Estreia amanhã no Brasil "O Discurso do Rei", de Tom Hooper, forte candidato ao Oscar de melhor filme. O tema é a gagueira do príncipe Albert, futuro rei George VI, um problema sério em uma época - anos 1930 - na qual o rádio era a base da comunicação de massas. Para resolvê-lo, será necessária a intervenção de um especialista (?) bastante heterodoxo.
O filme tem sido elogiado pelo show de interpretação da dupla de atores (Colin Firth e Geoffrey Rush, ambos indicados) e por uma suposta humanização da realeza. Tem sido criticado por romantizar a história e esconder aspectos constrangedores da família real - como sua simpatia ou, no mínimo, boa vontade para com o nazismo. Duas besteiras.
Os pendores hitleristas de David (já então coroado como Eduardo VIII), irmão de Albert, ficam explícitos na cena no interior de uma adega, e os do próprio rei também aparecerão, ainda que fugazmente, para quem estiver atento aos aspectos históricos. Winston Churchill está lá, (meio esquisito, mas está), e nada se parece menos com um estadista do que o recém-coroado George VI. Mas tudo isso é formal e esquemático, voltado muito mais à crítica politicamente correta do que ao centro da narrativa.
Ocorre que a tal humanização também não se faz presente. O que se vê na tela é a terapia da fala se transformar em freudianismo de pub barato, levando à dissecação da intimidade do protagonista: tiranizado pelo pai, forçado a ser destro, proibido de falar palavrão, submetido a talas para endireitar os joelhos e abusado fisicamente (sexualmente?) por sua babá, só podia ser gago mesmo. No mínimo.
Essa cupidez pelos detalhes mórbidos da privacidade alheia não humaniza ninguém, muito pelo contrário. Mas não surpreende, vindo de uma sociedade que há anos deixou para trás suas supostas fleuma e discrição para expor suas próprias particularidades (sexuais, digestivas, sexuais, familiares, sexuais, médicas e sexuais) em reality shows de gosto nada duvidoso (são de péssimo gosto sem dúvida nenhuma).
Essa tendência já tinha chegado antes ao cinema, em filmes como "A Rainha" e "A Jovem Rainha Vitória", ou mesmo no norte-americano "A Outra", em que a história do cisma anglicano de Henrique VIII, de altíssimo potencial cinematográfico, é transformada em um subproduto de "Mulheres de Areia". Triste.
"O Discurso do Rei" é ruim não por "esconder a história" - não é um filme sobre história, ponto. É ruim porque seu roteiro não se sustenta, sua argumentação não convence, e a tal da "narrativa de superação" tem a profundidade de um dedal. O trabalho dos atores (ótimo, admitamos) parece um motor que gira no vazio, movimentando a nada além de si mesmo.
Pelo menos o diretor Tom Hooper é coerente: profissional de TV que é, faz com que a superficialidade temática do filme seja acompanhada por escolhas estéticas burocráticas e preguiçosas, bem ao gosto de um certo "público médio" (sério? Este é o médio?) que que leva lencinhos de papel aos cinemas para vê-lo.
Os ingleses têm um passado de todo tamanho. De boa parte dele, podem se orgulhar. De uma parte ainda maior, deveriam se evergonhar. Ambas podem e devem ser levadas ao cinema. Mas se o negócio é fofoca e sentimentalismo barato, um filme sobre as roupas íntimas do casal Beckham faria mais sentido.

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