terça-feira, 19 de outubro de 2010

A vanguarda do regresso

Se deixar, eles voltam até lá...

Luis Nassif publicou recentemente um excelente texto sobre a onda de ódio que se está formando contra a candidatura Dilma e o PT. Trata-se de posicionamentos extremos, agressivos, hepáticos, que assustam quem os presencia e chegam até às crianças.


Interessante notar que este ódio parece estar concentrado em círculos de classe média. A burguesia propriamente dita prefere Serra, vota em Serra e pode até odiar Dilma com todas as forças, mas não demonstra este último aspecto, talvez por saber que nenhum resultado eleitoral ameaça seus privilégios a curto ou médio prazo.

Aqui embaixo, onde termina a classe média e começa a pobre, também convivo com um setor anti-petista, em geral cristão, mas que também se manifesta de forma comedida, quase tímida. O mesmo se pode dizer do voto anti-Dilma de origem machista.

Entretanto, o ódio de que fala o Nassif é real. Se você não o viu ao vivo, pode vê-lo facilmente na rede (sugiro os comentários de leitores no site do Estadão). Ele vem de um setor específico da classe média, aquele que jamais está satisfeito, sempre louco para subir e morrendo de medo de descer. Observe os meios que ele cita: escolas, "média-gerência" de empresas, funcionários de banco.

Este setor, como quase toda a sociedade (ainda que desigualmente), teve ampliadas no governo Lula suas oportunidades de emprego, negócios, investimentos, enfim, de incremento de renda. Porém, para eles, renda não é tudo. É preciso "distinguir-se". Não sendo ricos, aproximam-se destes e distanciam-se da massa pobre através de pequenos sinais de "distinção", como empregadas domésticas, educação universitária e viagens aéreas.

É esta "distinção" que começa a ir para o vinagre quando os pobres viajam de avião, quando os negros estudam Engenharia ou Medicina (História pode), quando as domésticas largam o emprego para vender marmitex. É isso que a classe média aristocrática não pode aguentar: sua indiferenciação em relação ao povo. É isto o que odeia no governo Lula/Dilma.

Este é, possivelmente, o único país em que o adjetivo "ordinário" é tido como ofensa, e "distinto" como elogio. Em que se cobra ingresso para pular carnaval na rua. Em que se pergunta a funcionários legitimamente constituídos pelo Estado se eles sabem com quem estão falando.

É assim desde a colônia, quando elementos livres pobres (brancos ou não) esforçavam-se para adquirir pelo menos um escravo - meio de sustento, em certos casos, mas também símbolo de poder. No império, as pequenas e médias elites esfaqueavam-se na disputa por migalhas de nobiliarquia. Mas vá lá: era inteligível, no código cultural da época. Não era, nem pretendia ser, uma sociedade de iguais.

O problema é que a sociedade brasileira insistiu em trazer a exclusão social para a modernidade. Vieram as figuras do "elevador social", da "boa aparência" (essa é grossa!), da "gente de bem". Mas tudo isso ficou politicamente incorreto. Então, nos anos 90, uma linda e nórdica colega de faculdade me "explicava" que não se trata de exclusão social, mas de "diferenças culturais", que impedem as pessoas de dividirem os mesmos espaços. Sei...

A vanguarda do ódio anti-Dilma se volta, na verdade, contra essa "ameaça" de indiferenciação. O discurso é cada vez mais violento, cada vez mais intolerante, à medida em que as décadas passam e o questionamento do status quo se intensifica. À medida em que as "médias elites" começam a se sentir em uma situação (verdadeira?) de Baile da Ilha Fiscal.

Nassif está certo: não se pode culpar a herança portuguesa. Outros países tiveram um passado semelhante e avançaram muito mais que nós na modernidade. O problema é que sempre foi mais fácil, no Brasil, costurar arranjos político-sociais por cima, o que acabou por petrificar certos privilégios (como comer, por exemplo).

Por isso é preciso derrotar Serra, o PSDB e seus robôs da internet. Já é mais do que um embate (real) de projetos: essa candidatura incorporou, de muito bom grado, as demandas de uma corrente que não pretende apenas impedir as mudanças (o que a faria meramente conservadora), mas também voltar ao passado (é, portanto, reacionária). A vitória de Dilma será mais um passo no lento esforço que Lula iniciou para erodir a desigualdade social.

Discordo, porém, de Nassif, quando chama de fascista o discurso da classe média enfurecida. Fascismos são, via de regra, movimentos de massa. Essa gente tem horror à massa.
Porém, é deste tipo de pensamento que o fascismo costuma se aproveitar para vir à tona.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ei Fofao,

otimo texto! Muito bom!

O que mais me assusta atualmente e' mesmo esse movimento ultraconservador e de cunho fascista. Estou preocupado com os tempos vindouros (mesmo Dilma ganhando), pois parece um movimento global pos-crise economica (vide o retrocesso da social-democracia europeia, e o movimento subrepticio de legitimacao do neoliberalismo apesar da crise). Acho que viveremos tempos mais sombrios, proximos ao que foram as decadas de 30 a 50 no seculo passado. Por isso mesmo temos que continuar lutando.

abracos

dimitri