segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

"Revival" é o raio que os parta


O passado nunca volta. É sério. Quando parece voltar, na verdade trata-se do presente usando uma fantasia barata de passado, comprada nas lojas Nova Brasília. E, quando isso acontece, então alguém está tentando enganar você.

Digo isso a propósito de um show que acabo de ver no Canal Brasil. Chama-se "Festa Ploc 80's 2". Não há reprise programada, graças a Deus. O nome deve ser uma homenagem ao chiclete, ou melhor, "chicle de bola" Ploc. Será?... Tentem imaginar o funcionamento cerebral de alguém capaz de homenagear um chiclete... E, como assim, "2"? Já fizeram outra?


Em resumo, trata-se de artistas díspares e semi-aposentados tocando supostos "sucessos" dos anos 80 para uma platéia que se divide entre bêbados com mais de 30 e bêbados com menos de 18. É fácil imaginar que um artista bem sucedido (bom ou ruim, tanto faz) dos anos 80 não vai entrar numa roubada destas, certo? Portanto, se você nasceu depois de 1976, pule para o penúltimo parágrafo, pois não vai entender os próximos.


Eu não vi tudo, o que seria uma violência. Vi Gretchen cantando "Conga, Conga, Conga" (acreditem, o momento menos constrangedor de todos), o Grafitte tocando "Mamma Maria"... Até que estava divertido, do mesmo modo que uma senhora gorda cheia de sacolas caindo de bunda numa poça de lama acaba por divertir nosso lado perverso. Mas aí passou a ficar meio pesado...


Desconsideremos Kátia ("Não está sendo fácil"...) e Adriana ("I Love You Baby"). Ignoremos Marcos Sabino ("cheiro uma flor de cravo e canela..."). Passemos direto a Byafra, que aparentemente tomou pinga com Yakult antes de se apresentar e passou pela suprema humilhação de esticar o microfone para um público que não sabia o que ele estava cantando (eu também não). Vejamos os Abelhudos ("O Dono da Terra"), adultos, pulando de um lado para outro. Guilherme Isnard (do grupo Zero, lembra? Não? Sorte sua!), de cabelo raspado, parecia um Bruce Willis dos pobres. Dos pobres de espírito, está claro. Sérgio Mallandro esteve lá, também, acreditem...


As paquitas poderiam, pelo menos, agradar aos olhos, mas agora elas usam as botas até os joelhos, e as saias... também. Por que será? Quando apareceu um sujeito cantando "Dá pra Mim", seguido por outro (dane-se, eu não tenho que saber nome dessas coisas) com a canção-tema dos Thundercats (pois é, de espada em punho e tudo), eu achei que tinha acabado. Eu tinha. Mas ainda teríamos Cid Guerreiro, num figurino entre viking, metaleiro e mendigo (mais mendigo), cantando "Tindo Le Le" e "Ilariê". Nossa...


Eu pergunto: para quê? Nós, dos anos 80, cometemos nossos erros (como o A-ha) e nossos acertos (como o New Order), que deviam ser deixados no seu lugar: o passado. No mais, ainda que fossem apenas erros, o lugar do passado é a memória, não as tardes de segunda no Canal Brasil. Ao chamar aquilo de "anos 80", nos venderam barato. Deixaram-me à mercê de algum aluno imprevidente que resolva insinuar que sou "do tempo do Cid Guerreiro". Cadê o estatuto do idoso, que não impede uma coisa dessas?


Essa mania de "revival" é irritante e rasteira. Toda década abomina a passada e ama a retrasada (por quê? Porque não dá pra fazer revival com a década passada. Ela não morreu. A vida se divide em experiências, não em datas). Há uns sete anos vêm prostituindo os anos 80 (que já não têm idade pra isso) em nome dessa bobagem de revival. Chega a ter gente que acha Atari o máximo. Será que não dá para fabricar lixo novo, em vez de ficar reciclando o do meu tempo? Bobagem deles: o tempo não revive, a não ser na forma de morto-vivo, como vi hoje.

O pior: está acabando a primeira década desse século estúpido. Ou seja: em breve começa o "revival" dos anos 90. Como fico eu, que fiz meu primeiro grau nos 80 e o segundo nos 90? Pago mico outra vez? Sinceramente, se vier alguém dizendo que sou "do tempo do Guns 'n' Roses", vai tomar cocão, como se dizia nos anos 80.

2 comentários:

Anônimo disse...

Fofão, eu confesso que em 2006 eu fui em uma festa ploc. Só não foi mais engraçado porque foi aqui em SSA, então não encontrei ninguém do Colégio Imaculada. Esses artistas aí não participaram não, a não ser pelo Luciano do Trem da Alegria, que cantou He-Man e Thundercats. Fui com uma amiga e, sem muitos conhecidos por perto, soltei a franga e outros bichos, pulei, gritei e fiz coreografia. Eis que, na minha frente, tá o dono da agência de publicidade com quem tenho reuniões super estressantes. Ainda bem que ele, mais perto do palco que eu, também embarcou no delírio coletivo. As reuniões até ficaram mais produtivas depois desse dia....

Fofão disse...

Xingu, você deveria se confessar na igreja e pagar penitência. E esse publicitário aí deveria tomar vergonha. Vê se isso é coisa de um empresário sério...