quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Guerrilha e terrorismo: novo fenômeno bélico?


Variados acontecimentos dos últimos quinze anos, como a guerra civil na ex-Iugoslávia, o recrudescimento do fundamentalismo islâmico, a luta pela independência da Chechênia, têm levado diversos analistas, acadêmicos ou não, a falarem em uma nova realidade militar, ou em um novo fenômeno bélico. Este seria marcado pelo progressivo abandono da guerra convencional, regida por leis internacionais, e pela adoção de expedientes os mais diversos, abrigados sob as alcunhas “guerrilha” e “terrorismo”.

Este texto não procura esgotar o assunto. Seu objetivo é apenas refletir sobre a historicidade desse objeto e sugerir caminhos que possam levar a uma análise mais profunda do contexto atual. A inquietação que nos provoca é: até que ponto a realidade em questão representa uma novidade na história?

Trabalhar contemporaneamente os temas da guerrilha e do terrorismo é inviável sem uma prévia problematização histórica e política dos dois termos, bem como da multiplicidade de usos que se verifica para ambos.

Num sentido estritamente militar, o termo “guerrilha” poderia ser definido como uma tática caracterizada pela ação de pequenos grupos que contam com o elemento surpresa e grande agilidade no ataque e na evasão. A guerrilha costuma contar com o apoio de parte da população da região onde atua, o que facilita seu abastecimento e camuflagem.
Ora, essa forma de luta foi (e é) utilizada nos mais diversos contextos militares ao longo da história. Inclusive, nada impede um exército regular de, numa determinada situação de combate, valer-se de técnicas de guerrilha. Não é, pois, nesse sentido técnico que a guerrilha se constitui em um “novo fenômeno bélico”.

Ocorre que por exigir, se comparada à guerra “regular”, menos recursos materiais e humanos, a guerrilha se tornou (principalmente a partir da resistência à ocupação nazista em países como Itália, França e Iugoslávia) uma forma de luta preferencial para grupos que intentam promover uma resistência e/ou ofensiva de caráter militar, mas não têm como se constituir em exército. Por isso, encontraremos a guerrilha a desempenhar papel preponderante em contextos como a descolonização africana, as revoluções cubana e nicaragüense e o trágico combate travado pela esquerda latino-americana contra as ditaduras militares do continente, sobretudo nos anos 60 e 70.

Esse fato faz com que a imagem corrente da guerrilha se associe se associe à de uma luta de “oprimidos” contra os “opressores”, sendo este último um termo vago que pode designar um ocupante (nazistas), um colonizador (europeus na África), uma ditadura militar ou civil (Cuba, El Salvador) ou mesmo oligarquias econômicas (como as combatidas pelo EZLN no México).

Em tese, isso explicaria o enorme glamour em torno da figura do guerrilheiro e da própria guerrilha que podemos verificar na cultura política (sobretudo de esquerda) ocidental. O fato de estar associada a causas, digamos, “simpáticas” somou-se à construção de uma mitologia em torno de figuras históricas como Che Guevara ou os vietcongs, que exagerava o papel da guerrilha nas vitórias obtidas em tais contextos (na prática, a guerrilha, isoladamente, tem gigantescas dificuldades para a obtenção de vitórias militares completas, em virtude da quase completa impossibilidade de ocupar território de forma permanente).

Eficazes ou não, movimentos guerrilheiros alastraram-se por todo o terceiro mundo no último terço do século XX, levando as forças armadas dos países onde atuavam a se especializar em combatê-los, com conseqüências que serão abordadas adiante.

Se é relativamente fácil definir e localizar historicamente a guerrilha, o mesmo não se dá com o termo “terrorismo”, carregado de significados ideológicos e propagandísticos. Talvez possamos chamar de terroristas movimentos que buscam a concretização de objetivos político-sociais através da imposição do terror, ou seja, do recurso sistemático à morte violenta como forma de intimidação. Enquadram-se aí o IRA, a Al-Qaeda, os militares linha-dura brasileiros no início dos anos 80, e congêneres.

Deve-se chamar a atenção para algo freqüentemente esquecido: o terrorismo é, muitas vezes, uma estratégia adotada pelo Estado. Toda vez que se consegue a adesão ou a conformidade da população através medo provocado pela disseminação de execuções, seqüestros e tortura, configura-se o que se convencionou chamar de “terrorismo de Estado”.

Provisoriamente, então, poderíamos até mesmo conseguir distinguir guerrilha de terrorismo, de duas formas, ambas associadas à utilização da violência.

Em relação à função desempenhada pelo uso da violência, pode-se dizer que, na guerrilha, ele é o meio concreto da realização do seu objetivo. Visa a debilitar o inimigo e acumular meios de se produzir mais violência (armas, dinheiro, carros etc.), até que este inimigo possa ser enfrentado abertamente. Assim, a violência da guerrilha tornar-se-á mais forte e/ou mais eficiente que a violência de seu inimigo, terminando por vencê-lo.

No fenômeno terrorista, a violência desempenharia, em princípio, uma função muito mais “pedagógica”: ela serve para demonstrar o que acontece quando meu projeto social não se concretiza, ou quando minhas reivindicações não são atendidas. O terrorismo não planeja um enfrentamento aberto do inimigo; pretende, antes, dobra-lo pela intimidação.

No que diz respeito aos alvos da violência, podemos dizer que a guerrilha os limita ao inimigo e seus “associados”. O alvo preferencial são as forças armadas inimigas, funcionários governamentais, executivos de empresas consideradas “imperialistas”, diplomatas estrangeiros etc. Mesmo quando civis, seus alvos são considerados militares, uma vez que se envolvem, direta ou indiretamente, no objeto da luta. De uma forma ou outra, a violência da guerrilha não pode ser indiscriminada e se voltar contra a população, pois o apoio desta é fundamental à concretização de seus objetivos.

O terrorismo pode até selecionar seus alvos, mas não possui esta necessidade. O que ele precisa é demonstrar sua capacidade de rotinizar a morte violenta. Sendo assim, uma ação como os atentados de 11 de setembro possui inestimável valor para um agrupamento terrorista, enquanto para uma organização guerrilheira ela apenas geraria antipatia pela causa, despenderia recursos, denunciaria sua posição e atrairia a potência do inimigo.

Funcional para uma observação à distância, a distinção acima apresenta limites claros uma vez que aprofundemos o olhar analítico. O primeiro deles é óbvio: movimentos políticos não respeitam tipificações acadêmicas. Por isso, é comum encontrarmos elementos de guerrilha ao lado de caracteres terroristas em inúmeros contextos, o que dificulta sua classificação.
Um bom exemplo, atualmente em evidência, é o Hizbollah. Nascido no início dos anos 80 como resistência de caráter terrorista contra a ocupação israelense no sul do Líbano, o movimento expandiu seu programa (que passou a contemplar a inclusão política e econômica da população xiita do país) e multiplicou suas formas de ação (tornando-se inclusive um partido legal, com representação parlamentar e participação no governo), sem abdicar dos métodos terroristas. Nenhum dos dois rótulos em análise serve para compreendê-lo.

O segundo limite é mais complexo. Ao longo das últimas décadas, o termo “terrorismo” acumulou uma inegável carga negativa, enquanto “guerrilha”, que já foi extremamente simpático, mantém ainda um travo positivo. Tornou-se, assim, comum atribuir a pecha de “terrorista” a movimentos de oposição, sejam eles terroristas ou não.

As guerrilhas da América Latina sempre foram chamadas de “terroristas”, não só pelos governos da região como também pelo dos Estados Unidos. Dessa forma, dissemina-se uma imagem negativa do movimento e, em muitos casos, legitima-se sua repressão a qualquer custo.

E assim chegamos à consideração da questão do “novo fenômeno bélico”. Afinal, eles não são novos, e a guerrilha sequer experimenta uma fase de expansão. Novo é o nível a que o combate a estes movimentos parece ter chegado.

É antiga a convicção de que estratégias militares convencionais são inadequadas para se combater movimentos desse tipo. Vejamos um caso típico: no Brasil, na região do Araguaia, no início dos anos 70, um grupo de 69 guerrilheiros comunistas mal armados só foi vencido numa terceira expedição, quando as forças armadas se valeram de tropas especializadas em contraguerrilha, à paisana e capazes de disseminar o terror entre a população para evitar que ela apoiasse os guerrilheiros. Praticamente todos os prisioneiros foram executados e tiveram seus cadáveres destruídos, pois acreditava-se que a presença de elementos de esquerda na região permitiria a revivescência do “foco”.

Este é, para nós, o novo fenômeno bélico, se é que podemos chamá-lo assim. Após o 11 de setembro, o Congresso americano sancionou os Patriot Acts, que submetem os direitos civis à consideração de especialistas em segurança: o cidadão deixa de possuí-los se for considerado suspeito pelos órgãos de informação. Prisioneiros são levados para a base de Guantánamo, onde não valem as leis norte-americanas (e lei alguma, enfim). E o que dizer da política de atirar para matar em suspeitos por parte da polícia britânica?

Colocado frente a frente com movimentos de altíssimo potencial destrutivo, o Estado ocidental se vê impotente. Busca, por isso, legitimar e legalizar a barbárie que, em tese, ele teria nascido para impedir. Se no Araguaia brasileiro o Exército usou roupas civis e codinomes, e depois procurou destruir qualquer evidência, no Iraque ocupado o processo chegou a ser fotografado e legalizado.

Trata-se de uma encruzilhada para a democracia liberal do Ocidente. Não faz muito tempo, apregoou-se o “fim da história”, determinado pela vitória final desta forma política e da economia de mercado como os únicos mecanismos capazes de trazer liberdade, segurança e prosperidade ao cidadão. 

Agora, a forma como se lida com a guerrilha e o terrorismo poderá ser um indicativo mais real de sua solidez e estabilidade: dependerá de sua capacidade de garantir a segurança sem sacrificar a liberdade.

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