Aconteceu na última sexta, enquanto eu, cansado após uma árdua semana de trabalho, fazia compras em um supermercado próximo à minha casa, pensando na vida e em como pagar as compras. Enquanto me esticava para alcançar algum item (devia ser macarrão, que o dinheiro não anda dando para muito mais do que isso), senti meu braço ser tocado por uma pele macia e aveludada.
Ao voltar os olhos para ver quem me solicitava de forma tão gentil, deparei-me com uma jovem de seus 23 anos, loura, muitíssimo bem desenhada pela mãe natureza, dois olhos verdes angelicais, quase inocentes.
Conclusão imediata: o papai aqui não é mesmo de se jogar fora. Conserva ainda o discreto charme dos intelectuais experientes. Certamente, a jovem se vira atraída pela minha aparência segura e confiante.
Enquanto preparava rapidamente a baba peçonhenta, dirigi à sereia um "olá" envolto naquele olhar estudado, de solicitude mesclada a mil interesses. E ela me respondeu:
- Ô moço...
"Ô moço", ela disse. "Moço", que, como vocês sabem é o jeito educado de se dizer "velho", "vovô", "coroa", "pé na cova" e vai por aí afora. Imediatamente, meus ombros caíram, minha voz amoleceu e eu me reduzi a um "pois não" burocrático. O jeito certo de um velho se dirigir a uma moça, sem aspas.
Ela continuou. Queria uma dica de carne para preparar um tira-gosto para os amigos. Dirigia-se a mim porque tenho "cara de quem cozinha bem". Tradução para bom entendedor: tamanho barrigudo deve tomar cerveja e comer o dia inteiro, e com certeza sabe tudo de tira-gosto.
Cumpri o protocolo estabelecido para um velho gordo, e dei-lhe as necessárias explicações. Pensei em oferecer-me para preparar o petisco para ela, mas desisti: mesmo que ela concordasse, a única coisa que eu iria comer era a carne. A do boi. E talvez nem isso, pois talvez ela achasse que um sujeito na minha idade e no meu peso não deve andar comendo essas coisas, ainda mais à noite.
Ela agradeceu com um sorriso ainda mais angelical, e com uma voz carinhosa e indulgente, semelhante à que elas usam para se comunicar com os bebês. Elas fazem isso quando te julgam tão inofensivo quanto um bebê.
E foi tão somente por isso, por considerar-me um velho gordo e inofensivo, que aquela beldade se dirigiu a mim naquela sexta à noite. Terminei as compras, mandei entregar em casa e fui tomar cerveja e comer tira-gosto no Bar do Zé Maria. Lá, pelo menos, quase todo mundo que vai é mais velho do que eu.
Essa história, verídica, serve para que não precisem me perguntar qual é a sensação de se completar 35 anos, coisa que me ocorrerá na próxima sexta. A sensação é esta.
Aproveito para convidar todos os leitores (que saltaram de meia para uma dúzia com a adesão dos meus colegas de trabalho) a
3 comentários:
Tá vendo???
Voces, homens na casa dos trinta, quarenta anos, precisam descobrir as mulheres acima de 30 anos...
Voces só gostam das meninas de 20!!!
E aí, nós, mulheres com mais de 30 anos,que apreciamos uma aparencia segura e confiante, ficamos com duas opçoes: o berçário ou o asilo...tsc,tsc,tsc...
Prezado Senhor de 35,
É, a vida é mesmo muito ingrata... E voce achou que a moça queria alguma coisa a mais de voce além da informação... Talvez se voce tivesse mais dinheiro... Não se deprima, ainda virão os 40... Quanto às colocações da senhora de 37 aí acima, não vale legislar em causa própria. Ela deve aproveitar este período sabático antes dos 40 porque depois é só o asilo, literalmente...
Tragi-cômico... mas valeu pela "baba peçonhenta" HAUHAUUAUAHUHAUH
Postar um comentário