sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A gestação da barbárie

Raridade: atores mirins de primeira

Estreia hoje nos cinemas "A Fita Branca", de Michael Haneke, que é o favorito para levar o Oscar de melhor filme estrangeiro e já faturou a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro.

Haneke é um cineasta que gosta de lidar com a maldade, com a perversão e com a obscuridade alojadas dentro de cada um de nós (vide o controverso "A Professora de Piano", de 2001, filme para quem tem miolos fortes), mas creio que nunca havia feito isso com tanto refinamento.

Aqui, o cenário é um lugarejo rural alemão logo antes da eclosão da Primeira Guerra. Estranhos e cruéis acontecimentos começas a perturbar a "paz" do local: acidentes provocados, incêndios criminosos, sequestros de crianças e coisas assim, sem que se descubram quem os leva a cabo nem por que.

Haneke utiliza esse pano de fundo para situar seu objeto principal: as crianças do local e a educação que recebem, recheada de silêncios, surras e frustrações as mais diversas. Aos poucos, os efeitos desse condicionamento vão se revelando de maneiras supreendentes.

Trata-se de um filme sobre repressão, que poderia metaforizar qualquer contexto político autoritário. Mas Haneke deixa bem claras suas intenções quando, logo no início, o narrador menciona "as terríveis coisas que viriam a acontecer em nosso país". Ora, quem tinha entre 10 e 15 anos em 1913 tinha entre 30 e 35 em 1933, quando aquele moço de bigode engraçado subiu ao poder em Berlim.

O que temos aqui, então, é uma reflexão não exatamente sobre o nazismo, e sim sobre o caldo de cultura que o tornou possível, principalmente no tocante a noções como obediência e crueldade. Faz lembrar o poderoso "O Tambor", de Volker Schlöndorff (que, por sinal, também levou a Palma de Ouro, em 1979). Porém, se ali tínhamos a caricatura de uma nação traumatizada, que se recusa a crescer, aqui a preocupação é entender sua forja, os elementos constitutivos da mentalidade que permitiu e apoiou a barbárie.

O melhor é que este tipo de terapia histórica através do cinema, parece estar em voga, como demonstrado pelo belíssimo "Vencer!", de Marco Bellochio, que deve estrear no Brasil em março (se conseguir driblar a miopia dos exibidores) e do qual falaremos aqui oportunamente.

Em "A Fita Branca", este trabalho é feito com competência e extremo capricho, como mostram os sete meses de preparação do elenco infantil, o uso de luz indireta para não perturbar a atuação dos pequenos e a melancólica fotografia em preto e branco, entre outros exemplos.

Para os leitores do Rio ou de Salvador pode parecer esquisito um filme destes estrear às vésperas do Carnaval. Mas em BH é ótimo: o complemento perfeito para se aproveitar os cinemas vazios, os não-engarrafamentos e o sossego que reina por aqui nesta época.

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