segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A cilada são os outros

Leio na coluna de Patrícia Kogut que "Cilada", do canal pago Multishow, vai migrar para a Globo. Se é bom que atinja mais gente, são preocupantes os riscos que vai correr. O mais óbvio deles é o fato de que, no canal aberto, nenhuma série dura mais de dez episódios. Mas além disso, Guel Arraes e sua gang certamente vão diluir o potencial crítico da atração.

"Cilada" é talvez o único programa útil da grade do Multishow. Criado pelo ator Bruno Mazzeo, que também faz o personagem principal, dedica-se a desmascarar supostos programões, como acampamento, barzinho, praia, reveillon etc., ou situações da qual você não pode mesmo escapar (escritório, eleições, crianças...).

Para "analisar" cada situação, o ator incorpora vários personagens: um antropólogo bigodudo, uma nova rica paulistana e uma hilariante sátira de Alexandre Frota que tem sérios problemas com palavras complexas.

Parece bobo e simples demais, eu sei, mas tem outros atrativos. Um deles é abrir espaço na TV para o mau humor, que nesses tempos de pasteurização e auto-satisfação andava sem representação. Nós, os mau humorados crônicos, nos sentimos menos sozinhos assistindo programas assim. Não somos alienígenas, que bom!

Mas o grande pulo do gato é mesmo a identificação das situações vividas pelo pobre Bruno e sua namorada Débora (Débora Lamm) com a vida real. Já lhe jogaram mijo no estádio? Já teve que tomar conta de criança dos outros? Já voltou a estudar depois de velho? Pois é, eu também. "Cilada" trabalha com um fato gritante, mas que normalmente gostamos de ignorar: a vida, com poucos momentos de exceção, é uma experiência que transita entre o tedioso e o francamente irritante.

Para além de ser engraçado, o programa conduz a uma reflexão: tudo o que Bruno vive é causado não pelas coisas (o clube, a praia, a festa), mas pelas pessoas: o sujeito que sai antes do bar e deixa uma mixaria; a perua que não empresta nada (filtro solar, colírio etc.), pois é tudo importado e caríssimo; a namorada que sempre te arrasta para um programa de índio drogado; ou você mesmo, que por constrangimento acaba aceitando o inaceitável.

Não sei se foi a intenção de Bruno, mas sua criação se transformou numa crítica ferina ao comportamento predominante nesse tal de novo milênio, marcado pelo deslumbramento, pelo sorriso forçado, pelo culto à aparência e pelo total desprezo pela autenticidade, quase sempre chamada de grosseria (enquanto o fingimento é confundido com refinamento).

Seu personagem é antipático, teimoso e cheio de manias, mas não se importa de ser visto exatamente como é. Tenta agradar às vezes, mas acaba sempre dizendo o que pensa. Depois de ser infernizado todo o fim de semana por um menino capeta, este ainda pergunta, na frente do pai, se poderia voltar outro dia. Resposta de Bruno: "Não. Claro que não."

Hobbes dizia que o ser humano gosta de viver sozinho. Convivemos com os outros por circunstâncias alheias à nossa vontade. O que Mazzeo parece defender é que não existe motivo para que esta convivência ultrapasse os limites do estritamente necessário. Como ator, ele certamente conhece a afirmação de Sartre em "Entre Quatro Paredes": "O inferno são os outros".

Vale a pena tanta filosofia por um programa de TV? Sei lá. Mas vale um aviso. Atenção, Bruno: não vai para a Globo que é cilada!

Serviço: em geral, passa nos sábados às 21h15 e nos domingos às 16h, além de outras reprises em horários incertos. Mas, em tempos de BBB, o relógio do canal é meio desregulado. Eu assisto mesmo é no YouTube.

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu não arriscaria isso tudo... Pra mim, Cilada é meio óbvio, comum, nada impressionante. Vai ficar pior depois que for para a Globo. Afinal, ela já conseguiu acabar com o TV Pirata (forçou ele a ser semanal), e tem tentado há mais de 5 anos empurrar goela abaixo dos telespectadores o "Casseta e Planeta", embora ele já tenha acabado em termos de criatividade. É a realidade, o pouco de criatividade que ainda resta vai perdendo espaço para a porcaria, os "astros" e "celebridades", desesperados por um espaço na mídia, seja ele qual for. E tome BBB, Faustão, Huck ... Talvez assim o povo acorde, e mude de canal.

Anônimo disse...

Eu não arriscaria isso tudo... Pra mim, Cilada é meio óbvio, comum, nada impressionante. Vai ficar pior depois que for para a Globo. Afinal, ela já conseguiu acabar com o TV Pirata (forçou ele a ser semanal), e tem tentado há mais de 5 anos empurrar goela abaixo dos telespectadores o "Casseta e Planeta", embora ele já tenha acabado em termos de criatividade. É a realidade, o pouco de criatividade que ainda resta vai perdendo espaço para a porcaria, os "astros" e "celebridades", desesperados por um espaço na mídia, seja ele qual for. E tome BBB, Faustão, Huck ... Talvez assim o povo acorde, e mude de canal.