Mayara, quem te transformou nessa pessoa que você virou?
Não, não estou falando de uma monstrenga racista e genocida (você pode até ser isso, mas como vou saber?), refiro-me à facilidade com que repete propostas de assassinar pessoas por afogamento (ops, perdão. Segundo você, não são pessoas, certo?), com a mesma tranquilidade de quem convida para o show do Black Eyed Peas.
Lendo sobre você nos jornais, permiti-me tirar algumas conclusões. Você é estudante e estagiária de Direito em São Paulo, certo? Deduzo, então, que deve ter entre 21 e 23 anos, e que sua faculdade, seja pública ou privada, deve ser de qualidade, no mínimo, razoável (escritórios com algum zelo não aceitam estagiários de faculdades furreca). Para entrar nesta faculdade, você deve ter estudado em boas escolas (particulares, suponho) no passado.
Então, o que leva uma jovem da sua idade, bem
Seus professores não te ensinaram isso, certo, Mayara? Hein, Mayara? Responde aí, moça, para eu não desconfiar dos meus colegas... Não, não foram eles. Professores fascistas não se expõem para alunos, são covardes por natureza. Do seu caso, são inocentes.
Pode falar, minha jovem. Não vai acontecer mais nada além da perda do estágio, um tapinha na mão para o que se considera uma travessura. Tem gente no Ministério Público que acha que você merecia um castigo mais severo, talvez umas palmadas, mas isso é só até o caso sumir da imprensa. De mais a mais, palmadas estão proibidas, como você sabe.
Quem foi, Mayara? Você não tirou isso da sua própria cabeça, nem vem. Não passou a odiar nordestinos por causa do porteiro do seu prédio, seu Isaías (Geraldo? Severino?), que sempre te ajuda a tirar as compras do táxi, certo? Também não foi por causa daquelas moças de uniforme que levam os bassês para passear, foi? Bassês ainda estão na moda?
Será que você odeia mesmo alguém? Quem, os nordestinos? O Lula? A Dilma? Mas a Dilma é mineira, como eu, e gaúcha por adoção. O que você sente é ódio ou frustração?
Você afogaria o seu Tobias (Ednaldo? Virgulino?), Mayara?
Talvez você não odiasse ninguém se lesse os jornais e percebesse que o resultado das eleições seria o mesmo sem o Nordeste e o Norte. Talvez não precisasse nem disso, bastasse uma sondagem na sua turma de faculdade, no prédio em que você mora... Os que pensam diferente de você estariam ali mesmo, ainda que em minoria. Ah, Mayara, quanta complicação por causa da desinformação!
Mayara, tente ouvir a experiência de um professor gordo e não muito branco que outro dia mesmo era jovem. Com a sua idade e sua condição social, é hora de curtir a vida ao máximo. De conhecer muita gente e muitos lugares diferentes, pois nunca mais a disposição física, a curiosidade e a tolerância com eventuais desconfortos ou companhias heterodoxas serão tão grandes. Também é a hora de transar muito, pelos mesmíssimos motivos!
Quem sabe você não aprende mais sobre as pessoas que pretende afogar?
Política, nessa fase da vida, só deve ser feita se for com muita alegria, entrega e leveza. Depois dos trinta, você nunca mais conseguirá fazê-la por puro prazer. Aproveite agora, se você gosta de política.
Mas estou perdendo o foco: onde foi, Mayara, que você aprendeu estas coisas tão feias que escreveu no Facebook e no Twitter? O que você fez não tem conserto, mas pode ter compensação: onde fica o... o... (ovo da serpente? Ninho do abutre? Não, sacanagem com os bichinhos!)
Você não sabe, não é? Não se lembra. Tem a sensação de que sempre pensou desse jeito. Todo fascismo é assim: suas origens são tão frágeis que, se forem expostas, a gente destrói com um sopro. Em parte - em parte, repito - não é culpa sua.
Tudo bem, Mayara. Quer dizer, tudo mal, mal demais, mas pelo menos o seu papelão, mesmo sem as merecidas palmadas, nos presta um serviço. Sua explosão de ódio sócio-regional (não foi só sua, mas, sabe como é, antiguidade é posto), associada à inundação de ódio religioso dos últimos 30 ou 40 dias, nos mostra que ganhar as eleições é fácil e banal, perto dos desafios mais sérios.
Depois de todo esse escândalo, você não é mais uma ameaça, Mayara, se é que foi algum dia. Mas quantas Mayaras permanecem em stand by nos twitters e nas novenas da vida?

Um comentário:
Mauro,
a primeira vez que fui ao Estado de São Paulo, quando também era jovem (18 anos) e tentava fazer tudo aquilo que você recomendou à Mayara, um paulista veio “tirar onda” com os mineiros que tinham invadido sua praia (Bertioga, para ser mais preciso). Falou, em tom de brincadeira (será?), que “para cima de São Paulo era tudo Paraíba e que para baixo era tudo Paraguai”. Nunca me esqueci desta frase, mistura de arrogancia e preconceito, dissimulada em brincadeira. Fiquei puto por não ter respondido à altura ao camarada. Fiquei puto por lembrar que, às vezes, também falo em “baianadas” e conto piadas sobre a agilidade dos baianos em fazer qualquer coisa. Bem, o fato é que sentimentos prepotentes e preconceituosos de um grupo social são um prato cheio para manipulações fascistas e, se não tomarmos cuidado, o que era para ser brincadeira, passa a ser uma coisa muito séria. Belo texto meu caro!
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