quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Clint, Mandela e...
Estreia amanhã no Brasil "Invictus", de Clint Eastwood. Se não está no mesmo nível dos melhores filmes do diretor, como "Os Imperdoáveis" ou "Gran Torino", por outro lado está muito longe de ser uma decepção. Veja o trailer.
O tema, como vocês já devem saber, é a África do Sul logo após a eleição de Nelson Mandela (vivido um tanto burocraticamente por Morgan Freeman). Lá, o apartheid chegou também aos esportes: o rugby era praticado e acompanhado basicamente por brancos, enquanto os negros sempre preferiram o futebol.
Mandela sabia que precisava de um mínimo de aceitação entre a minoria branca para poder governar. Uma das táticas que utilizou para atrair este público foi a valorização da seleção nacional de rugby, cujos símbolos, cores e nomes ele decidiu proteger, mesmo sabendo serem eles associados ao apartheid. Além disso, colou sua imagem à do capitão do time, François Pienaar (Matt Damon, nota 6, como sempre) e fez com que a seleção se aproximasse da maioria negra. A Copa do Mundo de 1995, disputada no país, viria a selar esta precária unidade.
Não se trata de magnanimidade, e sim da mais básica racionalidade política. A certa altura do filme, a assistente pessoal de Mandela o questiona por negligenciar compromissos importantes para atender aos interesses esportivos de "uma minoria". Sem perder a calma, ele responde que esta minoria controla o exército, a polícia e a economia. Logo...
Eastwood, porém, sabe que cinema é dinheiro (pelo menos, o americano) e que o público de cinema (não só o americano) não costuma pagar para ver filmes sobre cálculo político. Assim, embrulha toda essa racionalidade em um discurso extremamente emocional (quase piegas) sobre paz e reconciliação, além de ceder o espaço de praxe aos dramas pessoais e familiares do protagonista. Excelente para as moçoilas que amam sair da sessão enxugando os olhos.
Ocorre que isso não compromete o filme e, pensando bem, Mandela, em público, sempre preferiu falar sobre paz e reconciliação do que dar aulas de racionalidade política. Assim, de uma forma curiosa, o discurso emotivo torna "Invictus" mais realista, não menos. De qualquer forma, o diretor parece ter aprendido com Mandela ao seguir o pragmático caminho de tentar agradar a todos os públicos.
Impossível, do lado de cá do Atlântico, não comparar a atuação do líder sul-africano com o governo igualmente conciliador de Lula, sem falar em suas metáforas futebolísticas e na prioridade (absolutamente questionável) dada à conquista do direito de sediar grandes eventos esportivos.
Outros paralelos também seriam possíveis. Lá, como cá, temos governantes que (inevitavelmente, talvez) decepcionaram alguns antigos correligionários. Aqui, como lá, temos governos de líderes populares visceralmente odiados por elites que se julgam de sangue melhor e se acham donas do mundo. Mas esses já seriam assuntos para um texto à parte.
Restaria, ainda assim, a tentação de sugerir a Clint (se algum vizinho dele lê esse blog, faça-me esse favor) realizar um filme sobre o Luiz Inácio. Assim como "Invictus", poderia ser meio brega, desde que fosse realista.
Como é? Já fizeram um? Ah, sim, fiquei sabendo. Mas esse eu não vi. E não gostei.
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