
É comum ouvir dizer que "filme que ganha Oscar é ruim". As pessoas que pensam assim costumam ser fãs de Rambo ou, no outro extremo cultuadores de Glauber Rocha. A frase faz tanto sentido quanto "camisas marrons são de má qualidade" ou "mulheres sardentas choram durante o sexo".
Ou seja, Oscar, como qualquer prêmio, não indica qualidade boa ou má. Quer dizer apenas que o filme caiu no gosto de um público específico. O grande valor dado à premiação da Academia está no fato de esse público ser formado pelas pessoas que fazem cinema, e não por críticos. É legal ganhar prêmios de jornalistas, mas ser escolhido pelos colegas é sempre especial.
Também é verdade que de vez em quando a Academia apela. Entre 1997 e 1999, por exemplo, deu o Oscar de Melhor Filme para "O Paciente Inglês", "Titanic" e "Shakespeare Apaixonado". Cruz credo, Ave-Maria. Mas foi uma fase ruim, como outras foram boas.
Para provar, uma lista de dez filmaços que levaram a estatueta de Melhor Filme com o maior merecimento:
1941: Rebecca, a Mulher Inesquecível. É covardia. Lawrence Olivier e Joan Fontaine dirigidos por Alfred Hitchcock em um filme produzido por David Selznick. Até com um roteiro ruim funcionaria. Mas o roteiro era sensacional.
1944: Casablanca. Produção comumente subestimada, tem o mérito de discutir, por baixo do melodrama, questões como patriotismo, coerência política e valores coletivos. A cena da Marselhesa é de encher os olhos.
1946: Farrapo Humano. Histórias de alcoólatras caem fácil na tentação do moralismo. Mas com Billy Wilder é diferente. Seu bebum é denso, profundo e nos leva torcer por ele.
1951: A Malvada. Esse levou só 11 oscars. Gigantesca atuação de Bette Davis e Anne Baxter numa reflexão inteligente sobre o próprio mundo das artes dramáticas.
1955: Sindicato de Ladrões. Elia Kazam foi um
1961: Se Meu Apartamento Falasse. Billy Wilder, de novo, agora em uma comédia inteligente e ousada para sua época. Quando eu crescer, quero fazer filmes desse nível.
1992: O Silêncio dos Inocentes. Filme de serial killer é mato. Destacar-se no meio do mato não é tarefa fácil. Jonathan Demme nunca mais fez algo desse tamanho.
1993: Os Imperdoáveis. Faroeste nos anos 90? É. E com história clássica de vingança encomendada e tudo. Difícil saber se Clint Eastwood esteve melhor na direção ou no papel do protagonista.
2000: Beleza Americana. É muito duro quando a gente percebe (de verdade) que vai morrer um dia e que não vai dar tempo de fazer nada extraordinário antes disso. É mais duro ainda quando não se aceita o fato. Um mergulho no que o ser humano tem de pior.
2006: Crash: no Limite. Narrativas não-lineares viraram moda, mas foi depois deste. Um filme sobre racismo que respeita nossa inteligência. Esqueça esse negócio de mocinho e bandido.
Agora, numa coisa vamos concordar: assistir cerimônia de entrega do Oscar é programa de índio tarado. Para quem mesmo assim quiser encarar, é domingo a partir de 21h, no TNT. A Globo, acertadamente, preferiu passar desfile de escola de samba, que é tão chato quanto, mas pelo menos tem mulher pelada.
Um comentário:
Boa lista, fofão!!! Eu gostei de Crash também, apesar de muita gente não ter gostado. Bjo!
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