quinta-feira, 19 de março de 2009

A morte da velha América


Há duas formas de se assistir a "Gran Torino", novo filme de Clint Eastwood que estreia hoje nos cinemas.

No primeiro caso, temos uma história clássica de redenção através da tolerância. Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coréia, rabugento, racista e algo violento perde a esposa e põe-se a aguardar sua própria morte. Terá que conviver com os vizinhos asiáticos, que odeia, e neste processo se aproxima de um deles. Ambos aprenderão muito com esta amizade. Clichê? Sim, e Eastwood sabe como ninguém trabalhar com este tipo de material sem cair na obviedade.

Porém, há uma forma mais interessante de se acompanhar o filme. Junto com Kowalski está morrendo um país: aquela "America"
(como os estadunidenses gostam de chamar seu país) de homens durões, da autosuficiência, da indústria automobilística. E está nascendo um outro, cheio de orientais e latinos, e no qual os negros são visíveis, agora mais do que nunca. Mas não espere sentimentalismo nostálgico: fica claro que foi a própria América que morre quem criou a que agora nasce.

Nenhum lugar poderia ser melhor para isso que a empobrecida Detroit destes tempos de crise, onde os americanos "legítimos" (ou seja, brancos: o protagonista é de origem polonesa, o barbeiro, italiano, o padre, irlandês) assistem com perplexidade o surgimento desta nação multiétnica, cujos habitantes têm regras próprias, típicas de quem aprendeu a ser discriminado.

Kowalski é "old fashion" até o paroxismo. Guarda armas em casa, bebe cerveja em lata na varanda, fuma e está sempre pronto para a briga. Amaldiçoa o filho que vende (e usa) carros japoneses. Ele trabalhou na Ford por décadas e tem, além de uma velha picape da marca, um Gran Torino 1972 (parecido com o Maverick - foto abaixo). Justamente este carro irá aproximá-lo do garoto oriental.


Quando o garoto tem problemas, tentará resolvê-los deste jeitão "meus tempo" e verá que os tempos são outros e, principalmente, não são dele. Terá que lidar com os novos vilões de uma forma inusitada.

Essa fratura entre o novo e o velho, o familiar e o desconhecido, perpassa todo o filme e reafirma uma posição cara para Eastwood: devemos dar espaço ao futuro, mas este não pode prescindir da referência do passado.

Kowalski morre em vida ao ver seu mundo se extinguir. Seu corpo definha junto com os valores que defende. Sua América escarra sangue, como ele próprio. Aprendemos a gostar dele na medida em que compreendemos que seu sofrimento não é o de quem perde a vida, e sim o de quem é abandonado pela história.

Eastwood interpreta e conduz esta narrativa com a maestria de sempre. Um raro antídoto para a mesmice que toma conta dos Multiplex da vida. Se levar a namorada, compre, além da pipoca, lencinhos de papel para ela.

Um comentário:

sexy disse...

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