quarta-feira, 21 de abril de 2010

Eduardo, Mônica e Santo Cristo

Leia a letra miúda

Só vi duas reportagens da Globo sobre os cinquenta anos de Brasília. A julgar por elas, estamos diante de mais um caso daqueles em que se finge não ver um elefante roxo dentro do quarto do bebê.

É comum, e até normal, que celebrações históricas privilegiem alguns aspectos em detrimento de outros. Já rendeu toneladas de artigos em teoria da história, que, no momento, não nos interessam. Mas, aqui, estamos falando de coisa muito mais grave: da completa exclusão de certos protagonistas, cuja presença turvaria o cenário.

As matérias, ambas introduzidas por acordes de "Eduardo e Mônica", do Legião Urbana, falam do céu azul, do respeito às leis de trânsito, da segurança, qualidade de vida... Neste registro "Brasília" significa o plano piloto, a arquitetura de Niemeyer, as famílias de pais funcionários públicos e filhos universitários, a cultura de classe média. Bacana.

"Eduardo e Mônica", como vocês sabem, é uma divertida narrativa de dois jovens que simbolizam a classe média oitentista: a intelectual alternativa e o playboy alienado. E de como eles se entendem, porque, no fundo, são duas bandas do mesmo tomate.

Ocorre que Brasília vai além disso.

Em volta desta idílica cidade moderna e sociável, estão os bolsões de pobreza, exclusão social, violência política e toda sorte de indignidade. São as "cidades-satélite", nome excelente, visto que abrigam também um povo satélite, que orbita em torno da capital, mas jamais pode tocá-la.

Falar desta Brasília exigiria outra trilha sonora, mas não outro compositor. Poderíamos ficar em Renato Russo, mas agora adotando "Faroeste Caboclo", a história do migrante nordestino João de Santo Cristo, que se torna trabalhador braçal em Taguatinga, traficante de drogas em Planaltina e acaba assassino e assassinado na Ceilândia.

Santo Cristo, como tantos, foi usado pela Brasília de sonhos, pelos boyzinhos viciados, pelos coronéis de dez estrelas. Foi espancado e estuprado pela polícia que protege a Brasília do Jornal Nacional. Mas só apareceu na TV na hora de morrer, quando "a via-crucis virou circo".

O mesmo acontece com os Santo Cristo da vida real, que também só são vistos na mídia quando matam-se um aos outros, neste curioso esporte em que a "negrada" decide quem é que vai fornecer cocaína para a jeunesse dorée do Planalto. Sua miséria, quando exibida, é um dado da natureza, imóvel no tempo, gerada espontaneamente, como se nada tivesse a ver com a "qualidade de vida" dos outros.

Ela tem sim. São Joões e Marias Santo Cristo que armam os palanques, limpam a bunda das crianças, varrem as ruas no dia seguinte. São eles que garantem a "paz", se necessário açoitando os rebeldes no tronco prendendo e espancando os inconvenientes. E, de quebra, ainda elegem (em troca de dentaduras) governantes para perpetuar sua exploração e a tranquilidade dos ricos (que juram não ter nada com isso). Mereciam ao menos ser lembrados.

Mas não pode. Eu entendo. Brasília é um Brasil pequeno, com uma geografia curiosa que deixa mais visível a trágica e criminosa exclusão. Exibir os excluídos como tal seria rasgar a fantasia. E fantasias, no "país do carnaval", são intocáveis.

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