
Há alguns meses, li no blog do Antônio Prata: "Então Deus, cansado dos meus pecados, resolveu punir-me: enviou uma obra ao apartamento de cima". Cheguei a rir, imaginando o que o Prata deve ter feito para merecer tão cruel punição.
Só não sabia que chegaria a minha vez. Logo eu, que rompi minhas relações com o Altíssimo há quase vinte anos... opa! Será que é por isso mesmo?
O fato é que o Criador deve supor que os engarrafamentos diários que eu tenho que suportar, em geral em pé dentro de um coletivo cheio de homem e de mulher feia, não constituem um sofrimento suficiente para purificar minha alma e temperar meu caráter. Daí que ele resolveu incrementar o negócio.
Cena 1: engarrafamento na ida para o trabalho. Um motorista bem ao lado do meu balaio resolve passar o tempo ouvindo uma musiquinha. Trata-se de "Entra na minha casa, entra na minha vida", de Régis Danese. Ele deve achar que um louvor matinal só faz bem ao espírito humano, por isso usa toda a potência de seus alto-falantes para socializar sua santidade com a gente.
Cena 2: tudo agarrado na volta do trabalho. Ocorre o mesmo que na cena 1, só que o repertório é daqueles funks cheios de palavrões. Desta vez, um outro cidadão no ônibus ficou tão indignado quanto eu, e decidiu reagir. Reagiu entoando um desses "louvores" aí. Ele deve ser adepto de um ditado muito utilizado aqui no Novo Sumaré: "Se já está mesmo no inferno, o negócio é abraçar o capeta".
Cenas 3 e 4: também na ida. Dessa vez são respeitáveis senhoras que resolvem cantar no ônibus. Será que a Bhtrans(torno) resolveu colocar música ao vivo nos coletivos? Se for o caso, eu posso sugerir um outro lugar para eles colocarem isso.
É evidente que não tenho nada contra a religião de ninguém. O agnóstico é sempre o primeiro a defender a total liberdade religiosa, pois só ela garante meu direito de não ter religião alguma e caminhar livremente rumo à danação eterna.
É uma questão de bom senso. Em um país com tantas crenças diferentes, imaginem se todo mundo resolve professar a sua em voz (e som) alta, em pleno transporte público às 8 da manhã? E se dentro desse ônibus houver um fiel da Universal e um seguidor de cultos africanos? Vai virar um festival de bolacha.
Essas coisas, mais a papagaiada religiosa que tomou conta do futebol (o Juca Kfouri e o Verissimo mataram a pau a esse respeito), mais os padres megaestrelas, mais alguns e-mails absurdos que todos nós recebemos (como aquele texto ridículo do porta-malas) acendem em mim suspeitas e temores muito sérios.
É inerente a qualquer religião a convicção de ser melhor do que as outras. Em si, isso não causa problemas. Mas quando se começa impor a sua prática religiosa no ambiente público, então está em cena a crença de que próprio fiel de A é superior ao fiel de B, portanto tem mais direitos que ele. E aí estaremos a um passo da teocracia.
Que todos os deuses nos livrem de estarmos caindo em uma espécie de talibã cristão, nos moldes daquele que levou Bush Jr. ao poder nos EUA.
Nenhum comentário:
Postar um comentário