
Está em tramitação no Congresso um projeto de lei que altera a sistemática do direito dos estudantes à meia-entrada em cinemas, teatros etc. Propõe a limitação a 40% da lotação de cada espetáculo e a criação de um Conselho Fiscalizador que, por sua vez, emitirá uma Carteira de Identidade Estudantil. A polêmica já se iniciou. Compreensivelmente, a UNE já se posicionou contra, e os artistas mais atuantes e organizados, a favor. A verdade é que o projeto tem pontos fortes e fracos. O que não se pode é fingir que está tudo bem.
Criou-se no país uma indústria da carteirinha, graças à MP de 2001 que permitiu que qualquer boteco com nome de escola emitisse o documento. Quase todo mundo, estudante ou não, passou a "pagar meia", ilusoriamente. Evidente que os empresários do ramo logo começaram a chamar o preço da entrada inteira de "meia". Quanto aos incautos, como esse blogueiro, que já saíram da escola e não costumam usar documentação falsa, passaram simplesmente a pagar "dupla entrada". Dirá o meu amigo Zebrão que, no meu caso, isso se deve ao tamanho da minha bunda. Mas ninguém pediu a opinião do Zebrão.
Falemos de cinema (ao teatro eu só vou quando o Sete de Setembro é campeão, e ao estádio só volto quando a cerveja voltar também. Shows? Isso é pra quem gosta de som, luz e gente, e eu detesto os três). Aqui em BH, nas salas que acredito serem as mais concorridas (shoppings Cidade, Del Rey, BH e Diamond), a inteira num fim de semana à noite custa R$ 14. Some a isso duas passagens de ônibus (R$ 4,20), beba água do bebedouro e leve um biscoito de casa. O valor total é de R$ 18,20, ou 9 dólares, ou 4,4% do salário mínimo.
O custo é irreal. Pelo mesmo valor o cara toma seis cervejas no Bar do Zé Maria (sete, se aceitar Kaiser), e com o troco come uma batatinha no palito e fuma um cigarro. Depois ninguém entende porque o povo prefere cachaça à cultura. Já escrevi aqui que nos anos 80, quando os cinemas viviam cheios, o preço era de um dólar, mais ou menos.
Botar ordem nessa casa é bom para todo mundo, menos os espertinhos. Num mundo normal, estudantes de verdade pagariam, por exemplo, R$ 4, os não estudantes e os atuais estudantes de araque, R$ 8. Os espetáculos teriam mais público, a classe artística, mais emprego, o dono do cinema mais grana. O Zé Maria não reclamaria, pois é estudante (para valer) e adora cinema. Só perde quem vive de vender documento falso.
Padronizar e controlar a emissão das carteiras é fundamental. Espero que consigam um modelo capaz de não burocratizar o processo. Já a cota de 40% não faz nenhum sentido. Se se erradica a falsificação, alguns dias e horários terão, naturalmente, maior afluência de estudantes, outros menos. E, se não houver esta erradicação a cota será uma medida cínica e cretina, pois tratará o estudante falso e o verdadeiro do mesmo jeito.
O que mais me irrita no modelo atual é quando os "espertos" ficam sabendo que não tenho uma carteira falsa: "Nossa, como você é bobo, quer que faça uma para você?". Há algo errado conosco, e não estou falando de nossa estatura moral (essa foi para o saco há muito tempo, em países pobres ou ricos, cultos ou imbecis). A verdade é que essa mentalidade de "levar vantagem em tudo" (Gérson, um gênio, não tem nada com isso) é, antes de desonesta, estúpida. O que nos leva a pensar que somos mais brilhantes que os outros? Que o dono do cinema vai se resignar a perder 50% do faturamento só porque compramos uma carteira?
A propósito, qual a pena para quem falsifica, vende ou compra carteiras de motorista, de identidade ou passaportes? E em que isso se diferencia da identidade estudantil?
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