quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Em defesa do Halloween
Chega o dia das bruxas. Chegam junto as campanhas contra a comemoração da data no Brasil. Supostamente, tal celebração seria contrária à preservação de "nossas tradições". Por isso proliferam banners no Facebook mandando as bruxas para aquele lugar e fazendo apologia do Saci. O ódio ao Jack-O-Lantern é ainda maior no tocante a escolas públicas, pois o "dinheiro público" não poderia ser gasto para "glorificar" "tradições estrangeiras".
O raciocínio é tão primitivo que, em condições normais de temperatura e pressão, não precisaria ser rebatido. Porém, vários amigos meus, gente séria e inteligente, embarca na canoa. Provavelmente, em virtude do apelo nacionalista da campanha "anti-Halloween" (nós, de esquerda, costumamos adorar qualquer coisa "nacional", por mais internacionalistas que sejamos. Mas isso é outra história). Por esta razão, decidi tecer algumas considerações.
1 - Celebrar o Halloween não impede ninguém de valorizar o Saci, a Cuca, o Curupira ou a Loura do Bonfim. Da mesma forma que comer hamburguer hoje não nos impde de saborear uma feijoada amanhã. No século passado, trabalhei em escolas públicas que celebravam o "folclore nacional" em agosto e voltavam a ele em outubro/novembro, quando era estudado em conjunto as tradições anglo-saxãs do Halloween. Isso dá às crianças um gostinho de multiculturalismo e perspectiva histórica, o que vem bem a calhar nos dias de hoje.
2 - Festa junina tem origem estrangeira. Carnaval tem origem estrangeira. Dia das mães também. Natal, é melhor nem mencionar. "Ah, mas estas festas têm uma roupagem nacional", diz-me um amigo. Verdade. Elas estão aqui há séculos (menos a das mães, que é tão consumista aqui quanto em qualquer lugar). O Halloween chegou há menos de 30 anos. Ele também terá essa "roupagem", se pararmos de implicar com ele.
3 - A ideia de que existe uma "cultura nacional" pura, isolada, que precisa ser protegida de "perniciosas influências estrangeiras" não resiste a um sopro de neném. Cultura é vivência e elaboração humana, e os homens (e mulheres) vivem e elaboram sua vida de maneiras que tendem muito mais a se aproximar do que a se distanciar. No fim das contas, as culturas se fazem através de diferentes combinações dos mesmos elementos. Fabricar divisões "nós x eles" não é só eticamente questionável, mas também intelectualmente equivocado.
4 - As nações existem, é claro, mas não podemos perder de vista seu caráter de construção historicamente determinada. O nacionalismo é bom quando atento a esta concretude, e terrivelmente pernicioso quando ganha uma dimensão idealizada, de "ser nacional", "caráter nacional", "brasilidade" e outras bobagens.
5 - É, no mínimo, contraditório vetar o Halloween nas escolas públicas e colocar os alunos para ver filmes da Disney quando falta algum professor. O tal do "imperialismo" existe, sim, inclusive na modalidade cultural, mas não é tentando isolar a "cultura nacional" que vamos combatê-lo, e sim ensinando a valorizar essa cultura ao lado e em convivência com as demais.
E tenho dito, que o dever me chama.
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4 comentários:
Concordo plenamente e acrescento:
1) Campanha nacionalista no "feicibuque" não é meio paradoxo? Mas vão dizer que o facebook já se abrasileirou...
2 e mais importante) Halloween é lega pra caramba!
Abraço,
Pois é. Ninguém reclama do show do Red Hot Chilli Peppers (muito menos eu, que adoro RHCP), mas Halooween não pode...
Hum..... Ok! Gostei do texto e dos argumentos. O ítem 4 me pareceu forçação de barra por não entrou na conversa.
O filme da Disney, da Paramount ou da Vera Cruz, se contextualizado vale.
Então o que tem que ser criticado é "colocar filme quando falta professor".
Agora, se a política de tolerância cultural se baseia em fazer festinha de outros povos, fazer o quê?
Porém, o argumento "xeque-mate" para mim foi a questão de ser esquerda (e logo nacionalista)e ao mesmo tempo o marxismo (fato!) ser internacionalista.
E durma com um barulho desses.. Mas gostei de ter gerado isso! Obrigado! :)
Cê é o Otto, né? Seguinte, escrevi uma resposta, mas o Google, esse intolerante, deu pau e apagou tudo. Depois escrevo de novo.
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