sábado, 7 de março de 2009

O direito de ver TV (II)

PARTE II:
CARROS DE SOM


Não confundir com o som automotivo acima. Aqui nos referimos àquele sujeito que tem uma Brasília, Kombi ou "fitim" que, de tão velha(o), já não serve para fazer carreto ou ir para Várzea das Flores passar o domingo. Daí ele instala no teto umas caixas de som e sai dando umas voltas pelo bairro anunciando as casas comerciais da região.

Eu acho que tudo começou com a pamonha. Não, não estamos falando da Regina Duarte, e sim daqueles senhores que dirigiam pelas ruas anunciando pelo microfone: "É a pamonha, pamonha fresquinha, pamonha caseira!". Aquilo até que era divertido, principalmente porque a gente se punha a arremedar o coitado em altos brados: "É a maconha, maconha caseira!".

O problema é que virou moda. Anos mais tarde, vieram o carro do sorvete, o do abacaxi, o do queijo e até mesmo o carro da galinha (é sério! Acho que eram quatro galinhas por dez reais, algo assim). Isso sem falar nos caminhões de gás que tocavam "Pour Elise" a todo volume, às 7h da manhã.

Dentro em pouco, alguma mente deformada empreendedora teve a idéia de vender o serviço para vários comerciantes ao mesmo tempo e faturar um troco. E a coisa virou um problema ambiental, pelo menos no meu bairro.

Os campeões por aqui são dois supermercados (ambos de quinta categoria) que parecem competir para ver quem incomoda mais. Um deles divulga as ofertas ao som daquele "sertanejo universitário" que diz: "pois não hááááááá lugar melhor que BH". Melhor para quem?

Há ainda tem uma loja de móveis que pirateia o prefixo do "Plantão" da Globo
("tá-tatá-tatá-tatatatá"...). Você toma um susto e sai correndo para a frente da TV achando que estourou uma guerra nova ou que o Roberto Carlos bateu as botas, mas é apenas uma liquidação de estofados.

Também o mercado da fé está tomado por estes celerados. A Igreja Universal sempre passa divulgando a "Sessão do Descarrego" e informando os sintomas de possessão demoníaca (eu fico até meio cabreiro, porque quando acordo de ressaca tenho todos eles: vejo vultos, ouço vozes, sinto tonteiras, não tenho um puto no bolso etc.).

Bom, eu acho que eles fazem
isso em todos os bairros. Mas aqui o padre católico resolveu contra-atacar na mesma moeda. E tome anúncio de missa, novena, via sacra, procissão, quermesse e vai por aí afora. Por ocasião do 12 de outubro o anúncio do padre, mostrando todo o seu bom senso, pedia para os fiéis "soltarem muitos fogos" (!).

Quanto aos períodos eleitorais, é melhor nem comentar...

Toda vez que eu fico bravo com esses produtores de surdez vem alguém para fazer uma cara de reprovação e me lembrar de que "esse é o trabalho deles". Ah, sim, me desculpem. Os caras lá trabalhando e eu aqui querendo ver televisão. Não vou mais reclamar. Só espero que o enorme número de policiais, bancários, garçons, vigias, padeiros etc. que trabalham toda a noite e não podem dormir durante o dia porque esses caras estão "fazendo o trabalho deles" tenha a mesma compreensão que eu.

Por falar nisso, a Câmara Municipal de Belo Horizonte diz ter regulamentado o serviço de carros de som, com a desculpa de que ele emprega mil pessoas (grande solução para o desemprego numa cidade de três milhões de habitantes). Eles podem rodar "só" de 9h às 18h, e a pelo menos 100m de escolas e hospitais (tudo isso? Que ótimo! Pena que o som que eles emitem tenha um alcance no mínimo duas vezes maior). Ah, e não podem circular na região da Savassi.

Tá vendo? Quem me mandou vir parar aqui na Vila Perifa? Se eu morasse na Savassi e me alimentasse basicamente de capuccino e cigarros de canela, hoje não precisaria de um transplante de tímpanos. É como cagar sujar a água do rio: só vai incomodar quem mora mais embaixo.

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