quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Filhinhos de papai? E daí?

Charge de Sinfrônio

Imaginem, por uns breves instantes, que este blogueiro é seu professor (uma autoridade, portanto). Imaginem, também, que nesta classe, formada por meus doze leitores, vocês tenham se habituado a levar tapões nas orelhas por qualquer motivo, ou até sem motivo, aplicados por seu professor.

Eis que, em dado momento, um aluno ou aluna (a Wandinha, muito provavelmente), resolve se erguer e dizer: "Chega! Não aceito mais levar tapões, e vou avisando que o próximo será revidado". O que vocês, os outros onze alunos, fariam? Apoiariam a colega? Ou a recriminariam, por se rebelar contra o tratamento desumano que vocês aceitam tão mansamente? Vocês diriam que a Wandinha está se colocando à margem da classe, acima da classe ou algo assim?

Já deve ter dado para perceber que o que motiva esse texto é a polêmica que opõe a PM de São Paulo a um grupo de estudantes da USP. Mas o que eu penso sobre esta questão, em si, está sintetizado em vários textos que têm sido publicados, como este aqui.

Para além, das questões, muito válidas, colocadas nesta e em outras intervenções, eu queria convidar vocês a refletir sobre as Polícias Militares e nossas relações com elas.

Esqueçam, por hora, os meninos e meninas da USP. E nós, como deveríamos nos portar? Deveríamos aceitar as "gerais" arbitrárias? As detenções "para averiguação", totalmente ilegais? Eu, pessoalmente, já tive apontadas para mim submetralhadoras (em um protesto) e revólveres (em um boteco), sem que tivesse violado qualquer lei. Eu engoli em seco e me calei, nas duas vezes. Então, eu é que estou certo?

Indo direto ao ponto: as polícias militares foram criadas, no Brasil, pela ditadura implantada em 1964, a partir de uns entulhos autoritários que o Estado Novo (1930-1945) tinha deixado. Até a Wikipedia sabe disso. Ela sabe também que, no mundo quase inteiro, esse termo, "polícia militar", se refere a organizações militares que atuam dentro das Forças Armadas (como a Polícia do Exército, no Brasil). Aqui, ao contrário, as PMs são as tropas que o Estado utiliza para combater a sociedade que o institui.

Sim, verifiquem em um bom dicionário a definição de "militar". Militares existem para fazer a guerra. Como a PM não combate exércitos estrangeiros, ela só pode servir para combater a nós. E cumpre muito "bem" tal atribuição.

Foi assim, durante a mesma ditadura a que nos referimos acima, quando as PM emprestaram alguns de seus talentos à máquina de matar gente construída pelas Forças Armadas, os terríveis DOI-Codi. Um exemplo? Aqui. Foi assim nos choques que reprimiam as greves de pedreiros, metalúrgicos e professoras nos final dos anos 1970. É assim hoje, quando o incensado Bope carioca invade favelas atirando primeiro e perguntando depois.

E vamos deixar para outro texto os casos de criminalidade pura e nada simples, como as milícias do Rio ou os esquadrões da morte de São Paulo.

Na USP, além de dar geral em estudantes na porta da biblioteca às dez horas da manhã, a PM invadiu centros acadêmicos sem mandado judicial, supostamente à procura de drogas. É assim. Antes era o comunismo. Agora são as drogas. Lembrando que já não há sanção legal ao consumo de maconha.

Ninguém aqui pretende apedrejar o policial militar, um trabalhador mal preparado e mal pago que é posto na rua para defender interesses que não os seus. Falamos da instituição que promove abusos de autoridade continuados, que aceitamos por necessidade ou por tibieza. Mas aceitamos.

Polícias Militares são coisa de Estados que têm medo de seus povos, de suas sociedades. Coisa de governantes que vêm o povo como inimigo.

Os meninos e meninas da USP podem ser filhinhos(as) de papai, como quer a Veja (não, eu não linko a Veja, virem-se). Pode haver, entre eles, maconheiros que fumam no "horário de trabalho", como quer o professor (!) e filósofo (!!!) Roberto Romano, da Unicamp, que parece acreditar que "estudante é para estudar" e foi escalado agora pela mídia burguesa para dar um verniz acadêmico ao reacionarismo de sempre. Mas, eu dizia, os meninos e meninas da USP podem ser mimados, podiam interromper a ocupação para entrar em seus carros de 50 mil e tomar banho na casa da mamãe. Se a Veja e o Romano dizem, quem sou eu para contestar?

Ocorre que o principal papel de uma Universidade, pelo menos na minha humilde opinião de quem já frequentou quatro campi diferentes, é identificar questões relevantes na sociedade, discutir e apontar caminhos. Inclusive caminhos que nos pareçam, a princípio inusitados. Que nos pareçam, a princípio, "regalias", como quer a tão bela Monica Waldvogel.

Não levar geral arbitrária é regalia?

Creio que não. Creio, sim, que os meninos e meninas da USP, ainda que meio sem querer, ainda que de forma confusa e atabalhoada, além de incompleta, estão chamando nossa atenção e abrindo nossos olhos, meio que à força, para o Estado policial sob o qual vivemos. Do jeito deles, recuperaram o legítimo papel da Universidade, que andava muito esquecido.

Agora, deixem eu voltar a estudar, antes que o Roberto Romano me acuse de estar escrevendo blog em horário de trabalho.

2 comentários:

Wanda Rodrigues disse...

De novo: na veia!

Pode usar meu nome à vontade, não precisa pedir autorização, viu?

Abraços e saudades.

Wandinha

patto disse...

Ê Wandinha...fazendo bagunça na sala de aula né?! Desse jeito vou ter que chamar seus pais no colégio...Tsc,tsc,tsc...