Os principais órgãos de imprensa anunciam com estardalhaço que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU rejeitaram o acordo mediado pelo Brasil entre Turquia e Irã para troca de combustível nuclear, e vão insistir em um projeto de sanções contra o país dos Aiatolás. Para o Jornal da Globo, a terça-feira foi um "desastre" para a diplomacia brasileira.
É? Não acho. A diplomacia brasileira sabia o tempo todo que isto aconteceria. Seus objetivos, contudo, foram alcançados.
Reflitamos: por que raio de motivo nosso governo se empenharia em fechar um acordo difícil, sobre um tema dos mais delicados, com um dos países mais, digamos, excêntricos da comunidade internacional, que fica a não me lembro quantos milhares de quilômetros daqui? Para dar um recado, está claro.
Ninguém leva a sério essa conversa mole sobre o Irã estar construindo armas nucleares, certo? Então vamos falar de coisas sérias.
Lula está, há sete anos e meio, na linha de frente entre os que reivindicam mudanças profundas nos mecanismos de tomada de decisões internacionais. O Conselho de Segurança tem se mostrado caduco desde o fim da Guerra Fria, há coisa de 20 anos. A invasão do Iraque em 2003, quando os EUA passaram por cima do veto do conselho, foi tão somente a certidão de óbito que faltava.
A jogada de Luiz Inácio possui um significado simbólico gigantesco. Mostra a possibilidade de se encaminhar questões espinhosas sem a necessidade da mediação de cinco potências ansiosas por não perder o controle. Demonstra a urgência e a utilidade de uma redistribuição de poder na esfera internacional.
Por isso, o Conselho simplesmente não pode acatar o acordo. Seria assinar um (justo) atestado de obsolescência. Até a China, que gosta de enervar os americanos, desta vez comportou-se direitinho e rejeitou o arranjo. É uma questão de preservação de poder.
Isso, sem falar no fato de que, de uma forma ou de outra, não interessa aos países consumidores de petróleo fazer acordos com o Irã. Eles precisam dominá-lo (se necessário, como fizeram com o Iraque) para garantir mais suprimento de óleo barato. E esse negócio de urânio é uma ótima desculpa para isso (como o foram também as "armas de destruição em massa" de Saddam). Mas, se o assunto é óleo, o buraco é ainda mais embaixo.
O acordo sinaliza um "perigo" para a presente ordem mundial: um dos maiores fornecedores de petróleo da atualidade (Irã), sob mediação de um dos grandes do futuro próximo (Brasil), se aproxima de um terceiro (Turquia) meio fraco de produção, mas estratégico no transporte para o Ocidente do óleo que começa a jorrar no Cáucaso.
Lembremos que o "perigoso" Chávez, da petroleira Venezuela, tem ótimas relações com esse grupo, e que Lula não se cansa de cortejar Bolívia, Equador, Nigéria, Angola... Sentiram o "perigo"? O futuro da economia petrolífera passa por todos estes países. Uma articulação entre eles pode começar a tirar o recurso natural mais importante do mundo da esfera de controle do consórcio de consumidores para o de produtores.
A verdadeira importância do acordo fechado em Teerã no fim de semana está aí. Está na demonstração de que a política mundial no século XXI terá que pensar em muitos centros possíveis, em poderes complexos e fragmentados, em diferentes alternativas de organização econômica e política.
Lembrei-me do velho refrão do REM. Sei lá se esse é o fim do mundo tal qual o conhecemos. Mas que eu me sinto bem, podem ter certeza.

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