quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A história em migalhas



Quando mudei minha assinatura da Net para digital, há uns dois anos, um dos motivos foi a presença, na nova grade, de dois canais de história, o The History Channel (82) e o Discovery Civilization (86). Eu os conhecia somente por ouvir falar, e imaginava que ambos trouxessem uma seleção de documentários sobre história, uns melhores, outros piores, uns mais sérios e científicos, outros mais "espetaculares", por assim dizer.

O grande problema é o que os "sérios e científicos", se ainda existem, estão em séria desvantagem. Predomina uma visão de história como aventura, exotismo e espetáculo que, se tem o mérito de atrair um público que normalmente não se interessaria pelo tema (não? Tenho minhas dúvidas), por outro lado distorce questões importantes como a pesquisa histórica, o trabalho do historiador e até mesmo o objeto da história enquanto conhecimento científico.

A programação do History é um verdadeiro saco de gatos. Há uma quantidade enorme de programas sobre perseguição a monstros (!), encontros alienígenas e experiências místicas. Se se tratasse da relação das pessoas com esse tipo de crença, vá lá, teríamos um objeto propriamente histórico. Mas ontem mesmo havia um "especialista" dizendo que a existência do Pé Grande (!!) é plausível... Isso quando a coisa não descamba para programas de astronomia, tratando da formação dos planetas, da lua, do sol, tudo sob o rótulo de "história".

Note-se que há programas divertidos na grade, como o "Sabores Americanos", que trata da evolução da dieta yankee ao longo do século XX, ou algumas interessantes narrativas de batalhas da Segunda Guerra. Mas se aproveitassem para abordar, por exemplo, hábitos de consumo em relação com a publicidade, ou o choque entre as lógicas política e militar numa situação de guerra, não deixariam de ser divertidos, e tornar-se-iam bem mais aproveitáveis historicamente.

O canal costumava exibir longas de boa qualidade, como "A Queda", mas isto está se tornando uma raridade.

Já o Discovery Civilization possui uma programação mais propriamente histórica. Porém, há obsessão por certos temas, e a abordagem encheria de orgulho os mestres da escola metódica: grandes homens, grandes obras, grandes guerras. A chamada "egiptologia" ocupa quase metade da grade. E, pior ainda, daquele jeito: é autópsia de múmia, faraó esquecido, pirâmide misteriosa que não acaba mais. A impressão é de que no Egito só havia faraó e pirâmide.

Outras vezes, recorre-se ao velho recurso da fofoca histórica: rainhas que envenenam maridos, amantes que influenciam reis, filhos bastardos de grandes homens e vai por aí afora, como se fosse uma novela de época.

Na França (eu sei que não somos a França, mas não custa olhar o exemplo), dos anos 80 para cá, houve uma grande popularização da história, inclusive na TV. Não vi os programas, mas li que eles se voltavam para a história do cotidiano e da cultura, despertando no público o desejo de conhecer suas raízes, e não a pulsão fácil pelo exótico/alcoviteiro.

Será que os programadores destes dois canais supõem que o público daqui não consome produtos mais refinados? Se sim, supõem com base em quê? Ou será que a opção é por não investir em programação diferente, uma vez que é mais fácil servir o mesmo enlatado oferecido ao público americano?

Um comentário:

Anônimo disse...

Ooooh, Fofão, achei vc muito radical... eu adoro o History Channel. Do outro não posso falar, não sou assídua. Vou prestar mais atenção, mas não me lembro dessa programação "Além da Imaginação" toda no HC não...