Falar mal de Galvão Bueno é um risco de chover no molhado: é difícil que ele ainda tenha algum defeito novo para nos oferecer. Por outro lado, ele conseguiu "fazer parte" da vida da maior parte da população, como naquela época de macarronada/Sílvio Santos aos domingos (ou chocolate/diarréia na Páscoa). Pode não ser lá essas coisas, mas a gente se acostuma, e alguns sentem até falta. Seus críticos mais ácidos costumam ser seus telespectadores assíduos.
Por isso, mais que detonar Galvão, é preciso entendê-lo. Usualmente, tiro o som da TV e ouço a prova no rádio (Band News ou CBN, ambas são boas). Mas hoje vamos encarar a transmissão da Globo com paciência (o sofrimento tempera o caráter) e um mínimo de boa vontade antropológica.
(Gordo escornado assistindo à corrida)
Eita! Com 68 voltas de tédio e 3 de pauleira, Galvão mal teve tempo para mostrar sua "arte". Mas o que foi possível observar em sua atuação?
- A audiência tem que ser preparada para engoli-lo. Reparem: no futebol de domingo, ele é precedido pelo Faustão. No das quartas, pela novela. E no GP de hoje, apelaram: "Pequenos Espiões 3D" (Fala sério... e não me venham com aquela desculpa de que "é para crianças". Crianças não nascem idiotas, somos nós que as estupidificamos com filmes como esse). Ou seja: antes de Galvão, há sempre algo para anestesiar o cérebro, principalmente no que diz respeito ao senso crítico e à vergonha na cara.
- Galvão passa a sensação (falsa) de saber o que diz. Tem dois especialistas a seu lado (tanto no futebol como na F1), e contraria sistematicamente o que eles dizem. Ora, se você não entende patavina de Física e me vir discutindo o assunto com Einstein, vai achar que eu sou tão bom quanto ele. E, se entende de Física, vai tentar ver o telecurso em outro canal, porém descobrirá que a Globo comprou a exclusividade...
- Galvão alimenta nosso complexo de Golden Retriever. Sim, o complexo de vira latas diagnosticado por Nelson Rodrigues há uns cinqüenta anos é coisa do passado. Trocamos a liberdade faminta dos cães de rua pelas coleiras antipulga do consumismo globalizado (praticado ou desejado).
- Galvão propaga um nacionalismo chauvinista, cabotino, reacionário, individualista, francamente ignorante e inteiramente avesso ao convívio entre diferentes, o que não é novidade para ninguém. A questão é: isso vem ao encontro da mentalidade que predomina largamente em nosso arremedo de sociedade. Como vocês já perceberam em outros posts, não acredito em um público inocente, consumidor passivo do que a mídia impõe.
- As pessoas, em sua grande maioria, gostam de emoções (por quê, meu Deus, por quê?). Posam de duronas e racionais, mas curtem mesmo é um melodrama. Se a corrida (ou o jogo) não provê emoções, como hoje até pouco antes do final, Galvão é um expert em tirá-las da cartola: o possível fim de carreira do Rubinho, a família de Massa comemorando o título e depois caindo na real (RÁRÁRÁRÁRÁRÁ), expressões que não querem dizer absolutamente nada, como "força de campeão"...
Enfim, Galvão, como se sabe, é odioso. Mas Daniel Dantas e César Maia, por exemplo, também são, e duvido muito que fariam sucesso nas tardes de domingo. O maior mérito de Galvão está em ter sabido captar o que há de bobo, infantil e acrítico em nós, e em ter transformado isso em um grande sucesso de mídia.

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