quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Fanfarrões e mauricinhos


"Tropa de Elite", dirigido por José Padilha em 2007, estreia no Telecine Premium neste sábado, às 22h. Embora trate-se de um filme que todo mundo que quis ver já viu, vai estourar de audiência. Não por acaso, a Globosat o colocou em seu canal top (e não no Canal Brasil, como costuma acontecer com as produções nacionais) e investiu pesado na divulgação. É oportuno refletir sobre as razões de tamanho sucesso.

Alguns posts desse blog podem dar a impressão de que estou entre os detratores da obra. Não é o caso: é um bom filme de ação e ainda levanta uma ou duas boas discussões. O que irrita e preocupa é a recepção dele pela quase totalidade do público.

À época do lançamento, instalou-se uma polêmica entre duas posições canhestras e pouco amadurecidas, para dizer o mínimo.

De um lado, uma massa que, por motivos que fogem ao alcance imediato, defende os homicídios, torturas e arbitrariedades cometidos por tantos policiais brasileiros, e que se entusiasmou ao ver tudo isso realizado na tela pelo suposto mocinho, uma identificação ajudada pela interpretação antológica de Wagner Moura.

Essa massa não vê que as práticas de seu herói o estão enlouquecendo e, talvez, levando-o à morte. Também não ouve quando ele, narrando sua busca de justiça com as próprias mãos após o assassinato de Neto, afirma: "era totalmente errado o que eu estava fazendo". Não enxerga o absurdo de se impor treinamento de selva a homens destinados ao combate urbano. Não desconfia da alegada imunidade do BOPE à corrupção. Não pensa, enfim, apenas desfruta.

Do outro lado, vários expoentes de diversas elites intelectuais reagiram contra o que pensaram ser a exaltação e glamourização da truculência policial e crucificaram Padilha por culpar o usuário de drogas pela violência. Até de fascista o filme foi chamado. É uma interpretação tão ignorante quanto a anterior, porém mais grave, por vir de quem vem.

Pudera. Não deve ter sido fácil para tomadores de capuccino politicamente corretos ver seu inocente baseadinho associado à violência urbana. Nunca tinham se pensado como parte do problema. Surpresa: somos todos parte do problema, e o pior, muito poucos de nós se esforçam para ser parte da solução.

Aqui está o maior mérito de "Tropa de Elite": ele vê uma origem sistêmica para os problemas sociais. Ela está tanto no morro quanto na polícia, tanto no governo quanto nas ongs. Está na forma privatista e corrupta que escolhemos para nos organizar em sociedade.

Está no fato de que apontamos o dedo para a corrupção no poder público, mas esquecemos que molhamos a mão do guarda, compramos produtos roubados, falsificamos carteiras de estudante e compramos (eu, não) maconha de um traficante que, estamos cansados de saber, vai usar nosso dinheiro para comprar armas, matar algumas pessoas e manter seu poder sobre as demais.

Eu sempre achei que o filme deveria se chamar "Tropa DA Elite", porque esses BOPEs da vida são exatamente isso: um grupo de combate destinado a manter a violência confinada no morro para a zona sul poder comprar maconha na faculdade e fumar sossegada no posto 9.

Um dos pontos altos da história é justamente quando André se dá conta disso e esculhamba a "manifestação pela paz" (a mais cínica invenção que este país já assistiu). A paz dos mauricinhos que se vestem de branco é garantida pelos homens de preto. Pena que, em vez de romper com tudo isso, o personagem se enfronha mais ainda na engrenagem.

É verdade que o filme idealiza a incorruptibilidade e a capacidade do BOPE . Se isso fosse real, o crime organizado já teria ido para as cucuias. Mas esta idealização vem ao encontro do que somos. Afinal, para tudo queremos uma solução fácil, imediata e rápida, e que se possível não nos envolva. Pena que isso não existe.

Enquanto se acredita em panacéias, morremos todos, e não só os favelados. Se a execução do casalzinho no alto do morro não é suficiente para demonstrar isso, pense um pouco: para quem está apontada a escopeta do BOPE na cena final de "Tropa de Elite"?

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