Genuíno foi um grande jogador de futebol dos anos 50, quando defendeu o Vasco e (ninguém é perfeito...) o Cruzeiro. Depois de encerrar a carreira profissional, foi ser caminhoneiro e jogar pelo amador Bela Vista, em Sete Lagoas, sua cidade natal.Na época, já existia essa mania de "frases de parachoque", e Genuíno não poderia deixar por menos. Colocou lá, em letras bem grandes:
"EU QUERO É ROSETAR!"
Foi um escândalo para a tradicional família setelagoana. O problema é que ninguém queria falar com Genuíno, porque ele era muito querido na cidade (e também porque, dizem, era meio esquentado...). Foram falar com o delegado, que chamou o Genuíno e, com muito jeito, explicou que aquilo não podia ser, que pegava mal para ele mesmo, etc. etc. O craque compreendeu o doutor, pediu desculpas e prometeu que, já no dia seguinte, trocaria a frase.
Genuíno era um cara genuíno mesmo, não era homem de duas palavras. Na manhã do outro dia, eram outros os dizeres que toda Sete Lagoas podia ler em seu parachoque:
"CONTINUO QUERENDO!"
Não encontrei registro dessa história, mas ela deve ser verdadeira, pois quem me contou foi meu pai, e o velho nunca mentia. Aliás, ninguém mente em Inhaúma, terra natal dele. Lá, não compensa: a cidade é minúscula, todo mundo vê tudo e sabe o que é verdade e o que não é. Para vocês terem uma ideia, Inhaúma é tão pequena que as pessoas de lá migram para Sete Lagoas (!) em busca de mais oportunidades (!!).
Mas vamos ao que interessa, antes que a cidade natal do meu pai me declare persona non grata.
No momento em que a justiça holandesa manda o pirate bay deletar arquivos de torrent, através dos quais se faz downloads de filmes, músicas, softwares etc., e que o mininova enfrenta um processo semelhante, a história de Genuíno é ilustrativa. Na vida, roseta-se, basicamente, por dois motivos: porque queremos e porque há pessoas dispostas a rosetar conosco. Havendo estas duas condições, é impossível impedir que rosetemos. Mesmo se a pessoa for presa, ela rosetará sozinha. Basta continuar querendo.
Compartilhamento de arquivos é, a seu modo, uma modalidade de rosetagem. Queremos cultura sem ter que pagar por ela, há muita gente disposta a nos fornecer, e os meios abundam. Vamos continuar compartilhando. Eles fecham os sites, a gente troca torrents diretamente. Eles banem os torrents, a gente posta no e-mule. Eles dinamitam o e-mule, a gente inventa outro jeito. É irreversível. A era de pagar por conteúdo acabou.
Não é roubar. Roubar é tirar milhões de cópias e explorar milhares de camelôs para vendê-las. Porém, cobrar R$ 15 por um ingresso de cinema ou R$ 50 por um DVD também é roubar. Ou seja, os piratas têm direito a cem anos de perdão.
Nós humildes compartilhadores, disponibilizamos gratuitamente alguns títulos (no meu caso, todos fora de catálogo) e baixamos outros em troca.
Quanto aos sites, não hospedam nada além de caminhos. Imagine que algum noiado vire para você na rua e peça, desesperado, para você indicar onde ele pode comprar cocaína. Você não tem cocaína, mas sabe onde fica a boca de fumo e informa ao cara. Ele vai lá, compra e cheira. No outro dia, a polícia vem e te prende por tráfico de entorpecentes.
É justo? Pois é isso que estão fazendo com os sites. Com uma diferença: filmes e músicas só fazem bem à saúde. Ao contrário da cocaína, não geram violência, não matam de overdose e não elegem deputados para protegê-los.
Por falar em deputados, e em Sete Lagoas, lembrei-me do Senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), cuja família é setelagoana de origem. O nobre parlamentar é aquele que, ainda insiste em policiar a rede e criminalizar o compartilhamento de conteúdo. Mais uma coisa para se lembrar no ano que vem, na hora de digitar números na maquininha.
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