Saiu a lista de indicados para o Grande Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro. Os vencedores, que levam o Troféu Grande Otelo, serão conhecidos no dia 14 de abril. Assim como no Oscar, os eleitores são profissionais da área (atores, diretores, roteiristas, técnicos etc.), reunidos na Academia Brasileira de Cinema, fundada em 2002.Não é verdade que eles entendam da sétima arte mais do que nós só porque trabalham com isso. Seria o mesmo que pensar que o Júnior Baiano ou o Bebeto dariam ótimos comentaristas de futebol. O mais interessante nesse tipo de premiação é que ele nos permite perceber como o cinema brasileiro se pensa, que caminhos tem escolhido, onde quer chegar.
No site, há ainda o link para votar no prêmio por escolha popular (tá dando um aviso de segurança alienígena).
Abaixo, os indicados para melhor filme, seguidos de pequena avaliação do blogueiro. Todos estão disponíveis em DVD (se você achar uma locadora decente):
O Banheiro do Papa (co-produção com o Uruguai, direção de César Charlone e Enrique Fernández): não chega a empolgar, mas é bom em sua singeleza e merece atenção por tratar da pobreza sem os preconceitos de praxe.
Ensaio Sobre a Cegueira (co-produção com Canadá e Japão, direção de Fernando Meirelles): não soube adaptar Saramago para a tela (de resto, tarefa dificílima). Muito ruim.
Estômago (direção de Marcos Jorge): de longe, o melhor dos indicados. Uma sutil reflexão sobre o poder na forma de comida e sexo, e um ator estupendo (João Miguel) no papel principal. Tomara que ganhe.
Linha de Passe (direção de Walter Salles e Daniela Thomas): é tão oco quanto a cabeça de quem o fez. Uma obra (em italiano, se é que me entendem) sobre a pobreza feita por quem não sabe o que é isso, nem pretende aprender. É como se eu fizesse um filme sobre o brócoli.
Meu Nome Não É Johnny (direção de Mauro Lima): filme de férias para adolescentes disfarçado de lição de moral. Conservador na forma e nulo de conteúdo.
Uma lista muito fraca, mas não há de ser nada. Em 2008, todos os indicados eram, no mínimo, interessantes. Ganhou "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" (Cao Hamburger), e eu achei de bom tamanho, embora preferisse "Baixio das Bestas" (Cláudio Assis).
Profissionais de cinema são seres humanos (alguns até demais), dados aos vícios e virtudes próprios da espécie (como panelinhas, curriolas, geladeiras, modismos etc.), o que explica o perfil social-globalizado da lista deste ano. Parece que resolveram apostar nas co-produções (tábua de salvação em tempos de crise) e no caminho fácil (e bobo) do "apelo social". Normal.
O que não se justifica é o desprezo para com "Encarnação do Demônio", de José Mojica Marins (indicado para Direção de Arte e Efeitos Visuais) e "Falsa Loura", de Carlos Reichenbach (nem meia indicação). Ambos mereciam concorrer a melhor diretor, e a ausência da oxigenada Rosane Mulholland na lista para melhor atriz chega a ser criminosa.
Adendo em 18/03: além da Loura e do Demônio, há outra injustiça, ou, antes, meia injustiça: "Chega de Saudade", de Lais Bodanzky, recebeu 11 indicações, inclusive direção, atriz (Cássia Kiss) e ator (Stepan Nercessian). Ótimo, mas tinha qualidade para concorrer a melhor filme.
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