
Estreia hoje no Brasil a primeira parte de Che, superprodução dirigida por Steven Soderbergh e estrelada por Benício del Toro. Esse primeiro filme mostra o encontro de Guevara com Fidel no México e a guerra revolucionária em Cuba. O segundo, ainda sem estreia marcada, trata da luta do Che na Bolívia, culminando com sua morte em 1967.
Os chamados "filmes históricos" correm sempre muitos riscos. O principal deles é o anacronismo (enxergar no passado valores ou atitudes típicos do presente). Também ocorre muito o didatismo, quando o realizador acha que seu filme tem que dar aula de história. Poderíamos citar ainda os excessos ficcionais, ou seja, o filme, inicialmente "baseado em fatos reais", fantasia tanto em torno destes que acaba por se desvincular inteiramente deles.
Che conseguiu escapar destas armadilhas, o que talvez determine uma certa frieza da crítica e a provável rejeição do público. É que personagens como este geram uma expectativa relacionada às nossas concepções sobre ele. E, salvo raríssimas exceções, essas expectativas serão frustradas.
Não está ali o herói mítico dos militantes secundaristas, empunhando altivamente seu fuzil contra todas as injustiças. Muito menos o assassino sanguinário das páginas de Veja, para quem Guevara merece a "lata de lixo da história" (o que é, no mínimo, mais digno que merecer a lata de lixo da esquina, como certas revistas). Também não esperem o humanista meio bocó que Walter Salles inventou em "Diários de Motocicleta".
O Che de del Toro e Soderbergh é antes de tudo humano. O medo em seus olhos é visível no barco que leva os primeiros revolucionários a Cuba. Ele tem constantes ataques de asma, sério inconveniente para quem se dedica à guerra. Não hesita em ser solidário, mas tampouco em comandar pelotões de fuzilamento. Não é um homem que tem todas as respostas; ao contrário, não consegue compreender seu fracasso na Bolívia. Mas ele tem um ideal, e isso para ele está acima de tudo.
O mais instigante é que esta visão foi baseada fielmente nos escritos do próprio personagem. Isso, somado à atuação, no mínimo, impressionante de del Toro, aproxima o filme de uma espécie de registro documental, uma reconstituição, um docudrama, algo assim. Reside aqui a força e a fraqueza da obra.
Sim, pois, se de um lado essa opção aproveita ao máximo toda a riqueza do personagem Guevara, de outro ela se torna meio opressiva (pelo menos para quem assiste às duas partes - 4h20 no total - em seguida). Faltou uma certa ousadia em termos de luz, montagem e enquadramentos, algo que falasse mais com os sentidos do público, e não só com o cérebro.
Implicâncias à parte, é um filme quase obrigatório, pelo cuidado na produção, o brilho de del Toro, as minúcias do roteiro e, principalmente, por ser um bom ponto de partida para pensarmos um pouco sobre nós mesmos e o nosso tempo. Guevara tem muito a nos dizer, e para ouvi-lo não é preciso gostar dele.
Despido das vestes angelicais ou demoníacas, o Che se aproxima mais de nós e se dá a conhecer. Para conhecê-lo, porém, não precisamos partilhar de suas idéias, mas sim perder por um momento o verniz do século cínico em que vivemos e aceitar que um sujeito foi capaz de fazer a guerra em três países estrangeiros por que acreditava nestas idéias e rejeitava a injustiça. Algo impensável nessa tal de "Era de Aquarius".
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