ter lazer e sossego para continuar a pensar o futuro do país. Aldeias de pescadores serão removidas para dar lugar aos condomínios fechados. Os peixes agradecem!

7 - Política externa
O Brasil retomará seu legítimo lugar nas discussões das questões mundiais: embaixo da mesa, prestando relevantes serviços às potências aliadas. Porém, se uma delas tentar nos humilhar, ouvirá a voz alta e retumbante de nosso presidente, dizendo: sim, Senhor!

8 - Juventude
Mais que um estado de espírito, a juventude é um direito de todos. Serra subsidiará a cirurgia plástica, o botox, a lipoaspiração e todos aqueles procedimentos com nomes em inglês. A comida que nos desculpe, mas beleza é fundamental.

9 - Liberdade religiosa
Todas as confissões religiosas terão total liberdade para vituperarem-se umas às outras, mudar a legislação civil a seu bel-prazer e para ameaçar com a danação eterna aqueles que votarem em candidatos pecadores.

10 - Transporte popular
Os pobres devem ter prioridade no transporte. O governo Serra se compromete, desde já, a transportá-los para qualquer lugar, desde que seja bem longe e que eles assinem um compromisso de não voltar aqui nunca mais.

É isso, minha gente! Com Serra no governo, o Brasil vai!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A vanguarda do regresso

Se deixar, eles voltam até lá...

Luis Nassif publicou recentemente um excelente texto sobre a onda de ódio que se está formando contra a candidatura Dilma e o PT. Trata-se de posicionamentos extremos, agressivos, hepáticos, que assustam quem os presencia e chegam até às crianças.


Interessante notar que este ódio parece estar concentrado em círculos de classe média. A burguesia propriamente dita prefere Serra, vota em Serra e pode até odiar Dilma com todas as forças, mas não demonstra este último aspecto, talvez por saber que nenhum resultado eleitoral ameaça seus privilégios a curto ou médio prazo.

Aqui embaixo, onde termina a classe média e começa a pobre, também convivo com um setor anti-petista, em geral cristão, mas que também se manifesta de forma comedida, quase tímida. O mesmo se pode dizer do voto anti-Dilma de origem machista.

Entretanto, o ódio de que fala o Nassif é real. Se você não o viu ao vivo, pode vê-lo facilmente na rede (sugiro os comentários de leitores no site do Estadão). Ele vem de um setor específico da classe média, aquele que jamais está satisfeito, sempre louco para subir e morrendo de medo de descer. Observe os meios que ele cita: escolas, "média-gerência" de empresas, funcionários de banco.

Este setor, como quase toda a sociedade (ainda que desigualmente), teve ampliadas no governo Lula suas oportunidades de emprego, negócios, investimentos, enfim, de incremento de renda. Porém, para eles, renda não é tudo. É preciso "distinguir-se". Não sendo ricos, aproximam-se destes e distanciam-se da massa pobre através de pequenos sinais de "distinção", como empregadas domésticas, educação universitária e viagens aéreas.

É esta "distinção" que começa a ir para o vinagre quando os pobres viajam de avião, quando os negros estudam Engenharia ou Medicina (História pode), quando as domésticas largam o emprego para vender marmitex. É isso que a classe média aristocrática não pode aguentar: sua indiferenciação em relação ao povo. É isto o que odeia no governo Lula/Dilma.

Este é, possivelmente, o único país em que o adjetivo "ordinário" é tido como ofensa, e "distinto" como elogio. Em que se cobra ingresso para pular carnaval na rua. Em que se pergunta a funcionários legitimamente constituídos pelo Estado se eles sabem com quem estão falando.

É assim desde a colônia, quando elementos livres pobres (brancos ou não) esforçavam-se para adquirir pelo menos um escravo - meio de sustento, em certos casos, mas também símbolo de poder. No império, as pequenas e médias elites esfaqueavam-se na disputa por migalhas de nobiliarquia. Mas vá lá: era inteligível, no código cultural da época. Não era, nem pretendia ser, uma sociedade de iguais.

O problema é que a sociedade brasileira insistiu em trazer a exclusão social para a modernidade. Vieram as figuras do "elevador social", da "boa aparência" (essa é grossa!), da "gente de bem". Mas tudo isso ficou politicamente incorreto. Então, nos anos 90, uma linda e nórdica colega de faculdade me "explicava" que não se trata de exclusão social, mas de "diferenças culturais", que impedem as pessoas de dividirem os mesmos espaços. Sei...

A vanguarda do ódio anti-Dilma se volta, na verdade, contra essa "ameaça" de indiferenciação. O discurso é cada vez mais violento, cada vez mais intolerante, à medida em que as décadas passam e o questionamento do status quo se intensifica. À medida em que as "médias elites" começam a se sentir em uma situação (verdadeira?) de Baile da Ilha Fiscal.

Nassif está certo: não se pode culpar a herança portuguesa. Outros países tiveram um passado semelhante e avançaram muito mais que nós na modernidade. O problema é que sempre foi mais fácil, no Brasil, costurar arranjos político-sociais por cima, o que acabou por petrificar certos privilégios (como comer, por exemplo).

Por isso é preciso derrotar Serra, o PSDB e seus robôs da internet. Já é mais do que um embate (real) de projetos: essa candidatura incorporou, de muito bom grado, as demandas de uma corrente que não pretende apenas impedir as mudanças (o que a faria meramente conservadora), mas também voltar ao passado (é, portanto, reacionária). A vitória de Dilma será mais um passo no lento esforço que Lula iniciou para erodir a desigualdade social.

Discordo, porém, de Nassif, quando chama de fascista o discurso da classe média enfurecida. Fascismos são, via de regra, movimentos de massa. Essa gente tem horror à massa.
Porém, é deste tipo de pensamento que o fascismo costuma se aproveitar para vir à tona.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Apelo emocionado à razão

Para não perder este sorriso.

Volto a este modesto blog no dia dos professores, que volta a ser meu depois de mês e meio substituindo meu orientador no curso de História da UFOP. Então, eu hoje queria pedir um presente. Sim, todos nós professores queremos salários mais altos, melhores condições de trabalho e desconto no preço da cerveja, mas eu vou pedir algo que mesmo o leitor mais humilde pode me dar.

O voto para a Dilma eu já pedi na postagem abaixo. Agora, queria pedir mesmo é que tomassem um certo caminho para decidir o voto.

Eu queria, de presente, uma atitude. Uma postura. Um posicionamento.

Uma decisão de não mais tratar o destino deste país como uma questão de simpatias pessoais, como se fosse um jogo de futebol. Ou como uma disputa entre quem fala mais bonito ou em mais idiomas. O último intelectual televisivo na presidência deu no que deu.

Uma postura de levar em conta não o gênero ou a religião de quem te pede o voto, mas suas trabalho, suas propostas, seus apoios. De perceber que uma das maiores forças deste país está em suas diversidades (religiosa, étnica, sexual e vai por aí afora), e de que ser religioso é viver a sua fé, e não impô-la àqueles que não a partilham com você.

Eu queria que refletissem sobre que país é mais adequado para vocês e para seus filhos (ou sobrinhos, ou afilhados, ou alunos): este, com trabalho, crescimento, distribuição de renda, ou aquele, com desemprego, recessão, aumento da miséria e da violência. Dos projetos que agora disputam o poder, qual fez mais pelo país?

Por mais que escreva emocionado, com vontade de chorar, já não sei se de raiva ou de perplexidade, peço de presente uma atitude racional e, por que não dizer, filosófica, no sentido de olhar além das aparências, de comparar o que você vê na televisão com sua realidade cotidiana.

Por mais que eu soe velho e um tanto óbvio, preciso que desconfiem das coisas que andam entrando em sua caixa de e-mail, em sua caixa de correio, em sua caixa postal. As mentiras só existem a partir do momento em que alguém se dispõe a acreditar nelas.

Pense comigo: se um estranho lhe parasse na rua e lhe dissesse que sua vizinha, candidata a síndica do seu prédio, mantém em seu apartamento o cadáver embalsamado do Nelson Ned e lhe sacrifica filhotinhos de bode, você acreditaria? Então, por que acreditar quando a informação é dada por e-mail?

(Hein?! O Nelson Ned não morreu? É sério? Ops... Foi mal aí, Ned.)

Acima de tudo, conclamo à recusa da velha máxima de que "todos são iguais". Esta é uma visão que sempre favorece os piores. Pode-se preferir um ou outro. Nenhum é celestial, nenhum é demoníaco, mas não são iguais. Se fossem, não seriam dois.

Perdão pelo texto espasmódico, de má qualidade, talvez até sem muito sentido, em pleno dia dos professores. É um desabafo, claro, é um pedido de socorro, sim, mas é também uma declaração de esperança. Recuso-me a acreditar que o meu povo irá decidir o seu futuro com base em fantasmas e em preconceitos. Prefiro crer que, em 2002 e 2006, superamos a adolescência histórica. Para sempre.

Professores somos todos nós, vocês sabem. Depende de nós a possibilidade de continuar ensinando e, sobretudo, aprendendo livremente em nosso país.

Um abraço,

Professor Fofão.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Yes, we também can!

Vejo torresmos deliciosos por baixo deste angu.

Os principais órgãos de imprensa anunciam com estardalhaço que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU rejeitaram o acordo mediado pelo Brasil entre Turquia e Irã para troca de combustível nuclear, e vão insistir em um projeto de sanções contra o país dos Aiatolás. Para o
Jornal da Globo, a terça-feira foi um "desastre" para a diplomacia brasileira.

É? Não acho. A diplomacia brasileira sabia o tempo todo que isto aconteceria. Seus objetivos, contudo, foram alcançados.


Reflitamos: por que raio de motivo nosso governo se empenharia em fechar um acordo difícil, sobre um tema dos mais delicados, com um dos países mais, digamos, excêntricos da comunidade internacional, que fica a não me lembro quantos milhares de quilômetros daqui? Para dar um recado, está claro.

Ninguém leva a sério essa conversa mole sobre o Irã estar construindo armas nucleares, certo? Então vamos falar de coisas sérias.


Lula está, há sete anos e meio, na linha de frente entre os que reivindicam mudanças profundas nos mecanismos de tomada de decisões internacionais. O Conselho de Segurança tem se mostrado caduco desde o fim da Guerra Fria, há coisa de 20 anos. A invasão do Iraque em 2003, quando os EUA passaram por cima do veto do conselho, foi tão somente a certidão de óbito que faltava.


A jogada de Luiz Inácio possui um significado simbólico gigantesco. Mostra a possibilidade de se encaminhar questões espinhosas sem a necessidade da mediação de cinco potências ansiosas por não perder o controle. Demonstra a urgência e a utilidade de uma redistribuição de poder na esfera internacional.

Por isso, o Conselho simplesmente não pode acatar o acordo. Seria assinar um (justo) atestado de obsolescência. Até a China, que gosta de enervar os americanos, desta vez comportou-se direitinho e rejeitou o arranjo. É uma questão de preservação de poder.


Isso, sem falar no fato de que, de uma forma ou de outra, não interessa aos países consumidores de petróleo fazer acordos com o Irã. Eles precisam dominá-lo (se necessário, como fizeram com o Iraque) para garantir mais suprimento de óleo barato. E esse negócio de urânio é uma ótima desculpa para isso (como o foram também as "armas de destruição em massa" de Saddam). Mas, se o assunto é óleo, o buraco é ainda mais embaixo.


O acordo sinaliza um "perigo" para a presente ordem mundial: um dos maiores fornecedores de petróleo da atualidade (Irã), sob mediação de um dos grandes do futuro próximo (Brasil), se aproxima de um terceiro (Turquia) meio fraco de produção, mas estratégico no transporte para o Ocidente do óleo que começa a jorrar no Cáucaso.

Lembremos que o "perigoso" Chávez, da petroleira Venezuela, tem ótimas relações com esse grupo, e que Lula não se cansa de cortejar Bolívia, Equador, Nigéria, Angola... Sentiram o "perigo"? O futuro da economia petrolífera passa por todos estes países. Uma articulação entre eles pode começar a tirar o recurso natural mais importante do mundo da esfera de controle do consórcio de consumidores para o de produtores.

A verdadeira importância do acordo fechado em Teerã no fim de semana está aí. Está na demonstração de que a política mundial no século XXI terá que pensar em muitos centros possíveis, em poderes complexos e fragmentados, em diferentes alternativas de organização econômica e política.


Lembrei-me do velho refrão do REM. Sei lá se esse é o fim do mundo tal qual o conhecemos. Mas que eu me sinto bem, podem ter certeza.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Para não dizer que não falei de fichas, ou... Caminhando para trás

Será esse o nosso problema?

Há algo que me incomoda em todo esse clamor pela aprovação do projeto de lei apelidado de "ficha limpa", que pretende impedir a candidatura a cargos eletivos de pessoas condenadas por órgãos colegiados da Justiça. É estranho, acima de tudo, que seja apresentado como um projeto em defesa da "cidadania".

Essa palavra vulgarizou-se a tal ponto que, raríssimas vezes, refletimos um pouco sobre seu significado.

Na acepção mais simples, "cidadania" significa o exercício de um conjunto de direitos e o cumprimento de um corpo de deveres, ambos partilhados por uma coletividade. Entre os direitos, está o de escolher e controlar seus governantes. Entre os deveres, está o de fazer esta escolha com responsabilidade.

Esta conceituação nos permite afirmar que o ficha limpa é contrário à cidadania, na medida em que supõe que Estado deva cumprir pelo cidadão o seu dever de responsabilidade na seleção dos candidatos. Verificar a "ficha" do candidato é uma obrigação do eleitor, não da Justiça Eleitoral. O projeto deseduca o eleitor e incentiva sua acomodação.

Poder-se-ia argumentar que uma tal legislação se faz necessária, uma vez que a maior parte do eleitorado é desinformada, pouco educada e disposta a trocar o voto por um chopes e dois pastel. Porém, este é um argumento elitista, autoritário, preguiçoso e ingênuo.

Elitista por supor que apenas os pobres elegem cobras, lagartos e outros répteis, e que os "bem informados" e "educados" (leiamos: ricos e aspirantes) fazem escolhas conscientes e consequentes.

Autoritário, porque disfarça (muito mal) uma ideia que muitos partilham e ninguém verbaliza: aquela segundo a qual o bom mesmo seria que "essa negrada" não tivesse direito a voto. Cidadania mesmo só para "nós", que somos gente de bem. Como isso ainda não é politicamente possível, o negócio é dirigir as escolhas da gentalha.

Preguiçoso na medida em que não pretende resolver nenhum verdadeiro problema, apenas contorná-lo. Se a maior parte da população é desinformada, cabe à maioria "informada" socializar essa condição. Cidadania não dá em árvore. É um processo lento, espiralado e interminável. O poder público, com honrosas exceções, não tem interesse em promovê-lo. A mídia, muito menos.

Cabe à própria sociedade se "cidadanizar" cada vez mais, não "ensinando" ao eleitor em quem ele deve votar ou não, e sim compartilhando informação e crítica, e permitindo que cada cabeça, individual e coletivamente, as processe. É difícil? Não. É extremamente difícil. A vida é assim. Problemas complexos não têm soluções simples.

O argumento é ainda ingênuo, ao supor que a eleição de corruptos, estelionatários, curandeiros e torturadores é fruto apenas de "inconsciência" ou "alienação". Não é, embora ambas de fato existam e sejam obstáculos graves para a cidadania. Isso, contudo, é assunto para uma postagem exclusiva. Redigi-la-emos em breve.

Ingênuo, também, é o próprio projeto "ficha limpa", que parece imaginar a profunda crise política em que vivemos como um problema meramente moral. Como se políticos de ficha limpa fossem, necessariamente, adeptos dos interesses do povo, do aprofundamento da democracia e da lisura no trato dos bens públicos.

Lembrete: Collor tinha a ficha limpa quando foi eleito Presidente. Voltou a tê-la antes de se eleger senador. Médici (formalmente "eleito"), que permitiu a institucionalização da tortura, a possuía imaculada. George W. Bush foi preso por dirigir embriagado nos anos 70, mas quando de sua eleição era ficha Omo. Ou seja: a ficha limpa não significa absolutamente nada.

É verdade que poderíamos pensar em aprimoramentos para a legislação eleitoral. Um deles seria acabar com a maldição do voto obrigatório, este sim, facilitador da eleição de embusteiros de variadas espécies, bem com da eterna fisiologia dos partidos brasileiros. Mas isso, curiosamente, parece não interessar a ninguém. Nem à direita, nem à esquerda, nem à mídia histérica.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Eduardo, Mônica e Santo Cristo

Leia a letra miúda

Só vi duas reportagens da Globo sobre os cinquenta anos de Brasília. A julgar por elas, estamos diante de mais um caso daqueles em que se finge não ver um elefante roxo dentro do quarto do bebê.

É comum, e até normal, que celebrações históricas privilegiem alguns aspectos em detrimento de outros. Já rendeu toneladas de artigos em teoria da história, que, no momento, não nos interessam. Mas, aqui, estamos falando de coisa muito mais grave: da completa exclusão de certos protagonistas, cuja presença turvaria o cenário.

As matérias, ambas introduzidas por acordes de "Eduardo e Mônica", do Legião Urbana, falam do céu azul, do respeito às leis de trânsito, da segurança, qualidade de vida... Neste registro "Brasília" significa o plano piloto, a arquitetura de Niemeyer, as famílias de pais funcionários públicos e filhos universitários, a cultura de classe média. Bacana.

"Eduardo e Mônica", como vocês sabem, é uma divertida narrativa de dois jovens que simbolizam a classe média oitentista: a intelectual alternativa e o playboy alienado. E de como eles se entendem, porque, no fundo, são duas bandas do mesmo tomate.

Ocorre que Brasília vai além disso.

Em volta desta idílica cidade moderna e sociável, estão os bolsões de pobreza, exclusão social, violência política e toda sorte de indignidade. São as "cidades-satélite", nome excelente, visto que abrigam também um povo satélite, que orbita em torno da capital, mas jamais pode tocá-la.

Falar desta Brasília exigiria outra trilha sonora, mas não outro compositor. Poderíamos ficar em Renato Russo, mas agora adotando "Faroeste Caboclo", a história do migrante nordestino João de Santo Cristo, que se torna trabalhador braçal em Taguatinga, traficante de drogas em Planaltina e acaba assassino e assassinado na Ceilândia.

Santo Cristo, como tantos, foi usado pela Brasília de sonhos, pelos boyzinhos viciados, pelos coronéis de dez estrelas. Foi espancado e estuprado pela polícia que protege a Brasília do Jornal Nacional. Mas só apareceu na TV na hora de morrer, quando "a via-crucis virou circo".

O mesmo acontece com os Santo Cristo da vida real, que também só são vistos na mídia quando matam-se um aos outros, neste curioso esporte em que a "negrada" decide quem é que vai fornecer cocaína para a jeunesse dorée do Planalto. Sua miséria, quando exibida, é um dado da natureza, imóvel no tempo, gerada espontaneamente, como se nada tivesse a ver com a "qualidade de vida" dos outros.

Ela tem sim. São Joões e Marias Santo Cristo que armam os palanques, limpam a bunda das crianças, varrem as ruas no dia seguinte. São eles que garantem a "paz", se necessário açoitando os rebeldes no tronco prendendo e espancando os inconvenientes. E, de quebra, ainda elegem (em troca de dentaduras) governantes para perpetuar sua exploração e a tranquilidade dos ricos (que juram não ter nada com isso). Mereciam ao menos ser lembrados.

Mas não pode. Eu entendo. Brasília é um Brasil pequeno, com uma geografia curiosa que deixa mais visível a trágica e criminosa exclusão. Exibir os excluídos como tal seria rasgar a fantasia. E fantasias, no "país do carnaval", são intocáveis.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Planos, direitos e verdades

Monumento Tortura Nunca Mais, Recife-PE


Há semanas que venho querendo postar um texto sobre toda a celeuma fabricada pela imprensa em torno do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Ocorre que não se pode escrever algo desse tipo de qualquer maneira. Então, ontem, topei com uma pequena crônica de Luis Fernando Verissimo sobre o assunto. Ela diz praticamente tudo o que eu penso a respeito, e com uma economia de palavras da qual não sou capaz. Segue.

Planos e direitos

Luis Fernando Verissimo

Só li do tal Programa Nacional de Direitos Humanos o que saiu, em fragmentos, nos jornais. Se entendi bem, o que eu duvido, este plano é uma versão revisada de um anterior, que por sua vez era uma revisão de um mais antigo. O que sugere que ou o novo plano altera radicalmente as propostas dos outros, ou o escândalo que se faz com ele é indefensável. Por que o escândalo, e só agora? Pelo que li, não são grandes as diferenças entre o terceiro plano e os dois anteriores, inclusive o que é dos tempos do Fernando Henrique. E não há discrepância entre suas propostas e o que está em discussão, hoje, no resto do mundo civilizado. Coisas como a descriminalização do aborto e o casamento de gays são debates modernos, mesmo que não impliquem mudanças imediatas. A proibição de símbolos religiosos em repartições públicas é consequência lógica do velho preceito da separação de igreja e Estado, que não deveria melindrar mais ninguém – pelo menos não neste século. A ideia de novos anteparos jurídicos para mediar os conflitos de terra é de uma alternativa sensata para a violência de lado a lado. E a obrigação de proteger os direitos e a integridade de qualquer um da prepotência do Estado e do excesso policial, alguém é humanamente contra?

***

O novo plano peca pela linguagem confusa e inadequada, em alguns casos. A preocupação com o monopólio da informação de grandes grupos jornalísticos, e com a qualidade da programação disponível, também é comum em todo o mundo. Muitos países têm leis e restrições para enfrentar a questão sem que configurem ameaças à liberdade de opinião e de expressão. E sem sugerir o controle de redações e o poder de censura que o tal plano – em passagens que devem ser imediatamente cortadas, e seus autores postos de castigo – parece sugerir.

***

Sobra a questão militar. Em nenhum fragmento do plano que li se fala em anular a anistia. O direito humano que se quer promover é o do Brasil de saber seu passado, é o direito da nação à memória que hoje lhe é sonegada. Só por uma grande falência da razão, por uma irrecuperável crise semântica, se poderia aceitar verdade como sinônimo de revanche.


Nota do blogueiro: para evitar confusões, é bom esclarecer que existe, e eu apoio, uma campanha pela não extensão da anistia a torturadores e assassinos que agiam em nome da ditadura militar nos anos 60 e 70. Mas o PNDH-3 nada tem a ver com ela.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Mensagem de um estadista


Eu e a minha mana

Como vocês já sabem, o governador das alterosas desistiu de ser candidato a presidente. Fê-lo através de uma carta muito bonita, endereçada a seu partido. Mas como vocês não têm um pingo de mineiridade ou espírito cívico, vão ficar com preguiça de lê-la na íntegra. Então, em mais um serviço de utilidade pública, o Canal Fofão resume e traduz a mensagem de nosso bravo líder montanhês para o vocabulário rastaquera de vocês. Segue:

"É o seguinte, cambada,

Bem que eu queria ser o candidato dessa peba de partido. Ia até disputar as prévias com o careca, mas parece que ele ficou com medo, ou então são vocês que têm medo de mim, sei lá. Então eu desisti já tem uns seis meses, mas a minha irmã disse pra só anunciar no final do ano, que é pra dar impacto.

Ia ser o bicho, porque eu ia juntar todo mundo na minha candidatura: Jesus, Belzebu, Maomé, Exu Caveira, Moisés... Até com aquele pé-rapado barbudo do Palácio do Planalto eu queria fazer acordo, mas parece que ele cismou de apoiar a gorda. Fazer o quê, né?...

O caso é que vocês, da direção, são muito burros. Ficam nessa aí de rivalizar com aquele partido despeitado, não sei para quê. Imagina eu ao lado do barbudo: não tem como perder. Depois, a gente podia governar sem oposição, que, aliás, é uma coisa ultrapassada: em oito anos na oposição, só ficamos enchendo o saco deles. No fundo, somos todos iguais...

RÁ RÁ RÁ!!! Não, não, agora sério, não somos, mas podemos ficar todos iguais. É só uma questão deles fazerem uma lipo básica e aprenderem a usar o garfo de sobremesa.


Então, é o seguinte: eu vou ser candidato a Senador, porque assim não preciso nem sair de casa. Esse povo daqui só sabe votar em mim, mesmo. E, se quiserem votar em outro, é só eu chamar a minha irmã para eles. Além disso, quanto mais notícias eu vejo do Senado, mais acho que tenho vocação para Senador!

Lá, eu poso de bacana de qualquer jeito: se der o Careca, eu viro o cara mais importante do governo. Se der a gorda, eu viro o cara mais importante do governo (querem apostar?). E, daqui a oito quatro anos, eu volto. Ô, se volto.

Boa sorte ao careca, mas, não conta pra ninguém, eu prefiro a gorda. Sai melhor nas fotos comigo.

Enfim: e agora, José?"

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O poste e suas luzes

E lá se vai a minha grana para
o esg... digo, para a Lagoa.


É chegar dezembro, e Belo Horizonte é tomada por duas forças incontroláveis: uma chuva que nos encharca até os ossos e a iluminação de Natal. E da chuva não adianta eu reclamar, pois não creio que os responsáveis por ela leiam meu blog.

É impressionante como a prefeitura desta cidade consegue fingir o tempo todo que está administrando Zurique. Vejam vocês no Uai que esse ano vão gastar R$ 180 mil em luzinhas coloridas. Até um anjo vão botar na Lagoa da Pampulha (coitado do anjo...). Alguém dirá que, de um prefeito poste, só se pode esperar mesmo iluminação. Mas, falando francamente...

Eu ia dizer que não se deve desperdiçar dinheiro público com decoração de época. Ia sugerir que o prefeito selecione 36 escolas municipais, dê R$ 5 mil para cada uma e espere para ver se vão gastar com luzes de Natal. Também ia lembrar que o mundo inteiro está tentando economizar energia, enquanto o poste nos dá esse ótimo exemplo. Mas isso tudo vocês já perceberam, com toda certeza. O que mais me incomoda são duas outras coisas.

Em primeiro lugar, meus amigos, esse negócio de luzinha de natal é a coisa mais baranga da face da Terra! A cidade fica parecendo Las Vegas. No mau sentido. Quem duvida, que preste atenção na Praça da Liberdade quando passar lá à noite. Dá vontade de chegar para uma daquelas árvores e perguntar quanto é o programa.

Em segundo lugar, isso tudo é uma grande hipocrisia. Peço licença para contar uma historinha.

Há alguns anos, um dono de bar na minha rua (não era o Zé Maria não, hein?!) queria que todos contribuíssemos para a compra dessas luzinhas malditas, que decorariam a praça onde ficava o bar. Evidentemente, nos recusamos. E um de nós (não posso dizer que foi o Zebrão) colocou a coisa em pratos limpos:

- Você rouba da gente na conta, transa com mulher dos outros, vive de trambique o ano inteiro e agora me vem com essa de espírito natalino? Vá...

E mandou o dono do bar a um lugar que eu não vou escrever aqui, porque estamos em época de Natal.

É mais ou menos a mesma coisa, só que em escala municipal. Atravessamos fora da faixa, estacionamos em cima da mesma, fechamos os cruzamentos, fazemos barulho muito além do suportável, vandalizamos orelhões, roubamos tampas de bueiro, vibramos quando a polícia mata um menor de rua e agora vamos todos nos emocionar com luzinhas coloridas? Ah, vão... (não vou dizer para onde devem ir, porque é Natal).

(Lembro-me, ainda, que o digno dono do bar, naquela ocasião, comprou um desses cordões de luzinhas por sua conta e risco e jogou em cima de uma árvore na praça. Não sei se foi de propósito - deve ter sido -, mas a coisa ficou com a exata forma de um peito. É, um peito de mulher. Naquele ano, tivemos uma bonita teta de Natal.)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Danou-se

Imagem publicada no cartoonstock

Amigo meu, trabalhador em educação, passa por um momento de reestruturação profissional. Querem ensiná-lo (a ele e a um tantão de gente) a metodologia dos telecursos. Eu pensei que iam treiná-lo em interpretação, maquiagem, dicção, empostação e tal, para ele trabalhar na TV.


Ignorância minha.


O caso é que estão transformando professores da rede pública em ligadores/desligadores do aparelho de DVD. Como se sabe, professores da TV são bem melhores que os de carne e osso, pois não reclamam do salário, não faltam para levar filho ao hospital e não dizem nada que não pudesse ser dito na TV.


Mas o melhor, o que demonstra nosso avanço retilíneo e uniforme em matéria de metodologia de ensino, é o programa do curso. Saquem só:


Módulo 1:
Agindo como idiota

Consiste em construir o conhecimento através de piadas cretinas (como se sabe, piadas boas são consideradas impróprias ao ambiente escolar) e a trazer sempre na face um sorriso de plástico, qualquer que seja a situação. Demonstra o respeito do professor pela inteligência do aluno (ou pela sua própria, conforme o caso).



Módulo 2
Mediocridade para principiantes

Tenha opiniões sempre moderadas, a menos que o assunto seja polêmico: neste caso, não tenha opinião alguma. Ouça Ana Carolina. Veja o Big Brother e torça pelo mais bonzinho. Ponha catchup na pizza. Enfim, para que dissenso e diversidade na escola? Só para encher o saco.



Módulo 3
Praticando a obviedade

O módulo contém alguns bordões que podem ser usados em qualquer ocasião, visto que, de tão utilizados, já não querem dizer mais nada:
"Só não erra quem não faz."

"Deus ajuda a quem cedo madruga."

"O essencial é invisível aos olhos."

"Eu adoro a Ana Carolina."
"Dinheiro não traz felicidade."



Coffee-break (antigo "lanche")
Oriente-se pelo olfato e use os cotovelos para abrir caminho até a mesa. Seja esperto, senão só sobra leite e pão de forma para você. Não se iluda: em breve essas habilidades serão importantes na carreira.



Módulo 4
Puxando tapetes rumo ao topo

Eu não disse?



Módulo 5
Comodismo como estratégia

OK, o salário é ruim, os ventiladores não funcionam, ninguém limpa o banheiro dos professores e aquela loirinha linda que ensina Geografia anda saindo com um playboy motorizado. Mas o verdadeiro educador não se deixa abater pelas dificuldades (e, pelo visto, também não deve fazer nada contra elas)! Importante é curtir o lado bom das coisas: hoje, por exemplo, tem merenda especial (cachorro quente com ki-suco).



Módulo 6
Contra números não há argumentos

Sim, você já trabalha com seus alunos há quatro anos e nós nunca vimos um deles, nem mesmo de longe, e não sabemos com o que se parecem. E daí? Tudo vai dar certo. Acredite, nossa fórmula é infalível e universal, serve para qualquer aluno. Os números não mentem, e nossos números melhoram a cada ano. Entendeu? Não? E daí? Quem se importa? Comporte-se direitinho que, no final do ano, a Fundação sorteia um ingresso pro show da Ana Carolina.



Nota de esclarecimento:

Esta é uma postagem de ficção.

Qualquer semelhança com telecursos vivos ou mortos é viagem das suas ideias.

O blogueiro nunca assistiu um telecurso, pois não pratica a insanidade de acordar naquele horário para ver televisão.

Nenhum professor de verdade foi ferido durante esta postagem.

sábado, 24 de outubro de 2009

Genuíno e os torrents

Genuíno foi um grande jogador de futebol dos anos 50, quando defendeu o Vasco e (ninguém é perfeito...) o Cruzeiro. Depois de encerrar a carreira profissional, foi ser caminhoneiro e jogar pelo amador Bela Vista, em Sete Lagoas, sua cidade natal.

Na época, já existia essa mania de "frases de parachoque", e Genuíno não poderia deixar por menos. Colocou lá, em letras bem grandes:

"EU QUERO É ROSETAR!"

Foi um escândalo para a tradicional família setelagoana. O problema é que ninguém queria falar com Genuíno, porque ele era muito querido na cidade (e também porque, dizem, era meio esquentado...). Foram falar com o delegado, que chamou o Genuíno e, com muito jeito, explicou que aquilo não podia ser, que pegava mal para ele mesmo, etc. etc. O craque compreendeu o doutor, pediu desculpas e prometeu que, já no dia seguinte, trocaria a frase.

Genuíno era um cara genuíno mesmo, não era homem de duas palavras. Na manhã do outro dia, eram outros os dizeres que toda Sete Lagoas podia ler em seu parachoque:

"CONTINUO QUERENDO!"

Não encontrei registro dessa história, mas ela deve ser verdadeira, pois quem me contou foi meu pai, e o velho nunca mentia. Aliás, ninguém mente em Inhaúma, terra natal dele. Lá, não compensa: a cidade é minúscula, todo mundo vê tudo e sabe o que é verdade e o que não é. Para vocês terem uma ideia, Inhaúma é tão pequena que as pessoas de lá migram para Sete Lagoas (!) em busca de mais oportunidades (!!).

Mas vamos ao que interessa, antes que a cidade natal do meu pai me declare persona non grata.

No momento em que a justiça holandesa manda o pirate bay deletar arquivos de torrent, através dos quais se faz downloads de filmes, músicas, softwares etc., e que o mininova enfrenta um processo semelhante, a história de Genuíno é ilustrativa. Na vida, roseta-se, basicamente, por dois motivos: porque queremos e porque há pessoas dispostas a rosetar conosco. Havendo estas duas condições, é impossível impedir que rosetemos. Mesmo se a pessoa for presa, ela rosetará sozinha. Basta continuar querendo.

Compartilhamento de arquivos é, a seu modo, uma modalidade de rosetagem. Queremos cultura sem ter que pagar por ela, há muita gente disposta a nos fornecer, e os meios abundam. Vamos continuar compartilhando. Eles fecham os sites, a gente troca torrents diretamente. Eles banem os torrents, a gente posta no e-mule. Eles dinamitam o e-mule, a gente inventa outro jeito. É irreversível. A era de pagar por conteúdo acabou.

Não é roubar. Roubar é tirar milhões de cópias e explorar milhares de camelôs para vendê-las. Porém, cobrar R$ 15 por um ingresso de cinema ou R$ 50 por um DVD também é roubar. Ou seja, os piratas têm direito a cem anos de perdão.

Nós humildes compartilhadores, disponibilizamos gratuitamente alguns títulos (no meu caso, todos fora de catálogo) e baixamos outros em troca.

Quanto aos sites, não hospedam nada além de caminhos. Imagine que algum noiado vire para você na rua e peça, desesperado, para você indicar onde ele pode comprar cocaína. Você não tem cocaína, mas sabe onde fica a boca de fumo e informa ao cara. Ele vai lá, compra e cheira. No outro dia, a polícia vem e te prende por tráfico de entorpecentes.

É justo? Pois é isso que estão fazendo com os sites. Com uma diferença: filmes e músicas só fazem bem à saúde. Ao contrário da cocaína, não geram violência, não matam de overdose e não elegem deputados para protegê-los.

Por falar em deputados, e em Sete Lagoas, lembrei-me do Senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), cuja família é setelagoana de origem. O nobre parlamentar é aquele que, ainda insiste em policiar a rede e criminalizar o compartilhamento de conteúdo. Mais uma coisa para se lembrar no ano que vem, na hora de digitar números na maquininha.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Só a pedidos


O deputado federal Osório Adriano (DEM-DF) apresentou substitutivo ao projeto de lei que proibia a publicidade direcionada a crianças. Basicamente, acabou com a proposta. Uma pena, porque era uma maneira de tornar mais difícil que empresas filhas da puta inescrupulosas ensinem consumismo aos pequenos desde o berço. Os detalhes estão na
Folha de S. Paulo, reproduzida pelo Portal Aprendiz, do Gilberto Dimenstein.

Não surpreende, já que o deputado é dono de uma revenda da Coca-Cola, revenda esta que contribui gorda e generosamente para suas campanhas (ou seja, ele contribui consigo mesmo, usando o dinheiro que ganha vendendo cáries engarrafadas).

O que não dá para engolir é o cinismo do "cidadão". Vai concorrer a "cocoroca do ano" com o Marquezelli. Saquem só:


"Só as pessoas que não me conhecem para falar que tenho interesse no tema. Minha empresa não vende Coca-Cola nas escolas. A não ser que tenha pedidos".


Uai, e no boteco, ele vende sem que haja pedidos? Encosta o caminhão e despeja o estoque na cabeça do dono?
Seria oportuno informá-lo de que traficantes também não vendem cocaína sem que haja pedidos. Não tocam a campainha na casa de socialites entediadas ou de políticos playboys para oferecer o produto. Tem que fazer um pedido. Nem que seja via motorista.

Só mais uma coisa: o projeto que o ilustre parlamentar destruiu não tem nada a ver com proibir a venda de refris, coxinhas e outras deliciosas porcarias nas escolas. A proposta que proíbe essa sacanagem impropriedade é outra.
E, por sinal, também está sendo avacalhada.

Se, como parece, o deputado veio falar de vender coca (cola) nas escolas sem ser perguntado a respeito, deve ser porque a carapuça serviu. Ou então porque já está tramando a destruição deste projeto também.


Não creio que alguém me leia no Distrito Federal. Mas não custa lembrar aos brasilienses: ano que vem, esse simpático senhor vai pedir o seu voto.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Homenagem aos que pensam por nós


Nosso país vive um momento esplendoroso em termos de comentaristas de política e economia. Finalmente estamos livres dessa chatice de pensar, pois agora já temos quem nos ensine que opinião ter e em quem votar. Em homenagem a esta casta brilhante, o Canal Fofão traz um quem é quem do mundo daqueles sortudos que são pagos para dar palpites.

Mirtes Porcão


Mirtes é uma economista especialista em ressalvas (como: "a economia está se recuperando, mas o chato é que a produção de queijos em Caratinga ainda enfrenta sérios obstáculos") e em comparações (do tipo "se o governo quer defender o presidente deposto de Honduras, também deveria participar do baile de debutantes do Clube Alvorada, em Caratinga"). Ela acredita que é uma desconsideração da parte do governo (qualquer governo) fazer coisas que ela não recomenda e que dão certo assim mesmo. Mirtes afirma que o pré-sal irá render muitos recursos, mas que o governo, mais uma vez, irá gastá-los em besteiras, como hospitais, escolas e privadas.

Lucy Hipótese


Lucy é o tipo da comentarista de política que veio ao mundo com a missão
de anunciar o apocalipse iminente. Já foi historiadora, mas se desencantou com um passado que só teve dois bombardeios nucleares e uma meia dúzia de genocídios. Melhor é o futuro: mais um escândalo no Congresso resultará em seu fechamento, e em 143 anos de uma ditadura sindicalista comandada por VSQ (vocês sabem quem...). Enquanto isso, a política externa do governo poderá resultar numa guerra de extermínio contra Trinidad y Tobago, Sri Lanka e Leblon. Lucy já tem impresso seu novo livro, "Eu bem que avisei!!!". Só está esperando que alguma hecatombe finalmente aconteça, para que possa lançá-lo.

Boris Carloff


Ex-militante da TFP (joga no Google), da Ação Integralista (idem) e do CCC (pois é...), Boris hoje se abriga na Sociedade de Preservação do Bolinho de Chuva Original. Usa cuecas três números abaixo do seu, para ficar com a cara sempre bem brava. Em sua opinião, ministros de Estado devem fazer voto de castidade. Indigna-se com a corrupção, com a criminalidade, com o terrorismo, com a mini-saia, com o chiclete, com entrevistados desobedientes, com o fato de a Globo nunca ter se interessado por ele, com a Ana Carolina (tá, com esta eu também me indigno), com a arte moderna e com toda esta pouca vergonha que anda por aí.

Merdal Peneira


Dono de raciocínio brilhante, tornou-se expert em deduções lógicas. Se vê um menino entrando em uma sorveteria, deduz que ele vai assaltá-la. Se o menino apenas compra sorvete e vai embora, Merdal acha uma safadeza: ele não deveria ter criado na sociedade a expectativa do assalto. Merdal é assim mesmo: acha que "a sociedade" tem na cabeça o mesmo que ele tem no nome e na cabeça. Ficou famoso ao prever que Obama ganharia, que Rubinho perderia e que Luana Piovani não é mais virgem. Pretende, em breve, lançar um serviço telefônico de "hora errada": você liga para saber que horas não são.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sobre o trabalho e o ócio

O deputado acha que 40 horas disso é pouco

Está em discussão no Congresso a PEC 231/95, que prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas, sem reduzir o salário, e o aumento 50% para 75% na remuneração adicional da hora-extra.

Trabalhadores (nós) se movimentam a favor, e patrões (eles, o lado de lá, o Moon-Ra) contra, estes apoiados pela grande imprensa acostumada a lamber-lhes as botas. Nós dizemos que a medida vai aumentar a empregabilidade, enquanto eles afirmam que não, que só vai aumentar os custos da mão-de-obra. Pois é. Estão no papel (escroto) deles.

O que não é aceitável são argumentos como o do digníssimo deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP), contrário à emenda, que transcrevo da Agência Brasil:

“Eles [trabalhadores] dizem que vão para o lazer, mas eu digo que vão para o boteco, para o jogo. O mal está em ele gastar o tempo com o que quiser. A ociosidade não remunera, é ruim”

A respeito disto, algumas considerações:

1 - O mal está em gastar o voto com deputados assim. Marquezelli entra com tudo na disputa pelo título de cocoroca do ano.

2 - Quem te ensinou que o trabalho enobrece e dignifica o homem (e a mulher), mentiu. Pode ter sido de boa fé, mas mentiu. O trabalho empobrece, emburrece, enlouquece e sacrifica o homem. A gente trabalha porque não tem outro jeito.

3 - Ter um emprego moralmente gratificante e socialmente útil (como o meu) é um atenuante da opressão do trabalho, e não muda a essência da coisa.

4 - Ter um emprego quando não se necessita do salário (ah, eu lá...) não é trabalho, é hobby, coisa muito diferente.

5 - Nas últimas décadas, as novas tecnologias multiplicaram muitas vezes a produtividade do trabalho, sem que a jornada diminuísse ou o salário aumentasse. Ou seja, só os patrões se beneficiaram. É hora de sobrar umas migalhas para a gente.

6 - Depois do expediente, o tempo é MEU. Se eu quiser ir à igreja, ao bar, à faculdade ou visitar algumas amigas aqui na mesma rua onde trabalho, é problema (ou solução?) meu. A ociosidade não é para remunerar, é para fazer a sobrevivência se parecer com a vida, por uns parcos momentos.

7 - Seria interessante que o deputado tornasse público quantas horas ele trabalha por semana, e o que exatamente produz durante esse período. O que faz com seu tempo livre não me interessa.

8 - Sugiro que todo mundo mande cartas, e-mails ou sinais de fumaça ao deputado e ao senador em quem votou, pressionando-o a votar a favor (ou contra, se você for contra) da emenda. Se seu candidato perdeu ou se você não se lembra em quem votou, não importa, finja que votou em alguém que está lá e pressione assim mesmo. Reclamar do Congresso sentado no sofá é muito fácil.